Christinne Muschi|Reuters
Christinne Muschi|Reuters

Escândalo de doping da Rússia chega ao futebol

Fifa garante que não tem planos de mudar sede da Copa de 2018

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE EM GENEBRA, O ESTADO DE S.PAULO

21 de julho de 2016 | 07h00

O escândalo de doping organizado pelo governo russo chega até o futebol, coloca sérias dúvidas sobre os organizadores da Copa do Mundo de 2018 e joga por terra o discurso da Fifa de que o doping no esporte mais popular do mundo não é relevante.

Documentos obtidos pelo Estado e que foram usados no relatório da Agência Mundial Antidoping (WADA) apontam que, entre 2011 e 2016, pelo menos 13 jogadores pegos em testes de doping na Rússia foram protegidos e seus exames foram trocados por testes limpos. 

No total, o autor da investigação, Richard McLaren, indicou que fez cerca de 350 testes em mais de 20 modalidades. O número de fraudes registradas no futebol é superior ao que foi encontrada em diversos outros esportes, entre eles o boxe. De acordo com os documentos, a fraude no doping do futebol havia sido coordenada não apenas por funcionários de escalões inferiores do governo russo.

Mas pelo próprio ministro dos Esportes, Vitaly Mutko, que também é um dos membros do Conselho da Fifa, o órgão máximo da entidade. O russo ainda acumula a função de organizador da Copa de 2018 e, na Fifa, foi membro da Comissão para o Desenvolvimento Técnico do Futebol e hoje faz parte do grupo de trabalho "Pelo Bem do Jogos".

No futebol russo, não foram apenas os jogadores nacionais que foram protegidos. Segundo McLaren, pelo menos um estrangeiro foi beneficiado da proteção de Mutko, mesmo depois de um exame positivo. Nem a nacionalidade e nem o nome do jogador foram revelados.

"A investigação está ciente de pelo um jogador de futebol estrangeiro atuando na Liga Russa que se beneficiou da ordem SAVE", indicou o documento. O programa SAVE (salvar, em inglês) havia sido criado internamente para impedir que certos atletas fossem pegos em testes positivos. "Essa decisão SAVE foi tomada pelo ministro Mutko", afirmou a investigação.

Um dos aspectos dessa decisão que chamou a atenção dos investigadores foi o fato de que o caso não foi processado da maneira habitual na fraude de doping. Normalmente, quem se ocupava em mudar as amostras e determinar que um atleta não poderia ser punido era o vice-ministro Nagornykh.

"Evidências de email disponíveis mostram que a decisão SAVE para os jogadores de futebol era uma decisão final de "VL". VL são as iniciais do primeiro e segundo nome do ministro dos esportes, Vitaly Leontiyevich Mutko, que também é o presidente da Federação de Futebol da Rússia", explicou a investigação. 

A revelação coloca agora pressão para que a Fifa de uma resposta e a entidade garante que iria "examinar" a situação. Mas, por enquanto, nenhum processo foi aberto e primeiro ira aguardar que os documentos oficiais da WADA sejam transmitidos. A Fifa também afirmou que não seria direcionada a ela uma ordem do COI para que todas as federações esportivas retirem da Rússias torneios internacionais. Em 2017, Moscou será a sede da Copa das Confederações e, em 2018, a Copa do Mundo.

O laboratório em Moscou – centro da fraude do doping – estava no plano para ser usado como o local de testes de amostras de urina durante a Copa. 

No total, em mais de cem páginas do documento final da WADA, Mutko é citado em mais de 20 vezes. Mas, para o presidente Vladimir Putin, não existe motivo para suspender seu ministro de esporte. "Mutko não é mencionado como autor (de irregularidades)", diz o porta-voz de Putin, Dmitry Peskov. Velho aliado de Putin, Mutko ajudou o atual presidente a organizar em 1994, o primeiro evento internacional depois do fim da União Soviética : os Jogos da Boa Vontade. Mutko, logo depois, assumiu a presidência do Zenit, um dos clubes agraciados pelo patrocínio da estatal Gazprom. 

SUSPEITAS

O número de jogadores protegidos na Rússia ainda levanta para muitos a suspeita de que os testes de doping no futebol podem não estar revelando o que de fato ocorre no esporte. O Departamento Médico da Fifa sempre disse que, no futebol, o doping não era uma realidade, já que se refere a um esporte coletivo. 

Na Copa de 2014, no Brasil, a Fifa comemorou o fato de nenhum caso de doping ter sido registrado. O laboratório brasileiro havia sido suspenso e todas as amostras foram levadas, diariamente, para testes em Lausanne, na Suíça. 

Num estudo publicado pelo jornal médico BMJ, porém, pesquisadores examinaram os 736 jogadores que estiveram no Mundial e compararam com os remédios que os médicos de cada seleção publicaram 72 horas antes de cada partida. Os remédios tomados não são considerados como produtos proibidos em nenhuma das listas da WADA. 

Mas, ainda assim, os cientistas alertam para o elevado número de produtos consumidores antes de partidas. No total, 67% dos jogadores na Copa tomaram « vários tipos de medicamentos durante o torneio ». O mais popular deles era remédios anti-inflamatórios (54% dos jogadores) e analgésicos (12,6%). 

Segundo o levantamento, os sul-americanos tomaram em média entre 1 e 1,5 produtos porc ada jogador. "Mais esforços precisam ser feitos em todo o mundo para a reduzir o uso de remédios no esporte, por meio de educação dos jogadores, começando ainda jovens, assim como de médicos", concluiu o levantamento. 

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