Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Entenda por que Uruguai x Brasil não vai ter transmissão na TV aberta

Partida das Eliminatórias da Copa do Mundo do Catar vai passar apenas na internet e em canais de pay-per-view: ambos pagos

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2020 | 11h18
Atualizado 17 de novembro de 2020 | 20h46

O torcedor brasileiro viverá uma experiência rara durante a partida entre Uruguai e Brasil nesta terça-feira, às 20h, horário de Brasília. Enquanto os comandados de Tite buscarão mais uma vitória nas Eliminatórias para a Copa de 2022, em jogo que será realizado em Montevidéu, a TV Globo, que tradicionalmente transmite as partidas da seleção, estará mostrando novela. Importante ressaltar que a Lei Pelé obriga a exibição do jogo, mas ela não se enquadra neste caso. Entenda a situação

O SporTV, seu canal de esporte fechado, estará exibindo partida da Série B do Campeonato Brasileiro. A crise financeira em razão do novo coronavírus e uma negociação agressiva por parte da empresa que negocia os direitos de transmissão das Eliminatórias são alguns dos pontos que causam essa situação.

SBT e Band chegaram a demonstrar interesse em comprar o jogo, mas o valor cobrado pela Mediapro, empresa responsável pela negociação dos direitos das Eliminatórias, assustou todo mundo. A empresa pede cerca de R$ 8 milhões para liberar o sinal de Uruguai x Brasil, valor que as emissoras acham inviável recuperar em patrocínio e anúncio. A Globo comprou os direitos dos jogos da seleção somente quando ela atuar no Brasil. E também fechou os direitos de mostrar a Argentina, de Messi.  

Sem TV aberta, restará ao torcedor pagar R$ 19,90 para assistir ao vivo ao confronto pelo canal de streaming EI Plus, na internet, ou pagar pelo pay-per-view do canal BandSports. Nesta segunda opção, apenas quem tem TV fechada conseguiria ter acesso ao jogo e ambos os canais cobram pela partida. 

Para Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte e sócio da 14, agência de conteúdo estratégico, a discussão sobre os direitos de transmissão e essa negociação para reduzir custos e valores é algo natural em razão do momento delicado financeiramente vivido pelas empresas. "Estamos em transição do modelo econômico das transmissões de jogos, vivendo grande expectativa da entrada de novas plataformas de transmissão nessa disputa. Ao mesmo tempo, vivemos momento de crise econômica e de limites de investimento desses novos concorrentes", comentou ao Estadão.

"A combinação dessas duas características não nos sugere que esse fosse o melhor momento para se mudar a regulamentação, pois corremos o risco de cair nesses vazios que vemos agora: quem quer vender os direitos para novas plataformas ainda não encontra capacidade de investimento e quem tem capacidade de investimento não quer aceitar mudanças no que havia. Quem sofre é o consumidor, ficando sem um produto com as características que ele estava acostumado a ter", completou Maia.

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Quem quer vender os direitos para novas plataformas ainda não encontra capacidade de investimento e quem tem capacidade de investimento não quer aceitar mudanças no que havia. Quem sofre é o consumidor
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Bruno Maia, especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte

Algo parecido aconteceu na segunda rodada dessas Eliminatórias, quando o Brasil enfrentou fora de casa o Peru. Neste caso, o jogo passou no EI Plus (TV paga), mas faltando cerca de uma hora para o início do confronto, a TV Brasil, canal estatal, anunciou a transmissão do jogo. A CBF comprou os direitos e repassou ao canal do governo. 

O Estadão apurou que isso não deverá acontecer desta vez. A entidade que administra o futebol brasileiro entende que o investimento não rendeu o esperado. Foi gasto algo em torno de R$ 5 milhões e o retorno financeiro foi ruim. O canal teve sua maior audiência, de 3 pontos. 

Por que a Globo não vai passar o jogo do Brasil?

A Rede Globo firmou um acordo para transmitir todos os jogos do Brasil e da Argentina como mandante. A exibição pode ser pela TV Globo e pelo SportTV. Para os jogos em que a seleção brasileira é visitante, a negociação precisa ser feita jogo a jogo. Na sexta-feira, como a partida era no Brasil, a emissora mostrou o confronto com a Venezuela, no Morumbi.  

Na visão da emissora carioca, o valor de R$ 5 milhões não é recuperável em anúncios, patrocínio e audiência em partidas da seleção.  Jogos de futebol têm diminuído a audiência nos últimos anos, em especial da seleção. A ausência de Neymar faz com que o desinteresse público aumente ainda mais. O camisa 10 está machucado. Chegou a ser convocado, trabalhou com o elenco na Granja Comary, em Teresópolis, mas foi cortado. 

Negociação agressiva

A Mediapro quer firmar com alguma empresa brasileira contrato para todos os jogos das Eliminatórias. Quer vender o pacote. Por isso, a empresa espanhola usa uma tática comum no mundo dos negócios e que a Globo adota, por exemplo, na negociação dos pacotes de pay-per-view do Campeonato Brasileiro. A ideia é cobrar um valor elevado por um jogo para que a empresa interessada em transmitir a partida faça as contas e perceba que é mais vantajoso fechar o pacote completo, com todos os jogos.

A Globo faz o mesmo com o canal Premiere. Um jogo avulso custa R$ 104,90. Se você assinar o pacote mensal, que dá direito a todos os confrontos dos times que tem contrato com a emissora e ainda as partidas de um campeonato estadual, o valor é de apenas R$ 79,90 por mês. 

O problema é que, na visão da Globo, não vale a pena investir para passar jogos de seleções que não sejam Brasil e Argentina. Nem sempre foi assim. A emissora sempre teve os direitos de transmissão. Um confronto entre Peru x Venezuela ou Paraguai x Chile não é atrativo de audiência nem de anunciantes, ela entende. Mesmo seleções mais fortes como Colômbia e Uruguai não despertam tanto interesse do torcedor brasileiro. 

Crise financeira em razão do coronavírus

Tudo isso tem acontecido muito em razão da crise vivida pelas empresas de comunicação, em razão do coronavírus. A Rede Globo não conseguiu escapar disso. A emissora realizou cortes em sua programação e decidiu fazer apostas mais certeiras. Refez contratos. É o que aconteceu com a Fórmula 1, por exemplo.

A emissora decidiu rescindir contrato por entender que os valores eram muito elevados. Atualmente, a Globo voltou a conversar com os responsáveis pela transmissão da F-1 e um acordo pode acontecer em breve, com valores mais baixos. A crise, inclusive, ajuda a explicar o motivo de as emissoras brasileiras não conseguirem recuperar o investimento feito com o futebol. Empresas que tradicionalmente apostam no esporte diminuíram drasticamente o investimento no setor.

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