Canindé Pereira / América-RN
Canindé Pereira / América-RN

Entenda a polêmica demissão de treinador no América-RN após problemas com vacina contra covid-19

Em caso inédito no Brasil, Edson Vieira deixou o clube potiguar antes da estreia porque a direção não queria esperar o prazo de 14 dias de isolamento  

Anthony Medeiros, especial para o Estadão

05 de maio de 2022 | 20h00

O América de Natal, clube que disputa a Série D do Campeonato Brasileiro, anunciou no último fim de semana a saída do técnico Edson Vieira antes mesmo de sua estreia oficial. Como o treinador só se vacinou contra a covid-19 no sábado, dia 30 de abril, o clube preferiu não esperar os 14 dias estipulados no Guia Médico da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para ter o profissional na beira do gramado e decidiu pelo seu desligamento. 

Edson Vieira, que é pai do youtuber e jogador Juninho Manella, foi anunciado no dia 27 de abril. Inicialmente, o América-RN divulgou que ele não comandaria o time contra o Afogados-PE no sábado por não ter sido regularizado a tempo no Boletim Informativo Diário (BID) da CBF.

Porém, pouco antes de a bola rolar, a informação era de que o técnico ficou fora por ter se vacinado somente horas antes da partida. Ele não havia tomada nenhuma das doses do imunizante contra a covid-19. 

Sem a regularização, Edson Vieira acompanhou da arquibancada a derrota por 1 a 0 da sua equipe e comentou sobre os motivos que motivaram sua escolha de só ter se vacinado naquele dia, mais de um ano após o início da aplicação de imunizantes no país. "Vivo em um país democrático e em nenhum momento ninguém colocou uma arma em minha cabeça e disseram que eu era obrigado a me vacinar", afirmou o profissional, visivelmente incomodado com o questionamento dos jornalistas.

O treinador mencionou problemas hereditários e garantiu que não pegou covid-19, mesmo após ter feito quase 90 testes no período. "É direito de um cidadão brasileiro que fez 87 exames contra a doença, não pegou e tem problema familiar com trombose. Eu não queria nem entrar nesse mérito porque não é futebol", afirmou.

O departamento de futebol do América informa que não sabia que o treinador não estava vacinado, uma condição defendida pelo clube potiguar para seus profissionais. "O Edson Vieira estava trabalhando até 15, 20 dias atrás na A3 do Paulista pelo São José-SP. Então, para nós, como iríamos saber que ele não tinha tomado vacina?", afirmou Edson Fassina, diretor de futebol do América-RN.

Pelo clube paulista, o técnico esteve na beira do gramado em 18 partidas, deixando a agremiação na fase quadrangular, sem o acesso. Ele disputou seu primeiro jogo oficial no fim de janeiro, e não teve problemas com a vacinação contra a covid-19 porque o protocolo elaborado pelo Comitê Médico da Federação Paulista de Futebol (FPF) apenas recomendava a vacinação completa de todos os profissionais, além de exigir testes para covid antes de cada partida.

A partir do dia 10 de março, após o Governo de São Paulo anunciar a liberação total do público nos estádios e a dispensa no uso de máscaras, a FPF passou a exigir dos não vacinados um termo de responsabilidade (com anuência do médico do clube) para a assinatura em súmula, que o técnico permanecesse atuando regularmente sem a exigência da vacinação. Apenas ao chegar no clube potiguar, desta vez sob diretrizes da CBF, que exigiam a imunização completa, o técnico teve de se vacinar.

REGRAS DO JOGO

O tempo de 14 dias que o América-RN teria de esperar para contar com o técnico recém-vacinado é uma diretriz disposta no Guia Médico da CBF, um documento publicado inicialmente em junho de 2020 e que vem recebendo atualizações até então. Na última delas, em janeiro deste ano, foi determinada a exigência do ciclo vacinal completo (dose única ou duas doses) para que jogadores e integrantes das comissões técnicas estejam disponíveis para inscrição em súmula e, com isso, para atuarem profissionalmente em competições nacionais.

De acordo com o guia médico, o prazo de 14 dias é contado após a data da aplicação de vacina de dose única ou da D2. Como recebeu a aplicação de um imunizante de dose única, Vieira teria condições de ser inscrito em súmula no dia 15 de maio, espera considerada inviável pelo clube potiguar, o que acarretou na demissão.

Ainda no Rio Grande do Norte, o principal rival do América-RN, o ABC precisou aguardar para contar com dois de seus reforços anunciados antes do início da Série C. O lateral Alison, ex-Água Santa-SP, e o volante Wellington Reis, ex-Aimoré-RS, só tomaram a D2 em Natal, e precisaram aguardar o prazo de 14 dias para terem condições de atuar pelo Alvinegro.

Procurada pelo Estadão, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não quis comentar o assunto. A vacina foi tema polêmico também na seleção brasileira. Em janeiro de 2021, Tite revelou que deixou o lateral Renan Lodi fora da convocação para os duelos com Equador e Paraguai devido ao fato de atleta ter tomado, naquela altura, apenas uma dose da vacina.

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