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Antero Greco
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Encanto e feitiço

O Santos foi campeão com méritos e teve até gol mal anulado na tarde de ontem na Vila Belmiro. Mas o Paulistão de 2016 só não foi modorrento como virou moda há bastante tempo porque apresentou o Audax como novidade. O time de Osasco, sob o comando do promissor Fernando Diniz, saiu da mesmice com uma estratégia de futebol leve e atrevida, algo que hoje assombra e que, no entanto, compôs o DNA nacional por décadas e décadas. Não levou a taça, porém arrebatou elogios irrestritos.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2016 | 03h00

Injustiça e cretinice desdenhar da proeza alvinegra – agora o segundo maior vencedor do torneio estadual, ao lado do Palmeiras, com 22. Não se chega por acaso a oito finais consecutivas, tampouco foi ato isolado na trajetória recente pelas bandas da Baixada. Nos anos 2000, o clube que teve só o maior jogador da história – um tal Pelé – ganhou também Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores, Recopa Sul-Americana. Sobram provas de eficiência.

Dorival Júnior manteve o equilíbrio de grupo que pegou à deriva, no segundo semestre de 2015 e que sofreu diversas baixas no início da atual temporada. Apostou na liderança de atletas maduros como Renato e Ricardo Oliveira, deu liberdade para jovens talentos como Lucas Lima e Gabriel. Acima de tudo, não encaixotou a criatividade da tropa. Se não assombra nem é exuberante, também não decepciona.

O Santos faz e toma gols, na dinâmica normal do esporte. Teve trabalho tremendo contra o Audax, tanto na semana passada quanto neste domingo. Levou sufoco em casa, até desatar o nó pelos pés de goleador. Na primeira bola que lhe sobrou livre, Ricardo Oliveira arrancou a toda e só parou para a comemoração do rico placar de 1 a 0.

O campeão soube conter o avanço do Audax, no segundo tempo, arrepiou-se com bolas na trave, e deu o bote certeiro para dobrar a vantagem. Só não respirou aliviado de vez, quando Joel chutou para o gol de Sidão, porque um dos bandeirinhas enxergou impedimento. O árbitro Raphael Claus embarcou na canoa furada e endossou o erro.

Pela quantidade de elogios acumulados no campeonato, nota-se que a proposta do Audax não é uma fria. O time de Diniz provocou estragos amplos em rivais dos mais variados níveis. No começo, passeou despercebido e parecia fogo de palha. Perto do fim da fase de classificação, passou a chamar a atenção. Só então, a maioria se deu conta de que havia algo diferente na Série A. Tratava-se de equipe que não rifava a bola, economizava nos chutões, estonteava o concorrente até a estocada fatal.

Pronto, de uma hora para outra o Audax foi adotado por público e crítica. Com razão, e em consequência da proposta simples e sofisticada ao mesmo tempo. Soava como ovo de Colombo a maneira escolhida por Diniz para distribuir seus rapazes em campo. Por aqui se descobriu que o futebol brasileiro tem espaço para tabelas, dribles, chutes a gol, pouca catimba e raros pontapés. Olhe só, caro amigo, que invenção! Diniz teve a coragem – e o respaldo – de voltar às origens. E, em tempos de criatividade em baixa, saltou aos olhos o estilo audaxioso (!).

Resta a pulga atrás da orelha. As loas ao Audax às vezes parecem reação de simpatia que se tem pelo time mais fraco, menos badalado, com torcida pequena. Algo como elogiar o Leicester, porque é de longe daqui e pinta como experiência simpática. Por que não há nenhum grande, no Brasil, que opte por modelo semelhante ao do pessoal de Osasco? Porque há cobrança, impaciência, limitação. Não tem dirigente que banque a aventura nem treinador que apresente projeto e convença. A saída fácil é a da filosofia rasa do “futebol bonito não ganha jogo.”

O encanto do Audax tende a ser isolado e sofreu baque com o feitiço da Vila, onde o Santos é terrível.

GALO FERIDO.

Atlético por um triz não anulou a vantagem do América e fisgou o título mineiro. Deixou-o escapar, com o 1 a 1. Convém o São Paulo ficar de sobreaviso, pra não pagar a conta, na quarta, pela Libertadores.

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