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Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

'Substituir Cuca é como querer se igualar a Telê Santana', diz técnico do Palmeiras

Eduardo Baptista exalta legado de antecessor e diz trabalhar para aperfeiçoar a montagem do time de 2016

Entrevista com

Eduardo Baptista

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2017 | 06h00

Eduardo Baptista tem aos 45 anos de idade o maior desafio da carreira. O jovem treinador recebeu a responsabilidade de dirigir o Palmeiras, atual campeão brasileiro, no ano pós-título nacional. Com o elenco reforçado por grandes contratações e sem grandes perdas em comparação à temporada anterior, o técnico lida com dois desafios: buscar os títulos e lidar com as comparações ao antecessor, Cuca. Em entrevista exclusiva ao Estado na última semana, Baptista fez uma avaliação do trabalho e contou sobre as dificuldades de substituir no comando o último campeão brasileiro.

Após quatro meses de trabalho, o time já está como você deseja?

Difícil falar se está em algum ideal. A gente sempre busca mais. O Palmeiras é um time com um elenco muito qualificado e não tem limite. A gente conseguiu coisas importantes que nós traçamos. Montar uma espinha dorsal, por exemplo, era importantíssimo. Você ter uma base pronta. Eu sempre falo que não vou conseguir ter o time ideal. Nem é esse o objetivo. Mas eu preciso ter uma base ideal, uma estrutura, e deixar espaços abertos para aqueles jogadores que estiverem em um grande momento, terem a oportunidade e poderem nos ajudar. Acho que chegamos até aqui com essa base montada, definida, e isso é importante. Alguns jogadores importantes crescendo junto, chegando ao elenco, respondendo bem. Só temos a ganhar em opções.

Nesse período no Palmeiras, qual foi o momento mais difícil? 

Foi a chegada. Você pegar um grupo vencedor, um grupo que conseguiu ser campeão da maneira como foi, incontestável, de ponta a ponta, e saber que um ano é diferente do outro. Saíram jogadores, chegaram outros, você começar a dar um padrão, uma sequência e uma confiança para esse grupo. O início era mais difícil. Por mim já era esperado. Mas conseguimos ter tranquilidade, sempre com o objetivo de ter a base, manter o time, tentar manter no início no mesmo sistema. Depois, com a confiança, podemos partir para novas variações para dar oportunidade a mais gente. O começo foi o mais difícil.

Em alguns jogos a torcida gritou pelo Cuca. Você acha que superou essa desconfiança?

Essa desconfiança vai ter o ano inteiro. O Cuca fez um trabalho esplêndido aqui. Então, em qualquer momento de oscilação, isso vai acontecer. E o time vai oscilar. Todos os times passam por isso durante o ano, porque jogam campeonatos competitivos toda quarta e domingo. Essa preocupação com a confiança do torcedor é dia a dia. É trabalhando, buscando resultado, dar padrão ao time. Como eu sempre falo, o remédio para isso é um bom desempenho. Vamos buscar isso.

Você se preocupa com esse peso de substituir o Cuca?

De jeito nenhum. É a mesma coisa que o cara for trabalhar no São Paulo e querer fazer a mesma coisa que o Telê Santana. O Cuca conseguiu o feito. Quando cheguei, a preocupação era que eu ia mudar o que foi feito por ele. Em nenhum momento eu mudei o que o Cuca fez. Eu criei variações do que o Cuca deixou aqui. O legado dele eu não posso jogar fora. E ele está aqui, só não preciso treinar todos os dias. No momento em que nós precisamos do estilo dele aqui, nós usamos. Lógico que cada um tem a sua filosofia, coloquei algumas variações minhas, alguns conceitos meus sem dizer que o que o Cuca faz está fora. Está aqui, presente. Em vários jogos nós colocamos isso. E os jogadores, sem eu ficar falando, entenderam isso também, sem eu precisar falar: "Vamos fazer igual ano passado". Teve jogos que usamos a filosofia Eduardo, mas teve jogos em que aquela filosofia colocada no passado nos serviu. Então, agreguei valores ao que foi feito e essa ideia de que o Cuca é um fantasma, é nada. É um cara que fez um legado aqui e a gente vai dar sequência. Esse é o meu trabalho. O Cuca sempre será lembrado. Depois de 22 anos o cara conquistou um título, então respeito muito. É um cara que me ajudou. Em nenhum momento ele está me atrapalhando. Se em algum momento eu precisar ligar para o Cuca para bater um papo com ele, o telefone dele está na minha agenda e ele vai me receber muito bem.

O que o time teve do Cuca nos últimos jogos e o que teve do Eduardo Baptista?

Vamos lá, no jogo de ida contra o Novorizontino, o segundo gol foi de lateral. Quantos gols o Palmeiras não fez ano passado com o Moisés, principalmente. Como perdemos o Moisés, aquele arremesso forte a gente não tinha mais. Começamos a treinar com o Egídio, com o Thiago. Aí foi o Fabiano quem fez o arremesso. Fizemos um gol da maneira como o Cuca fez. Já o terceiro gol, foi à la Eduardo Baptista. Uma marcação por zona, roubamos a bola, erramos, mas estava com time adiantado, o Tchê Tchê roubou a bola, circulação e gol do Palmeiras. Não foi do Cuca ou do Eduardo, mas gol do Palmeiras.

Quando você encontra o torcedor na rua, o que escuta deles?

Eu sou um cara de hábitos simples. Gosto de ir à tarde no shopping com a minha esposa para tomar um café. Agora, já sou abordado. As pessoas pedem foto. O bom disso é que toda a abordagem é sempre com muito respeito. Às vezes mesmo quando o resultado não vinha, a gente tentava passar uma imagem de seriedade, de honestidade, isso é legal de ter essa recepção. Mesmo com um resultado ruim, como os poucos que tivemos, as pessoas vinham com votos de confianças, de forma sadia. Isso me deixa contente.

O Cuca te ajudou?

Nós nos falamos antes de eu começar o trabalho. Depois eu não quis mais importuná-lo. Ele me deu uma atenção que até me surpreendeu. Eu liguei para ele para agradecer a força que ele me deu. Pedi informações, procurei entender como era o Palmeiras, como era o ambiente. Ele se abriu totalmente, até coisas que ele pensava em fazer e não deu tempo de fazer por causa da correira, ele me passou. Foi uma troca de ideias muito boa. Guardo isso com carinho.

Individualmente o elenco tem muita qualidade e jogadores de personalidade. Como é essa gestão de pessoas?

Isso vem do ano passado. O Alexandre Mattos (diretor de futebol) tem um papel importante em tudo isso, nessa blindagem do elenco. Até as contratações, é claro, miram a qualidade, mas também há a preocupação do caráter do atleta, da maneira como ele se comportou em clubes anteriores. A diretoria pensa muito nisso. Então, são jogadores de caráter, profissionais, já muitos deles com alto grau de experiência, tanto em vitórias como em derrotas. Isso facilita nosso trabalhos. O importante de tudo é os jogadores verem no comando não só meu, como da comissão técnica, uma honestidade na hora de escalar, uma coerência. Isso torna tudo mais simples.

O quanto ser filho do Nelsinho Baptista ajudou e ao mesmo tempo te atrapalhou na carreira?

Ajudou porque meu pai é muito sensato, sério, inteligente e tem muitas qualidades. Só de ser filho dele, mais a chance que tive de trabalhar dez anos ao lado dele, já me ajudou bastante, foi toda a minha base. Se estou aqui hoje, foi resultado de uma conversa dele que tive há uns sete anos. Ele me falava: "Você tem o perfil para ser treinador, estuda". Ele me passava tudo, me estimulava a estar junto dele na parte tática. Só isso me ajudou bastante. Lá no Sport, um clube que tem 115 anos de história, ele é considerado o treinador do século. Isso é fantástico. Então, no momento de transição, quando fui interino e as coisas deram certo, ser filho dele no primeiro momento favoreceu. Eu tinha um "pedigree". Mas depois vieram as cobranças e comparações. Não que isso tenha atrapalhado, pelo contrário, me fortaleceu. Tive que saber conviver e em nenhum momento achar que estavam atrapalhando. Eu sabia o que ele tinha conquistado, o quanto ele se preparou. Aí eu fui buscar me preparar para chegar próximo a ele.

E ele te ajuda nesse trabalho com o Palmeiras?

Conversamos bastante. Ele tem mais facilidade em ver os nossos jogos, acompanha bem o futebol brasileiro. Estamos sempre falando, trocando ideias. Eu o ajudo para abastecer o mercado japonês. Ele sempre me pede indicações de jogador, para mostrar para ele alguns nomes interessantes que podem ir para lá. Sempre tratamos de esquema tático, de futebol em geral. A gente fala diariamente também da vida pessoal.

Desde 2013 um time brasileiro não ganha a Libertadores. O que o Palmeiras vai precisar fazer de diferente para sair como vencedor?

Eu sempre falei que o Palmeiras tem muita qualidade. Mas só isso aí não vai ganhar nada, principalmente na Libertadores. Nessa competição, a qualidade vai ser um fator de desequilíbrio, se você for competitivo. Se entrar de igual para igual, correr mais que o seu adversário, brigar mais do que ele, se igualar esses quesitos, aí sim a qualidade vai fazer a diferença. É isso que a gente trabalhado. Em alguns jogos o time já tem respondido bem. No clássico com o Santos foi assim. No momento que o Santos ficou acima, deixamos a qualidade de lado e igualamos o jogo na pegada, na força. Contra o São Paulo foi assim. O time deles vinha de um momento bom, com gols em todos os jogos, com posse de bola, então entendemos que era a hora de neutralizar o São Paulo, de marcar forte. Só quando conseguíssemos fazer isso, íamos jogar. E foi o que aconteceu. A gente tem batido nisso. Todos os dias os trabalhos são voltados para isso. A competitividade vai fazer a diferença para nós.

Como foi o seu começo, como preparador físico?

Quando eu falei para o meu pai que queria ser jogador, ele disse que não teria problema, desde que eu estudasse. Isso era ponto pacífico dele. Ele não queria que eu fosse jogador e largasse os estudos. Eu teria que conciliar os dois. Então, desde o sub-15 eu estudava de manhã e ia jogar à tarde, na base da Ponte Preta. Quando fiz 20 anos, que a coisa ficou mais séria, eu treinava durante o dia e estudava à noite. Entrei na faculdade de educação física. Era uma determinação dele, não podia ser diferente disso. Eu gosto de ler, de estudar, mas também era uma cobrança dele, de não parar de estudar. Quando vi que não seria atleta, resolvi que queria continuar no futebol. Aí eu tive a oportunidade de trabalhar com grandes nomes. Meu pai conhecia muita gente boa, como o Flávio Trevisan, o Moraci Sant'anna, Renato Lotuffo, então convivi com esses caras. Muitos desses frequentavam a minha casa. Muito do que se faz hoje, eu escutava esses nomes comentando há 20 anos. Coisas que hoje são novidade, vi essas ideias nascerem. Sabia que para estar no patamar deles, era preciso estudar. Então, comecei a buscar. Fui fazer o curso de fisiologia na USP. Fiz especialização e mestrado. 

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