Albert Gea/ Reuters
Albert Gea/ Reuters

Espanha planeja retomada do futebol com cautela

No país, as partidas foram suspensas há semanas em meio aos esforços para impedir a propagação do novo coronavírus

Tariq Panja, The New York Times

25 de abril de 2020 | 09h30

Testes diários para coronavírus. Apenas duas pessoas na academia por vez. Jogadores vestindo o uniforme para treinar em casa. Esses são apenas alguns dos protocolos que a La Liga, organizadora das duas principais ligas de futebol da Espanha, considera necessários para permitir até mesmo os treinos antes dos jogos recomeçarem, com uma nova data prevista para junho. Na Espanha, como quase todos os outros países do mundo, as partidas foram suspensas há semanas em meio aos esforços para impedir a propagação da doença.

As diretrizes estão em um documento confidencial de 23 páginas revisado pelo The New York Times. Elas fornecem informações sobre os detalhes do que é necessário para reiniciar as principais competições esportivas sem comprometer a saúde dos atletas ou da população em geral.

As medidas que estão sendo formuladas parecem mais com aquelas necessárias para uma instalação médica do que para o treinamento de um time de futebol. Mas a liga parece não deixar nada ao acaso. Além do odor onipresente de desinfetante e da visão de indivíduos em equipamentos de proteção individual, também haverá uma lista rígida de pessoas permitidas a qualquer momento e protocolos rigorosos.

A tentativa de voltar ao campo é motivada por razões comerciais, assim como por mérito esportivo. O presidente da La Liga disse que cancelar a temporada representaria uma catástrofe financeira, que ele calculou que custaria às equipes da principal divisão da Espanha até 1 bilhão de euros (mais de US$ 1 bilhão).

A Espanha foi um dos países mais atingidos durante a crise. Na quinta-feira, o registro de mais de 213.000 casos confirmados a transformou no segundo país em número de casos em todo o mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. O número de mortes na Espanha - mais de 22.000 - é superior a qualquer outro país, com exceção dos Estados Unidos e da Itália.

Com isso em mente, a liga pretende recomeçar os jogos sem espectadores em junho. Para chegar a essa decisão, consultou especialistas para elaborar um protocolo de treinamento de um mês dividido em quatro estágios. Dois dias antes do início do novo regime, todos os jogadores, treinadores e qualquer funcionário que se considere necessário ter contato com eles serão testados tanto para saber se estão infectados pela covid-19, como para detectar a imunidade ao vírus.

Os testes continuarão ao longo do mês com os jogadores sendo testados em seus carros antes de serem autorizados a entrar nas instalações de treinos. Um teste positivo a qualquer momento forçaria o jogador a se isolar em casa até não ser mais contagioso. Seus colegas de equipe também seriam enviados para casa e testados novamente antes de serem autorizados a retornar aos campos.

Tomando como um todo, as orientações mostram que as competições esportivas na corda bamba estão caminhando enquanto planejam um retorno na era do distanciamento social. Tudo tem sido planejado para limitar o contato, algo que atrapalha muitos atletas acostumados ao ritual diário de fazer parte de um coletivo.

Na primeira fase do programa de treinamento, eles podem encontrar pouquíssimas pessoas. Espera-se que os jogadores cheguem aos centros de treinamento em intervalos diferentes. Eles devem usar luvas e máscaras até o momento em que começarem a treinar. Durante esta fase inicial, apenas seis jogadores seriam permitidos na área de treinamento a cada vez.

Os clubes foram aconselhados a planejar treinos que exijam a quantidade mínima de equipamento possível, com o máximo de dois jogadores permitidos na academia ao mesmo tempo, e o equipamento deve ser desinfetado após cada uso.

O treinamento em grupo só será permitido de maneira limitada, no início, com um máximo de oito jogadores treinando juntos. Esses oito não poderão se misturar com nenhum dos outros jogadores, seja no campo ou nas áreas de refeições. Durante o período final de treinamento, espera-se que os jogadores se alojem nas concentrações do clube, que serão operadas por uma equipe mínima. Por exemplo, apenas um cozinheiro, um auxiliar de equipamento e um profissional na lavanderia serão permitidos no local. O treinador poderá ter no máximo três assistentes e três fisioterapeutas.

A natureza clínica e austera da recuperação da La Liga também se estende ao tempo de inatividade. Quando não estiverem treinando, os jogadores devem retornar aos seus quartos e não ter contato com nenhum companheiro de equipe. Aqueles que optarem por ficar em casa são aconselhados a não sair em nenhum momento, a menos que estejam dirigindo para o campo de treinamento, o que deve ser feito sempre no mesmo carro.

Profissionais da saúde de várias equipes da La Liga contribuíram para a criação do protocolo. Ele foi preparado em conjunto por funcionários da liga e da Real Sociedad, Granada e Osasuna e revisado por médicos de outras quatro equipes, incluindo Atlético de Madri e Sevilha.

Um protocolo separado para os jogos a portas fechadas está sendo estudado atualmente. O principal executivo da Bundesliga da Alemanha, que parece ser a primeira das principais ligas da Europa a recomeçar, projetava 240 pessoas em cada partida, incluindo jogadores, treinadores e profissionais de transmissão./ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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