Wilton Junior/Estadão
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Ensinamentos

Suárez, 31 anos, deixa completamente a parte moleque de lado quando está perto do técnico Oscar Tabárez, de 71 anos

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2018 | 04h00

O uruguaio Luis Suárez é um dos principais atacantes do futebol mundial e sempre um dos protagonistas em Copas do Mundo, ainda que algumas vezes mais pelo que faz em campo que extrapola sua habilidade com os pés do que o que faz com eles. Foi assim em 2010, quando salvou um gol de Gana no fim do jogo pelas quartas de final, fazendo uma defesa com as mãos; foi assim em 2014, quando mordeu o italiano Chiellini; e foi assim no duelo de sábado com Portugal, quando foi atingido duas vezes pelas costas e se atirou ao chão reclamando ter sido agredido na cabeça.

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Essa é a parte moleque, que eventualmente cruza o limite do aceitável, que o uruguaio de futebol vistoso e aguerrido usa para buscar uma vitória. E ele, como todos que honram a camisa ao sul do continente, quer sempre a vitória. É assim no futebol, foi assim nas batalhas históricas.

Mas Suárez, 31 anos, deixa completamente a parte moleque de lado quando está perto do técnico Oscar Tabárez, de 71 anos. Cena marcante de sexta passada, véspera de Uruguai x Portugal: Tabárez e Suárez concedendo entrevista em Sochi, o treinador falando, o atacante ouvindo atentamente, cabeça ora baixa, ora fazendo sinal de positivo. Não era submissão, era reverência e compreensão de que quem estava falando era alguém mais experiente, que merecia ser ouvido.

Uma das coisas que mais admiro é justamente esse respeito e reconhecimento que o uruguaio - não apenas Suárez, quase todos eles - tem pelos mais velhos. Tabárez comanda sua seleção há doze anos, é chamado de Maestro, nunca é confrontado com voz alta e procura sempre responder com algum ensinamento nas entrelinhas. Busca para isso referências de Copas passadas, de clubes por onde jogou ou de países por onde passou. Ele sabe que nada se conquista sem que se aproveite o que deu de certo, ou o que deu de errado, lá atrás.

 

No esporte, esse respeito aos mais velhos não é visto apenas dentro do campo de jogo. Fui a jogos que tiveram presença de jornalistas de Costa Rica, Sérvia, México, Portugal, Espanha, Panamá, Alemanha e Suécia, além, é claro, do Brasil, e em nenhum deles vi tantos profissionais com mais de 50 anos do que no jogo que envolveu uruguaios. São jornalistas que talvez não tenham a mesma habilidade dos mais novos em produzir para as tantas mídias que a era digital nos oferece, mas que têm algo que engrandece o esporte: um texto mais bonito, um olhar mais afeito aos detalhes e uma maneira mais agradável de narrar as histórias, às vezes quase como se fossem contadas de pai para filho.

Hoje, tal qual o Brasil, o Uruguai terá sua partida mais difícil até aqui na Copa. O duelo com os franceses pelas quartas de final será mais uma oportunidade para o Uruguai, um bicampeão que não conquista o torneio há 68 anos, “recuperar o protagonismo no futebol mundial”, como vem dizendo Tabárez. É bem provável que nossos vizinhos não possam contar com Cavani, lesionado, e que dependa muito de Suárez. Se os uruguaios vão ganhar ou perder, se estarão no nosso caminho na próxima etapa da Copa ou não, não dá para saber.

O que já dá para saber é que o jogo deixará ensinamentos que serão lembrados por muitos anos, e que eles serão narrados ao sul do continente quase como histórias de pai para filho.

*MARCIO DOLZAN É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’ ENVIADO À RÚSSIA

 

 

 

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