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Antero Greco
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Escolhas

Tite volta a ser o nome da moda dentre os técnicos brasileiros. No comando do Corinthians, ganhou o título nacional de 2015 com um pé nas costas, enriqueceu o currículo, e por tabela reforçou a imagem de competência e retidão que carrega já há bom tempo. Sobra-lhe, portanto, lastro para ter uma oportunidade na seleção.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2015 | 03h00

A possibilidade de receber convite existe, na opinião de quem acompanha de perto os bastidores da CBF, pois a estabilidade de Dunga não estaria tão sólida quanto ele imagina e quanto fazem parecer declarações oficiais. Daí a juntar as peças, Tite surge com a opção mais correta e óbvia para a modificação.

À parte o que exista de boato e desejo – ou torcida contra Dunga –, é preciso ponderar o seguinte: Tite assumiria o desafio? Toparia pegar o barco em andamento e fazê-lo aportar, com sucesso, na Rússia em 2018? Não que lhe falte coragem ou confiança para a empreitada. Nem temeria respaldo do público – hoje é personagem querido no futebol daqui, até pelos adversários.

A questão, complexa, se refere à disposição de trabalhar com a cúpula atual da CBF. Deve ser desconfortável, para quem preza conduta irretocável, trabalhar numa empresa cujo executivo principal não sai do País, no mínimo por razões mal-explicadas. Complicado estar sob contrato com uma entidade com rejeição popular atordoante.

Tite ficaria à vontade para dizer, à maneira de Carlos Alberto Parreira, que a “CBF é exemplo do Brasil que deu certo”? Circularia desenvolto com o patrão? Gostaria de tê-lo a seu lado, em entrevistas coletivas, imóvel, impávido, escorregadio em perguntas que não lhe interessa responder?

As ponderações são genéricas, a escolha é individual, íntima e ninguém tem nada com isso. Não cabe ao cronista recomendar a Tite que faça assim ou assado, se pintar uma oferta. Cada um sabe de si, de seus anseios, convicções e de onde lhe apertam os calos.

Mas escolhas determinam o rumo de vidas e carreiras. Quantas vezes não lamentamos por decisões erradas? Ou, também, quantas vezes não escolhemos a alternativa certa para seguir adiante? Há trens que passam apenas uma vez na profissão; se não subirmos nele, azar. Outros são corriqueiros. O importante é ter segurança na hora de dizer sim ou não. E aguentar o tranco.

Vem em mente, agora, Muricy Ramalho. Depois do Mundial de 2010, reuniu-se com o ex da CBF (aquele que não se tem notícia nem de onde esteja e o que faz), num clube de golfe, no Rio, e ouviu que era a bola da vez para a amarelinha. Escutou, ponderou, agradeceu, foi pra casa e virou as costas. Recusou a oferta de emprego por não ver firmeza nos propósitos do cartola.

Muricy pensou que poderia ser uma espécie de boi de piranha – ou seja, iniciaria processo de reformulação na seleção, sem a garantia de que chegaria ao Mundial de 2014. Acertou na mosca: Mano Menezes encarou a tarefa e caiu do cavalo no fim de 2012. Por outro lado, provavelmente passou o momento de Muricy no time; era aquele e não haverá outro. Paciência.

As mudanças embutem a vontade de ganhar mais, ter sucesso e visibilidade. O que cada um tem de avaliar é se o conjunto vale a pena. Às vezes, o dinheiro é bom, mas o ambiente, ruim. Ou a grana não tem nada de extraordinária, porém a perspectiva de crescimento compensa. 

Dois casos marcantes neste ano? Doriva e Guerrero. O jovem técnico ignorou chamado do Grêmio, por estar à vontade no Vasco; tempos depois, caiu. Encaixou-se na Ponte, ia bem até se encantar com aceno do São Paulo. Foi para o Morumbi e mal esquentou banco. O atacante peruano tanto fez, tanto exigiu, que trocou o Corinthians pelo Fla. Achava-se o rei da cocada doce; tem sido um fiasco no Rio e o substituto dele, Vagner Love, virou um dos artilheiros do Brasileiro. Coisas da vida.

A propósito de Corinthians e São Paulo: o duelo de hoje promete, com dúvidas: o campeão estará de ressaca e terá as faixas carimbadas? Ou entornará o caldo tricolor? 

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