Enrascadas tricolores

Há estereótipos difíceis de derrubar no futebol. Um deles é referir-se a Corinthians e Palmeiras como “clubes populares” e com direção conturbada; portanto, expostos a crises à menor oscilação nos resultados, em função da passionalidade das respectivas torcidas e cartolas. Outro é classificar o São Paulo como time “de elite” – e o rótulo embute a suposição de público e dirigentes com postura racional e elegante nas turbulências.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2016 | 03h00

Meias-verdades, que fatos, mudanças e tempo tornaram anacrônicas. Alvinegros e palestrinos continuam a ter seguidores e gestores apaixonados, ao mesmo tempo em que revelam organização impensável até um punhado de anos atrás. Tricolores há muito passaram a ter enorme aceitação em todas as camadas sociais, assim como deram um bico na imagem de serem conduzidos por lordes.

A verdade grita na cara da gente, e a maioria se finge de surdo: o São Paulo de hoje repete erros de Corinthians e Palmeiras de ontem. Enquanto os rivais avançam, ele marca passo, quando não retrocede. Nos dois Parques, a política interna deu trégua nos estragos que provoca, e tem havido processos sucessórios com relativa serenidade.

No Morumbi, ocorreu o inverso, com alteração de estatuto, reeleições seguidas, presidente afastado. Até sopapos em público entre aliados aconteceram. Vergonha outrora inimaginável.

A desgraça começou com as manobras para manter o falecido Juvenal Juvêncio no comando por mais tempo. Ali foi pro espaço o verniz de alternância de poder no São Paulo. O recuo o levou em 2014 a eleger para a presidência Carlos Aidar, personagem que já ocupara o posto três décadas atrás, entre 1984 e 1988. Aidar renunciou no fim de 2015, após processo tumultuado.

O encolhimento de mentalidade estendeu-se para o campo. Não é por acaso que, desde o tri brasileiro de 2006/07/08, o São Paulo não levanta taças, o que lhe era rotineiro. A exceção ficou para a Sul-Americana de 2012, numa final interrompida no intervalo com queixas de agressão aos visitantes a caminho dos vestiários. A secura pesa para agremiação acostumada a ser protagonista de quase tudo.

No período foram cometidos erros em contratações, tanto de jogadores como de técnicos. O entra e sai incessante de professores revela outro sintoma de desorganização. Sim, eu sei, Osorio e Bauza saíram por receberem convites para seleções. Parabéns, mas não invalida a ideia central, de insegurança de quem topa o desafio de ajustar o hexacampeão nacional e tri mundial.

Mito a contestar: a qualidade do elenco. Não é de agora que o nível da trupe tricolor está aquém da sua média histórica – com decréscimo. Claro que possui bons atletas, como exige o perfil de instituição tão ilustre. No entanto, fica abaixo do que apregoa a direção.

O grupo é fraco, e parece que paira no ar pudor – de crítica – de tocar na ferida. O chavão em cena de novo, a indicar que só veste a gloriosa camisa são-paulina quem for craque. Por isso, soa heresia descer a lenha. Não é assim; tem muito jogador com mais nome do que bola. E parece que a torcida percebeu o engodo.

A derrota por 2 a 1 para o Juventude, anteontem, expôs as limitações atuais. Zebras passeiam com frequência, sobretudo na Copa do Brasil, e não se descarta virada, na volta, em 21 de setembro, no Sul. É possível. Mas o São Paulo não transmite confiança, e tem gente de dentro a meter a bronca no trombone. Emblemático o desabafo do zagueiro Maicon, ao admitir que o time tem se comportado como “pequeno” e ao pedir empenho redobrado de todos. O moço não falou por acaso...

Sobra também para Ricardo Gomes, sujeito decente e bacana, que acabou de chegar a fez escolhas duvidosas na escalação. E não cabe o discurso de que precisa de tempo para ajustar a casa. Se topou a parada nesta altura da temporada, sabia que precisa de resultados imediatos, pra ontem. Então, obtenha respaldo da direção e admita que o foco é para 2017. E lá se perde mais um ano...

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