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Entenda porque jogadores brasileiros mais experientes estão perdendo espaço na Europa

Sem opção, mas ainda com futebol para mostrar, eles voltam ao Brasil e isso fortalece os campeonatos nacionais

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2021 | 11h41

Uma tendência na Europa ajuda o futebol brasileiro a repatriar jogadores ainda em boa idade e com futebol para mostrar. Esse fenômeno pôde ser constatado na janela de transferência que se encerrou no fim deste mês. Um dos retornos mais badalados é o de Willian, que trocou o Arsenal pelo Corinthians. Isso mesmo! O atacante tem 33 anos e ainda muita lenha para queimar no futebol brasileiro. Não se tem notícias de que ele tenha qualquer problema físico ou clínico que o impeça de atuar em alto nível. Willian é um dos atletas que retornam ao Brasil nessa condição. Há uma explicação para isso.

O leitor pode estar se perguntando porque Willian não conseguiu ficar na Europa, uma vez que ele estava adaptado ao futebol de lá e ainda com bola para mais um ou dois contratos por cifras milionárias. A resposta parece simples quando se observa uma tendência cada vez mais forte nos clubes europeus. Todos eles passaram a comprar "na base" do mercado sul-americano, principalmente no Brasil, que ainda é um dos maiores exportadores do mundo. A CBF divulgou em janeiro a lista de transferências envolvendo atletas brasileiros no futebol em 2020. Veja:

EXTERIOR PARA O BRASIL

Amador: 63

Futsal: 95

Feminino: 27

Jogadores sem contrato: 704

Empréstimo: 113

Retorno de empréstimo: 160

Empréstimo com valores: 25 (R$ 84.222.871)

Compras: 33 (R$ 447.343.400)

Total: 1.220 (R$ 531.566.271)

BRASIL PARA O EXTERIOR

Amador: 245

Profissional como amador: 224

Futsal: 194

Feminino: 37

Jogadores sem contrato: 580

Empréstimo: 155

Retorno de empréstimo: 71

Empréstimo com valores: 22 (R$ 96.735.240)

Compras: 82 (R$ 1.585.923.202)

Total: 1.610 (R$ 1.682.658.442)

TRANSFERÊNCIAS NACIONAIS

Total: 40 (R$ 291.618.000)

Cada vez mais cedo, os 'produtores' de jogadores de futebol vendem suas crias. Há dois motivos para explicar isso. O primeiro deles não é segredo para ninguém: os clubes brasileiros precisam negociar atletas para pagar as dívidas ou movimentar sua contas uma vez que as dívidas só aumentam, o que nos faz crescer que elas não são amortizadas. De modo a não esperar mais que o menino cresça no time principal e ajude o clube a ganhar campeonatos.

Segurar revelações não está mais na ordem dos times de futebol e de seus dirigentes. Poucos mantêm seus talentos. O segundo motivo, muito óbvio também e que casa com o primeiro, é o fato de os clubes da Europa estarem comprando e pagando quantias ótimas para seus parceiros do Brasil, gostem ou não os torcedores. Muitos reclamam que o Brasil vende mal. O DNA dos clubes do País, todos eles, é formar e vender.

Os são-paulinos, mas não somente eles, cobraram muito a diretoria do clube em gestões passadas por vender atletas em formação, como Antony, por exemplo, que está no futebol holandês. O Santos também negociou Rodrygo com o Real Madrid cedo para os padrões do passado. Precisavam do dinheiro.

Então, com a chegada cada vez mais cedo de jogadores novos dos países produtores, falta espaço para os estrangeiros mais velhos, que ficam sem opção e são 'obrigados' a voltar para o Brasil, seu porto seguro. Willian se viu nesta condição no Arsenal apesar de ainda ter mais dois anos de contrato. Não seria usado pelo clube inglês, não se viu envolvido em nenhuma outra transação na Europa e decidiu aceitar a sondagem do Corinthians. Ele abriu mão de 24 meses de salários, que poderiam chegar a R$ 72 milhões - dinheiro que foi negociado, mas que Willian não vai receber totalmente.

O pai do jogador confirmou os altos ganhos do filho, mas também disse que se gasta muito na Inglaterra para morar e viver. A oferta de dois anos de contrato do clube onde cresceu veio, portanto, veio a calhar. Willian fez as malas de anos na Europa e volta para casa.

Ele vai dar outra cara ao Corinthians, não vai ganhar o dinheiro que poderia receber na Europa, mas terá certamente compensações financeiras para os padrões do futebol brasileiro. Há outros fatores que movimentam essa tendência de volta. Um deles diz respeito à proximidade da família. Um outro implica na proximidade da Copa do Mundo. Todos esses jogadores estão na grande lista de Tite e podem ser convocados para o Mundial de 2022. Eles alimentam essa esperança.

Willian não foi o único a responder ao chamado. Hulk e Diego Costa também fizeram o caminho inverso, mas com um detalhe: com quase nenhuma experiência no futebol brasileiro. Eles foram cedo para fora e construíram suas carreiras no futebol do exterior. Ambos fazem do Atlético-MG um time favorito a ganhar tudo. Hulk já está mais adaptado e começa a ser apontado como o melhor jogador do Brasileirão, por exemplo. Diego Costa marcou seu primeiro gol já na estreia, dando seu cartão de visita. A torcida está maluca com os dois.

Esses jogadores tem características em comum. Todos saíram cedo do Brasil. Todos fizeram a vida na Europa, principalmente. Todos não jogam mais por dinheiro. Todos sentem falta do Brasil e de suas coisas, gente e calor. Todos pensam que podem se destacar no futebol brasileiro, com apegos a certas bandeiras.

Hulk, antes de acertar com o Atlético-MG, rondou o Palmeiras, seu clube do coração, à espera de uma oferta de trabalho que não veio. Uma pena para os torcedores do time paulista. Mas já estava decidido por seus agentes que ele não iria atuar fora do País.

Há outros que vieram nas mesmas condições. Daniel Alves foi um deles. Está no São Paulo. Do ponto de vista técnico, o futebol nacional ganha muito. Outros dois deles estão também no Corinthians, casos de Giuliano e Renato Augusto. Taison também voltou para o Internacional, onde saiu menino, com os mesmos 33 anos de Willian. Seu retorno, além da nostalgia dos tempos de garoto, também faz com que o clube e o torcedor de Porto Alegre tenham ambições.

Num passado num muito distante, os brasileiros repatriados eram mais velhos e já não queriam mais nada com o futebol, ou não tinham condições físicas para tanto. Sempre ficava a dúvida sobre o rendimento deles, e muitos torcedores reclamavam que estavam "roubando" o time, expressão usada para dizer que o jogador não estava jogando nada e ganhando salário alto. Nos casos citados acima, isso não existe.

Um outro que pode se acertar com o futebol brasileiro é David Luiz. O Flamengo negocia com o zagueiro. Há poucos beques como ele no futebol nacional. Se a transação der certo, será mais um bom jogador voltando ao País para fazer diferença. O Benfica está de olho nele também. 

Há muitas contas e engenharias financeiras para contratar esses bons atletas. Cada clube tem seus modelos. Esse é um outro problema. O fato é que o retorno desses jogadores deixa o futebol brasileiro muito mais atrativo e interessante. O torcedor carece de ídolos e de bons atletas. Essas lacunas estão sendo preenchidas. Quando os estádios abrirem novamente, não tenho dúvidas de que o torcedor vai comprar ingressos para ver esses caras em ação.

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