Endividados, clubes de futebol aderem ao Refis

Endividados, clubes de futebol aderem ao Refis

Programa de parcelamento de débitos atrasados com a Receita Federal vira salvação das agremiações atoladas em crise financeira

João Villaverde, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2014 | 17h00

No campo financeiro, o futebol saiu da retranca para ajudar os combalidos cofres federais. Nada menos do que 33 clubes aderiram ao Refis, o programa de parcelamento de débitos atrasados com a Receita Federal. Entre eles estão grandes equipes, como Corinthians, Flamengo, Atlético-MG, Botafogo e Fluminense. Mas a lista inclui também times como Paysandu, Remo e Coritiba, entre outros. O Estado apurou que os clubes depositaram nos cofres do Fisco quase R$ 100 milhões desde agosto, com a adesão ao Refis.

Em grave financeira, os clubes de futebol receberam de braços abertos a iniciativa do governo federal. O jogo foi de "ganha-ganha": em busca de recursos para melhorar as contas públicas, o governo recorre ao Refis, oferecendo um desconto no total devido pelos contribuintes inadimplentes.

O Corinthians negociou com a Receita toda a sua dívida tributária até 2011, informou o diretor financeiro do clube, Raul Côrrea da Silva. "Quando fomos rebaixados para Série B, em 2007, as dívidas do Corinthians poderiam nos levar para a Série C. O quadro de hoje é muito melhor. Voltamos a pagar tudo em dia a partir de 2011 e negociamos o atrasado agora", disse. O Corinthians pagou uma entrada de R$ 6 milhões e negociou os demais R$ 30 milhões, já com desconto de 25% aplicado ao saldo total devido.


Aporte ainda maior fez o Atlético MG, que parcelou em cinco vezes o pagamento da entrada de R$ 25 milhões. Sua dívida federal total, avaliada em R$ 270 milhões, foi reduzida a pouco menos de R$ 200 milhões graças à adesão ao Refis. Segundo seu presidente Alexandre Kalil, o Refis é "o primeiro grande passo" para melhorar a situação financeira do futebol brasileiro. 

"É preciso arrumar o passado, acertando condições melhores para o pagamento das dívidas. Agora, o segundo passo seria criar uma nova estrutura tributária, específica ao futebol", disse Kalil. De acordo com o dirigente, o desempenho esportivo de um clube em crise financeira é contaminado. "É preciso um esforço inacreditável para evitar que o time seja abalado. Mas sempre é", disse ele.

No caso do Fluminense, o presidente Peter Siemsen informou que o clube ingressou com sua dívida de R$ 48 milhões no Refis. Com o desconto automático, o passivo caiu a R$ 32 milhões. O clube pagará R$ 5 milhões, ao todo, como entrada, e o restante será negociado em 180 meses.

No geral, apenas em agosto, o Refis rendeu R$ 7,1 bilhões aos cofres públicos. A participação do futebol parece pequena no conjunto, mas o Ministério da Fazenda está em uma fase crítica. "Parece pouco, mas é um dinheiro que não havia mais perspectiva de entrar nos cofres públicos. Para os clubes, por outro lado, é muito dinheiro", disse ao Estado um auditor da Receita envolvido na operação. 

Ao aderir ao programa, os clubes recebem desconto na dívida. Eles precisam pagar uma entrada de 20%, que pode ser dividida em até cinco parcelas, e negociam o pagamento dos 80% restantes em 180 meses. O pagamento no Refis é corrigido pelos juros do BNDES, hoje em 5% ao ano, abaixo da inflação.

CRISE NO CAMPO

"Nossos problemas afetaram a performance esportiva, sem dúvida. O Fluminense pagou impostos em dia em 2011 e 2012, e teve bons anos, fomos campeões cariocas e do Brasileirão em 2012. Por conta de desentendimento com a procuradoria fazendária do Rio, ficamos inadimplentes em 2013, e o desempenho esportivo se refletiu. Se não paga salários e fornecedores em dia, o ritmo cai. Tudo vira uma bola de neve", disse Siemsen.

Os maiores endividados do País, Flamengo e Botafogo, não comentaram. O Flamengo, por meio de sua assessoria, afirmou apenas que "de fato entrou (o clube) no Refis, no entanto, dados de modelo de pagamento e valores são internos".

O Botafogo sequer respondeu aos pedidos da reportagem. O Estado apurou que o alvinegro negociou o pagamento de uma entrada de R$ 12,5 milhões em cinco meses e negociou o restante. Em grave situação financeira, a gestão de Maurício Assumpção contou com o auxílio de torcedores ricos para ajudar no pagamento à Receita, uma vez que quase 100% das receitas do clube estão penhoradas pela Justiça.

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