JF Diorio/Estadão
Sandra Ganzert é especialista em gestão de risco e tem cerca de 120 jogadores como clientes JF Diorio/Estadão

Empresas se especializam em promover educação financeira a jogadores de futebol

Consultorias prestam orientações para que os atletas consigam ter uma aposentadoria confortável

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

04 de março de 2019 | 04h30

Além do técnico, do preparador físico e do agente, o jogador de futebol tem agora um outro profissional para auxiliá-lo, o assessor de investimento. São profissionais de empresas e consultorias especializadas em atender as finanças pessoais dos atletas. Essa turma passou a tomar conta do bolso do jogador, de modo a sugerir corte de gastos, compras de imóveis, organizar sua contabilidade e verificar contratos atuais para garantir que os bons salários de hoje representem uma vida confortável no futuro, quando o atleta estiver no fim de carreira ou já aposentado – geralmente perto dos 35 anos.

O vínculo do jogador com o profissional que vai cuidar de suas finanças vai além de acompanhar o saldo do cartão de crédito e aplicações. Quem contrata o serviço dessas empresas pode pedir para um funcionário preparar sua mudança de cidade, por exemplo, ao procurar o imóvel planejado, assim como criar um mapeamento das comodidades no novo bairro e das melhores escolas para os filhos. 

O lateral-esquerdo Mansur, do São Bento, passou a contar com esse serviço no ano passado. Após abrir suas contas, o atleta descobriu que poderia deixar de desperdiçar dinheiro. "Eu tinha cartões de crédito e contas abertas em vários bancos. Tinha em Salvador, Belo Horizonte, Curitiba e Aracaju. Decidi acabar com isso. Coloquei tudo em uma mesma agência e reduzi o gasto", contou.

Mansur disse ter mudado de opinião após conversar com o consultor sobre investimentos. Em vez da tradicional escolha por imóveis, ele descobriu um novo ramo. "Não adianta só comprar apartamento. A gente se muda muito de cidade e gastaria muito com reformas. Passei a conhecer opções de investimento fora do banco, algo que nunca tinha ouvido falar", diz.

O jogador é um dos cerca de 120 clientes da assessoria Planner Sports, criada em 2018 pelo meia Tiago Real, da Ponte Preta, junto com seus sócios. O grupo atende desde atletas que ganham menos de R$ 10 mil por mês até nomes com vencimentos próximos a R$ 1 milhão.

Durante o trabalho, a empresa encontrou casos de jogadores com contas no cartão de crédito de R$ 800 mil, falta de recursos para pagar as pensões de ex-mulheres, excesso de gasto com carros e desperdício com fretamento de avião para visitas de parentes. Para cada um desses casos, a empresa procura propor soluções simples e ensinar o cliente a colocar na ponta do lápis todos os gastos.

"A maioria dos atletas precisa de ajuda e tem de ser alarmado. O futebol consome o jogador, e ele esquece de pensar no futuro", explica Tiago Real. Uma das sócias dele, a gestora de risco Sandra Ganzert, é a responsável por apresentar ao atleta os planos financeiros que combinam com sua condição. Entre os clientes, estão Jailson, do Palmeiras, Hudson, do São Paulo, e Fábio Santos, do Atlético-MG.

Sandra conta que considera a atuação da empresa importante também para os clubes, principalmente quando se trata de ajudar na mudança de cidade do jogador. "A estimativa é que atleta leve 45 dias para se instalar numa cidade com a família. Esse período é devastador para o clube. Por isso, é bom ter ajuda. O jogador só precisa se preocupar com o futebol", afirma.

AUXÍLIO

O ramo de assessorias especializadas em ajudar jogadores começou a se fixar no mercado há menos de dez anos. Está crescendo. Segundo pessoas ouvidas pelo Estado, o cliente pode remunerar o consultor de três formas: porcentagem sobre o total do patrimônio administrado, comissão sobre cada um dos serviços realizados e um valor fixo por mês, que costuma ser de até R$ 5 mil.

Uma das primeiras empresas na área foi a Redoma Capital, criada há sete anos, e que teve no início das operações a participação dos jogadores Paulo André e William Machado, que atualmente trabalha em outro projeto semelhante. O diretor executivo da empresa, Henning Sandtfoss, administra hoje as finanças de 40 clientes, dos quais cerca de metade joga no exterior. Na opinião dele, se por um lado os jogadores ganham bons salários e em moedas estrangeiras, eles são os responsáveis por sustentar várias pessoas da família. Tem mais. Por serem famosos, viram alvo de golpes.

"O atleta quando vai contratar um serviço ou comprar um bem, ele é explorado. A pessoa costuma ver do outro lado um cifrão (na sua testa), e não um cliente comum. Por isso a gente blinda o atleta e faz as negociações. Ele não aparece. Qualquer coisa que um atleta tentar comprar será mais caro só porque ele é atleta", diz o executivo.

Embora os casos de desperdício sejam numerosos, o empresário considera que há um cenário de mudança, com mais informação para os jogadores procurarem uma educação financeira e evitar repetir histórias ruins de colegas de outras gerações.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

William Machado, ex-zagueiro e assessor de investimentos da Messem, escritório vinculado à XP Investimentos

1. Após ter sido zagueiro, como você começou a atuar na área financeira?

Eu cursei ciências contábeis e o mercado de capitais sempre me atraiu. Quando jogava em equipes pequenas, via dificuldade de planejar o meu futuro. Depois, quando comecei a ganhar mais dinheiro, percebi que precisava economizar. Vi muitos colegas se perderem porque acharam que a boa condição propiciada pelo futebol ia durar para sempre. O padrão de vida do jogador é muito difícil de ser repetido depois da carreira.

2. Quais investimentos costumam ser os mais recomendados para os jogadores de futebol?

Eu atuo como se fosse um médico do dinheiro. As pessoas me pedem exames para se ter um diagnóstico e eu receito o que é mais recomendado. É preciso entender a realidade, porque cada um tem uma vida diferente. É preciso ver o que cada um quer, o objetivo, se é casado, se tem filhos, qual a idade. Também é um processo de educação. Então, varia muito o tipo de investimento que pode ser feito.

3. Geralmente, em que os atletas mais gastam dinheiro?

Carro, imóvel e familiares estão entre os maiores gastos do jogador. Em geral, ele tem como característica ter vindo de classe baixa. Quando ascende financeiramente, as pessoas próximas tendem a recorrer a ele e é difícil recusar. Se isso não for administrado, o patrimônio dele será sugado. O fato de eu ter sido jogador de futebol me ajuda no trabalho, pois cria uma relação de confiança e de entendimento. Eu também sofri com pessoas que me enganaram. No futebol isso acontece muito.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Conheça histórias de jogadores de futebol que desperdiçaram dinheiro

Reportagem recupera exemplos de atletas que não fizeram bom uso do salário como profissional

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

04 de março de 2019 | 04h30

Em conversas com jogadores e gestores financeiros, o Estado recupera histórias de atletas que não conseguiram administrar corretamente o dinheiro ou se tornaram vítimas de golpes. Um dos exemplos mais famosos nesse tipo de assunto é do ex-atacante Muller, que admitiu ter perdido o dinheiro conquistado na carreira como profissional.

Ex-atacante da seleção brasileira foi à falência

O caso mais famoso de atleta que perdeu muito dinheiro depois de se aposentar do futebol é o ex-atacante Muller. O ídolo do São Paulo e tetracampeão mundial com a seleção brasileira na Copa de 1994 admitiu a situação em 2011, em entrevista ao jornal Marca, em que comentou sobre o arrependimento de não ter se organizado melhor com as finanças.

Na época da entrevista, Muller contou que estava sem plano de saúde, carros ou casa. "Errei muito na vida. Tive bons momentos financeiros, mas errei. Fiz muita bobagem. Gastei tudo com besteira, com mulheres e carros", disse na ocasião. O ex-jogador contou que já comprou mais de 20 veículos. "Gastei com vaidades pessoais. Gastei dinheiro com amigos de ocasião. Por eu ser uma pessoa generosa, muita gente se aproveitou mesmo de mim", completou.

Em 2011 o ex-atacante estava morando de favor na casa de Pavão, antigo colega de São Paulo. Depois do fim da carreira, Muller trabalhou como treinador, foi pastor de igreja, ficou três anos desempregado e se recuperou ao retomar a carreira como comentarista esportivo em emissoras de televisão. Outra fonte de renda é participar como convidado em amistosos e partidas na categoria master.

Carros de luxo empoeirando na garagem

Um jogador que atua no exterior recebeu uma orientação anos atrás para diminuir os gastos no Brasil. O atleta fazia questão de manter na sua cidade natal uma mansão de luxo com vários carros importados na garagem, mesmo sem usar todo esse conforto diariamente, pois vivia em outro continente e só frequentava o local durante um mês por ano, quando estava de férias.

O profissional responsável por avaliar as finanças sugeriu que o jogador abrisse mão de manter esses bens. Pelas contas dele, o atleta gastaria menos se alugasse uma casa e carros de luxo apenas para o período em que estivesse no Brasil. A justificativa foi de que anualmente a estrutura mantida na cidade representava um gasto muito grande com impostos e a manutenção do imóvel.

Apesar disso, o jogador insistiu e não quis mudar de ideia. Ele entendeu que seria interessante continuar com a casa e os carros na cidade por ser mais cômodo e por representarem também o símbolo da carreira vitoriosa.

Em um outro caso parecido, um jogador que ganhava cerca de R$ 200 mil gastava todo o salário no pagamento das parcelas de três imóveis financiados. Após ser convencido por um amigo a realizar o investimento, ele decidir procurar ajuda, pois todos os meses ele usava o limite do cheque especial fornecido pelo banco.

Atleta pagou casa que nunca foi construída

Recentemente uma consultoria de investimentos analisou a contas de um jogador e encontrou um grande desperdício nela. O atleta, cujo nome não foi revelado, tinha a família em outro Estado e entrou em acordo com uma pessoa próxima a fim de repassar todo mês cerca de R$ 30 mil, com a promessa de que o valor seria investido na construção de uma casa avaliada em R$ 1 milhão, a ser erguida em terreno de bairro nobre.

Uma auditoria nos extratos bancários encontrou informações de que a mensalidade foi paga durante mais de dois anos. Apesar disso, o jogador não havia assinado contrato com o tal amigo para a prestação do serviço. Toda a operação foi executada na base da conversa, da confiança nos parceiros.

Como o jogador atuava em um clube longe da cidade natal, não chegou a acompanhar a obra. A consultoria contratada pelo atleta passou a desconfiar da situação e decidiu, então, enviar um funcionário até a cidade a fim de verificar o andamento da construção. Não deu outra. Na chegada ao possível empreendimento, não havia casa. 

Durante os mais de dois anos de repasses mensais, o terreno tinha somente uma cerca de arame farpado e o início de uma fundação de casa, com vestígios de que a obra estava parada havia meses. O jogador não conseguiu recuperar o prejuízo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.