Nathalia Aguilar/EFE
Nathalia Aguilar/EFE

Entenda como está o caso em que Ronaldinho Gaúcho foi condenado por usar documentos adulterados

Estadão resume tudo que aconteceu com o ex-jogador e seu irmão, Roberto Assis, no Paraguai desde que eles foram presos

Andreza Galdeano, Daniel Batista, Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2020 | 22h00

Ronaldinho Gaúcho e o irmão Roberto Assis Moreira estão livres da prisão domiciliar no Paraguai. Os dois acertaram nesta segunda-feira o acordo de soltura, com pagamento de multa de US$ 200 mil (R$ 1,12 milhão). Ronaldinho e Assis ficaram 171 dias presos em Assunção, desde 6 de março, dois dias após entraram no Paraguai com passaportes falsos. Eles foram condenados, com pena suspensa de dois anos para Assis e de um para Ronaldinho.

Durante os quase seis meses no Paraguai, Ronaldinho e Assis estiveram na cadeia e depois em prisão domiciliar em um hotel. Agora, estão livres para retornar ao Brasil. O Estadão relembra abaixo como foi o período turbulento em que os dois ex-jogadores passaram em Assunção.

BUSCA POR SUSPEITA DE DOCUMENTOS FALSOS

No dia 4 de março, uma quarta-feira à noite, a polícia do Paraguai fez buscas na suíte onde Ronaldinho estava hospedado em um hotel próximo à capital Assunção. Os agentes relataram ter agido após denúncia do Departamento de Identificações da Polícia Nacional por suspeita de que o jogador e o seu irmão, Roberto de Assis Moreira, estivessem portando documentos falsos. Ambos ficaram detidos no hotel onde estavam durante a apuração do caso pelas autoridades.Foram apreendidos dois passaportes paraguaios considerados presumidamente adulterados e que estavam em nome de Ronaldinho e do irmão. Celulares também foram recolhidos. 

Ronaldinho havia chegado ao Paraguai para participar de um evento beneficente. Os passaportes supostamente adulterados teriam sido apresentados pelo jogador e pelo seu irmão no momento de entrar no país. 

RONALDINHO É PROIBIDO DE DEIXAR O PARAGUAI

No dia seguinte, Ronaldinho e Assis prestaram depoimentos ao Ministério Público do Paraguai por várias hora. O craque e seu irmão ficariam à disposição da Justiça do Paraguai por tempo indeterminado, segundo informou o promotor Federico Delfino, responsável pela investigação.

Ronaldinho afirmou, em depoimento, segundo o promotor, que identidades e passaportes foram "presentes" de uma pessoa que o convidou para visitar o Paraguai. Na noite de quarta, o brasileiro Wilmondes Sousa foi detido no hotel onde estavam os brasileiros. 

O Ministério Público do Paraguai decidiu não apresentar acusação formal contra Ronaldinho e Assis. O ex-jogador admitiu a prática do crime de utilização de documentação falsa, mas a promotoria considerou que eles foram enganados e solicitou a aplicação do "critério de oportunidade" por terceiros. No entanto, Mirko Valinotti, juiz criminal de Garantias de Assunção, decidiu rejeitar o pedido do MP e afirmou que a investigação sobre Ronaldinho e Assis continuaria.

CRAQUE DECIDE PERMANECER NO PAÍS

Ainda na quinta-feira, dia 5, o advogado encarregado de representar Ronaldinho e seu irmão disse que o ex-jogador decidiu não deixar o Paraguai até que o processo judicial contra ele seja resolvido. Adolfo Marín alegou que eles não estavam impedidos de deixar o país e que ambos receberam cartões de identidade e os passaportes paraguaios do empresário Wilmondes Sousa Lira no Brasil. "Não me lembro da data, mas cerca de 20 a 30 dias atrás", afirmou o advogado. Sousa Lira também foi preso na quarta-feira à noite. A presença de Ronaldinho no Paraguai com documentos supostamente falsos provocou uma crise política no país, especialmente pela demora das autoridades para apontar e investigar as irregularidades. Uma das consequências foi a renúncia do diretor de migração do país, Alexis Penayo.

 

RONALDINHO ADMITE CRIME E SE LIVRA DE ACUSAÇÃO

O Ministério Público do Paraguai decidiu não apresentar acusação formal contra Ronaldinho e seu irmão. O ex-jogador admitiu a prática do crime de utilização de documentação falsa, mas a promotoria considerou que eles foram enganados e solicitou a aplicação do "critério de oportunidade" por terceiros. Após quase 24 horas dos primeiros procedimentos e um longo dia de depoimentos na quinta-feira, o promotor Federico Delfino informou que os brasileiros não seriam acusados e que solicitaria a liberação de ambos.

JUIZ DECIDE QUE O EX-JOGADOR SERÁ INVESTIGADO

A reviravolta do caso aconteceu na sexta-feira, dia 6, quando Mirko Valinotti, juiz criminal de Garantias de Assunção, decidiu rejeitar o pedido do Ministério Público para não abrir processo contra os ex-jogadores. O promotor Delfino chegou a declarar que os investigadores detectaram que o pedido de naturalização paraguaia de Ronaldinho e o irmão foi registrado no Departamento de Migração. Ambos disseram que não solicitaram esse procedimento e o Ministério Público, então, anunciou a investigação de um possível esquema de falsificação de documentos que envolve funcionários públicos e pessoas do setor privado do país.

RONALDINHO E ASSIS SÃO PRESOS

No dia 6 de março, o Procurador Geral do Estado do Paraguai ordenou a prisão de Ronaldinho e Assis. Eles estavam no Sheraton Hotel, em Assunção, localizado a poucos minutos do Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi. Segundo a Polícia do Paraguai, ambos aguardavam o momento de partir para o terminal do aeroporto deixar o país.

IMAGEM DE RONALDINHO ALGEMADO CHOCA O MUNDO

Depois de serem presos preventivamente em Assunção, Ronaldinho e Assis deixaram o complexo da Agrupação Especializada da Polícia Nacional do Paraguai, onde passaram a noite em uma cela após pedido de detenção pela Procuradoria Geral. No dia seguinte, ambos chegaram algemados para a audiência. A imagem chocou o mundo, mesmo Ronaldinho tendo colocado uma toalha por cima das algemas.

Na audiência, o promotor da unidade especializada de delitos econômicos Osmar Legal ratificou o pedido de prisão preventiva de Ronaldinho e Assis.  A juíza Clara Ruiz Díaz determinou a manutenção da prisão preventiva.

SUSPEITA DE LAVAGEM DE DINHEIRO

promotoria paraguaia ampliou a investigação no domingo, dia 8. O Ministério Público solicitou várias informações de outras instituições e também apura uma possível conexão do caso com lavagem de dinheiro. Além dos ex-jogadores, empresários paraguaios e brasileiros são investigados. 

ADVOGADO DE RONALDINHO DIZ QUE PRISÃO É ILEGAL

O advogado de Ronaldinho, Sergio Queiroz, disse ainda neste domingo que seu cliente e irmão estão detidos de modo totalmente ilegal no Paraguai. Ele alegou que os ex-jogadores agiram "de boa fé" ao usar os documentos, sem saber que eram ilegais, pois procuravam iniciar negócios no país. O advogado também declarou que as autoridades diplomáticas do Brasil estão "tomando nota" das "irregularidades".

PEDIDO DE PRISÃO DOMICILIAR

Os advogados de Ronaldinho e seu irmão entraram com pedido para prisão domiciliar. O Ministério Público recusou, embora o craque tenha dado como garantia de que não iria fugir um imóvel no valor de cerca de R$ 4 milhões. Poucos minutos depois, o juiz Gustavo Amarilla recusou o pedido alegando que temia uma fuga ou obstrução nas investigações por parte do ex-jogador. 

BRASILEIRO É TRATADO COM DISCRIMINAÇÃO

Os advogados de Ronaldinho e seu irmão trabalham para recorrer à Segunda Instância. O recurso deve ser apresentado já nesta quarta-feira (11). A defesa do ex-jogador considera a prisão "ilícita, ilegal e abusiva", além de apontar que o Ministério Público paraguaio trata os brasileiros com discriminação pelo fato de eles serem estrangeiros.

MINISTÉRIO PÚBLICO INDICIA FUNCIONÁRIOS

O Ministério Público do Paraguai indiciou cinco pessoas, sendo quatro funcionários públicos, que supostamente facilitaram a entrada de Ronaldinho Gaúcho e seu irmão no país. Segundo o promotor Federico Delfino, os funcionários públicos teriam participação direta na entrada dos brasileiros ao receberem os passaportes no Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi, na cidade de Luque, e não alertarem as autoridades de que os documentos eram falsos. 

RECEIO DE PEGAR CORONAVÍRUS

Acostumado a se alimentar com refeições de qualidade, Ronaldinho Gaúcho se recusava a comer a mesma comida dos demais presidiários e se alimentava apenas com o que recebe de suas visitas. A preocupação com o coronavírus fez com que o atleta passasse por exames médicos no presídio em Assunção, mas ele não chegou a apresentar nenhum problema.

JOGO NO PRESÍDIO

Começaram a circular nas redes sociais na noite desta sexta-feira (13) fotos e vídeos de uma partida de futebol disputada na Agrupación Especializada da Polícia Nacional do Paraguai, com a participação de Ronaldinho Gaúcho. Segundo a ABC TV, do Paraguai, Ronaldinho aceitou participar de uma partida de futebol na cadeia. Ele teria atuado no time de Fernando Gonzalez Karjallo, ex-dirigente do Sportivo Luqueño preso por lavagem de dinheiro. De acordo com relatos de policiais que assistiram ao jogo, a equipe de Ronaldinho venceu por 11 a 2, com cinco gols e seis assistências do brasileiro.

PERÍCIA NOS TELEFONES

Investigadores paraguaios buscavam informações se Ronaldinho e Assis têm ou não ligação com uma organização criminosa estruturada para falsificar documentos e especializada em lavagem de dinheiro. A quadrilha contaria com a participação de empresários e funcionários públicos para facilitar a operação de negócios ilegais no país. Os celulares dos dois serão vasculhados para buscar pistas e reler antigas conversas, e-mails e mensagens.

RONALDINHO DEIXA DE SER BRASILEIRO?

María de los Ángeles Arriola Ramírez, nova diretora do Departamento de Imigrações do Paraguai, responsável pelo controle de entrada e saída de estrangeiros no país, contou que Ronaldinho não seria mais considerado brasileiro se tivesse se naturalizado paraguaio. Em entrevista ao Estadão, ela ainda contou que dois funcionários do órgão estão sendo investigados pelo Ministério Público para saber o motivo de terem liberado a entrada de Ronaldinho mesmo ciente de que os documentos eram falsos.

CORONAVÍRUS ATRAPALHA O EX-JOGADOR

O novo coronavírus dificultou ainda mais a situação de Ronaldinho. Por causa da pandemia, o Poder Judiciário do Paraguai foi fechado, com data inicial para reabertura apenas no dia 12 de abril. O advogado do ex-jogador, Adolfo Marín, contou ao Estado que a situação era preocupante e causava muita incerteza

UM MÊS PRESO

No dia 6 de abril, Ronaldinho Gaúcho e seu irmão completaram um mês de prisão em Assunção. O Estado contou que, para passar o tempo, o ex-jogador jogava futevolêi com seus colegas de detenção e que já passava a comer a mesma refeição que os demais detentos. Antes, o astro não aceitava a alimentação da cadeira e diariamente chegava comida de restaurante para ele. 

PRISÃO DOMICILIAR

Ronaldinho e Assis seguiriam presos no Paraguai, mas em prisão domiciliar. No dia 7 abril, após um mês da detenção do astro em Assunção, o juiz Gustavo Amarilla decidiu mudar o regime de reclusão do brasileiro, que agora ficará em um hotel da cidade. O veredicto foi tomado em audiência em que a defesa de Ronaldinho apresentou o pagamento de fiança de US$ 1,6 milhão (aproximadamente R$ 8,3 milhões). 

A VIDA NO HOTEL

Com a prisão domiciliar, Ronaldinho e Assis se hospedaram no mesmo quarto no Hotel Palmaroga fica na Calle Palma, rua localizada no centro de Assunção. O lugar foi escolhido por Ronaldinho e seus advogados, e permaneceu vigiado durante todo processo. Todos na recepção usavam máscaras quando o brasileiro chegou. O hotel mescla o tradicional com o moderno em suas habitações e nas áreas comuns é sempre citado como um dos melhores do Paraguai em sites especializados no assunto. Ronaldinho e Assis tinham à disposição academia e piscina, além dos serviços triviais de um hotel (estacionamento, lavanderia, café da manhã, serviço de quarto).

PRIMEIRA ENTREVISTA

Enfim, Ronaldinho decidiu dar sua primeira entrevista após toda confusão. Em entrevista ao jornal paraguaio ABC Color, o craque contou sobre seus dias na prisão e garantiu que não sabia que os documentos que ele utiliza eram adulterados. "Foi um duro golpe. Nunca imaginei que passaria por uma situação dessa. Durante toda a minha vida, busquei atingir o mais alto nível profissional e trazer alegria às pessoas com o meu futebol", disse Ronaldinho, que contou que viajou ao Paraguai para o lançamento de um cassino online e também de um livro.

DERROTAS NA JUSTIÇA

Ronaldinho acumulou sucessivas derrotas na Justiça do Paraguai. Os recursos para o craque e seu irmão deixaram a prisão domiciliar foram negados. A única vitória na Justiça até o período havia sido a ida para o hotel em vez de permanecer na cadeia.

MP DO PARAGUAI PEDE SUSPENSÃO DO PROCESSO

A boa notícia para Ronaldinho e Assis veio no início deste mês, quando o Ministério Público do Paraguai apresentou um pedido solicitando a suspensão do processo. No dia 10 de agosto, o juiz agendou para o dia 24 a audiência para analisar o caso. Nesta audiência, Ronaldinho e Assis conseguiram a liberdade.

 

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