Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Enfim, uma partida sóbria do Brasil

Estou para dizer que Philippe Coutinho é hoje muito mais importante do que Neymar na Copa

Robson Morelli*, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2018 | 21h10

O Brasil estava precisando de uma partida sóbria na Copa, sem firulas de seus personagens, jogando com inteligência e seriedade como foi na vitória de 2 a 0 sobre a Sérvia nesta quarta-feira – resultado que levou a equipe para as oitavas contra o México. Na base da conversa e dos treinos fechados, a seleção se arrumou para o jogo de Moscou. Colocou a bola debaixo do braço e correu pelos caminhos simples do campo, como deveria ter sido desde a estreia diante da Suíça, passando ainda pelo sufoco que foi contra a Costa Rica. O time amadureceu.

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Isso também tem a ver com a postura de alguns jogadores. Philippe Coutinho contagiou a todos, inclusive Neymar. Ambos têm a mesma idade, 26 anos, mas comportamento até então totalmente diferente. Um é mais centrado. O outro é mais fanfarrão – no bom sentido. Um começou a Copa fazendo gol e sendo decisivo para a seleção. O outro quis apenas se aparecer. Um sempre atuou em nome do grupo. O outro jogava por sua própria imagem. Um chorou. O outro não chorou.

Que ótimo então que Neymar tenha sido contagiado por Coutinho ainda nesta primeira parte da competição. Porque o principal jogador do Brasil, de quem se espera sempre mais, mudou da água para o vinho, e tenho certeza que isso nada tem a ver com o seu cartão amarelo – o segundo o deixaria fora da próxima partida até a fase de quartas de final, quando tudo é zerado. Neymar foi contra a Sérvia um jogador elegante. Não xingou o juiz, estendeu a mão para os adversários, pediu e aceitou desculpas de jogo. Um verdadeiro cavalheiro.

Digo isso muito à vontade porque o critiquei nas outras atuações na Rússia. Então, para ser honesto como ele e comigo mesmo, devo esse reconhecimento. O que o brasileiro viu em Moscou, pela primeira vez nesta Copa do Mundo, foi um Neymar despido de todos os seus penduricalhos e outras intenções. Vimos um Neymar sóbrio. Focado em apenas jogar futebol. Alguém deve ter falado para ele que nada significa mais do que ganhar a competição. Não tem gol, drible ou jogada mais memorável do que erguer a taça. Podemos até discutir lá na frente, sem o calor da disputa, aquela carretilha que ele deu no rival costa-riquenho. Haverá os que vão defendê-lo e os que continuarão a condená-lo. Bem diferente da avaliação que teve na vitória por 2 a 0 contra os sérvios. Neymar manteve a tranquilidade, ganhou e perdeu bola, participou mais do jogo, driblou quando esse era o melhor fundamento e fez tudo o mais que se esperava dele sem simular nada.

Outros jogadores também apareceram mais para esse jogo, caso de Paulinho, defendido por Tite na véspera porque, pelas partidas anteriores, ele poderia deixar o time num consenso comum. O treinador decidiu mantê-lo e se comprovou que a decisão fora acertada. Paulinho fez um primeiro tempo mais participativo, com boas penetrações. O gol apenas resumiu seu trabalho nesta partida.

Pela terceira vez em três jogos, Philippe Coutinho fez a diferença. O jogador do Barcelona é nosso único armador, e não se ganha jogo sem bons armadores. Foi dele, por exemplo, a enfiada de bola quando a disputa estava empatada. Achou Paulinho correndo nas costas da marcação. O meia assumiu a seleção e tem feito dela uma vitrina de sua qualidade e liderança técnica. Estou para dizer que Philippe Coutinho é hoje muito mais importante do que Neymar na Copa.

 

*EDITOR DE ESPORTES DO ‘ESTADÃO’

 

 

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