Felipe Rau/Estadão
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Antero Greco
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Entre fé e realidade

O torcedor do Palmeiras precisa acreditar na virada. Mas os 2 a 0 para o Boca pesam...

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2018 | 04h00

Bem provável que nem todos os torcedores do Palmeiras sigam algum credo religioso. Mas sugiro aos que têm fé, seja qual for, pedirem intervenção divina na tarefa do time na noite desta quarta-feira. Pois, além de jogar muita bola, precisará de sopro dos céus para despachar o Boca e classificar-se para a final da Libertadores. Os 2 a 0 sofridos na Bombonera, uma semana atrás, pesarão como toneladas nas costas dos rapazes de Felipão assim que pisarem o gramado do Allianz Parque.

O leitor palestrino pode detectar pessimismo exagerado no parágrafo acima. Não há desconfiança a respeito da capacidade da equipe. De jeito nenhum! Dudu, William & cia. podem destrambelhar os adversários, no mínimo com a devolução do placar fora de casa. Não custa lembrar que, na fase de grupos, ganharam por 2 a 0 em Buenos Aires. Portanto, estão na briga.

Uma situação é bater um rival importante numa etapa em que havia jogos de ida e volta, e com outros dois participantes na chave. O tropeço era recuperável – e aí está o Boca para provar a tese: esteve a um passo da desclassificação, salvou-se com ajuda do Palmeiras (que bateu o Junior Barranquilla na última rodada), ressuscitou, agigantou-se e está perto de brigar pela sétima taça. Outra é levar dois gols como visitante em confronto eliminatório. Com o peso adicional de que, se tomar um como mandante, terá de fazer quatro!

Eis o grande dilema verde. Como comportar-se, do ponto de vista estratégico e mental, não só para cravar ao menos os dois gols que levarão para os pênaltis, como ainda ter equilíbrio para fazer um eventual terceiro ou mesmo quarto e não tomar nenhum? Garanto que a dúvida martela a cabeça de Felipão desde o apito final da partida disputada na outra quarta-feira.

O técnico do Palmeiras sabe que não poderá ficar à espera, como ocorreu no primeiro clássico ou como se viu no sábado, no Maracanã, diante do Flamengo. Desta vez, não é o contragolpe a alternativa a usar, mas a iniciativa de encurralar o oponente. Ou seja, dará ao Boca a possibilidade de utilizar o veneno palmeirense. Por isso, também, não é sensato apelar para a formação com três meio-campistas de forte marcação, como Felipe Melo, Bruno Henrique e Moisés. Faz-se necessário alguém que crie, e aí surge Lucas Lima como opção, para o lugar de Moisés, já que os dois primeiros são imprescindíveis para a proteção da zaga.

Fosse o Felipão, apelaria até para a presença dos quatro, com Dudu e William à frente, mais soltos e perto da área. Hipótese menos provável, pois o professor ama ter um centroavante, uma referência. A tendência, salvo surpresa, é começar com Deyverson, alto, lutador, bom nas bolas áreas, imprevisível, temperamental. Ai, Jesus...

Outro perigo está no controle emocional. Tomara ninguém esteja a falar, nos vestiários, que se trata do “jogo da vida” ou que “os gringos são catimbeiros”. Concentração e coragem são indispensáveis em momentos como este. Adrenalina em excesso é porta aberta para desastre, confusão, brigas e decepção. Filme já manjado e que resultou, incontáveis vezes, em vexames nacionais.

O Palmeiras tem o Boca atravessado na garganta – com o perdão do trocadilho involuntário –, pela perda do título continental de 2000 e pela eliminação nas semifinais de 2001. Deve ter em mente esses episódios, claro. Mas que tal lembrar sobretudo dos 6 a 1 que tascou no vilão em 1994 no antigo Palestra Itália? Muito melhor. Ok, não precisa repetir o placar; basta ficar em 3 a 0 que já representará reviravolta fabulosa. Que a torcida cante e vibre, no estádio ou em casa. Isso é fé. A realidade são os 2 a 0. Então, palestrino, acenda uma velinha para San Gennaro e a Madonna de Achiropita. Não custa nada. Que eles inspirem os moços da frente e Weverton no gol.

 

 

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