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ENTREVISTA: 'Futebol francês vive nova fase', afirma Hilton

Único brasileiro do Montpellier é um dos destaques do Campeonato Francês

Raphael Ramos, estadão.com.br

24 de fevereiro de 2012 | 08h40

SÃO PAULO - A França está vivendo uma nova fase no futebol e muito dessa mudança se deve ao Montpellier, um clube sem títulos e torcida. A pequena equipe do sul do país é o maior símbolo da nova ordem do futebol francês, na qual times tradicionais como Olympique de Marselha, Lyon e Saint-Étienne não dão mais as cartas.

O Montpellier é o vice-líder do Campeonato Francês e disputa o título palmo a palmo com o milionário Paris Saint-Germain, recém-comprado por um grupo árabe. A distância entre os dois é de apenas um ponto (51 a 50) apesar da diferença de investimentos. O PSG, por exemplo, tem um orçamento de 150 milhões de euros (R$ 339 milhões) por temporada enquanto o valor do Montpellier é de 36 milhões de euros (R$ 81 milhões).

O único brasileiro do Montpellier é o zagueiro Hilton, 34 anos. Desconhecido no Brasil, ele é um destaques do campeonato e um velho conhecido do torcedor francês (já defendeu Bastia, Lens e Olympique). Veja abaixo trechos da entrevista ao estadão.com.br

Você está há dez anos na Europa. Qual é o balanço que faz da sua carreira?

Tenho muita vontade de jogar no Brasil. Como saí do Paraná com apenas 23 anos, tem muita gente que não me conhece aí. Aqui na França já tenho um nome e sou bastante conhecido, mas no Brasil não tive oportunidade de mostrar o meu potencial. Hoje estou no Montpellier, mas, quem sabe, se ao final da temporada pintar alguma coisa boa eu não volto.

Você tem 34 anos. Pretende jogar até quando?

Do jeito que me sinto hoje, acho que vou até os 38 tranquilo. Eu me cuido bem e tenho uma vida tranquilo. Teve um período no Olympique em que eu que estava mal e não jogava muito, mas aqui no Montpellier dei a volta por cima. É um clube de menor expressão, mas joguei todos os jogos até agora.

Você tem contrato com o Montpellier até quando?

Quando vim para cá assinei contrato por um ano, com opção de prorrogar para o segundo. A opção é minha. Se por acaso eu quiser continuar, tenho essa opção.

Qual é o segredo dessa ótima campanha do Montpellier?

Realmente a campanha é muito boa e muitos não esperavam. Na temporada passada, o time começou bem, chegou a estar entre os cinco primeiros, mas depois acabou em 14º e ficou apenas quatro pontos fora da zona do rebaixamento. Essa temporada, todo mundo viu o time começando bem, porém falavam que ia repetir a última campanha. Mas o time está mostrando que tem qualidade, tanto é que no último jogo contra o PSG, que é o bicho-papão por ter contratado vários jogadores de nível internacional, fizemos uma boa partida e merecíamos a vitória. Hoje, aqui na França, o pessoal já vê o Montpellier como um time campeão. Antes, era um time que todo esperava por um tropeço, que até agora não aconteceu.

Há na França uma torcida generalizada pelo Montpellier? Uma eventual derrota do PSG mostraria que dinheiro não é tudo no futebol?

Tem muita gente torcendo pelo Montpellier pelo fato de os grandes clubes estarem todos atrás de nós, como Olympique de Marselha, Bordeaux, Lyon e o próprio Lille, que foi campeão ano passado. Falam que o PSG investiu muito, mas muita gente não sabe que o Montpellier está com um time que joga junto há três anos. A equipe está entrosada. Realmente o PSG gastou muito, mas sabemos que investimento no futebol às vezes não dá resultado de cara.

A sua chegada ao Montpellier no meio do ano passado é apontada por muitos como a chave para o sucesso da equipe porque com a sua experiência você arrumou a defesa. Você concorda com isso?

Um time que tem a defesa muito jovem acaba cometendo alguns erros em partidas importantes e com a minha vinda ao Montpellier isso mudou um pouco. Estou jogando com um zagueiro muito bom, que tem 23 anos e é uma das revelações do Campeonato Francês, mas quando cheguei aqui ele cometia muitos erros. Tenho conversado muito com meus companheiros, dado conselhos, e com passar dos jogos o time está melhor.

O fato de um time pequeno como o Montpellier estar brigando pelo título mostra que o futebol francês vive uma nova fase?

Realmente estamos numa nova fase e isso é importante para o campeonato. Veja o exemplo do Campeonato Brasileiro, onde nove times grandes lutam pelo título. Aqui na França, sempre foram dois ou três, que se revezavam entre eles. No ano passado, o Lille foi campeão mostrando que o futebol está mais disputado e que todos têm chance de título. Para o futebol francês, isso é importante porque os empresários poderão investir em outros clubes. Investir em PSG, Olympique de Marselha ou Lyon é fácil porque o retorno é quase garantido. Tenho certeza que times como Montpellier e Lille disputando títulos ajudam clubes pequenos a se tornarem grandes um dia.

Como está o processo de reconstrução da seleção francesa depois do vexame na Copa do Mundo de 2010?

Com a saída do técnico Raymond Domenech, o Laurent Blanc trouxe uma coisa muito boa para seleção, que é o diálogo com os jogadores. Antes, isso não existia. A torcida gosta muito do Blanc e ele está fazendo um bom trabalho. Agora vamos esperar a Eurocopa. Se ele conseguir uma boa campanha, com certeza a França vai dar trabalho para o Brasil na Copa do Mundo de 2014.

Como os franceses estão enxergando o futebol brasileiro?

Muita gente comenta que antes muitos jogadores brasileiros novos vinham para a Europa e que hoje isso não acontecem mais. Veja o caso do Neymar. Se fosse há alguns anos ele não estaria mais no Brasil. Os comentários são que o Brasil está segurando seus jogadores porque vai sediar a Copa e quer fazer uma seleção de atletas que jogam no país, com identidade com o povo. Mas há também uma interrogação em relação a isso. Há quem diga que o Neymar é bom só no Brasil porque na Europa ainda não mostrou realmente o seu futebol. Para os europeus, se joga fora da Europa não vale muita coisa. Tem de jogar aqui.

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