Sirli Freitas/RBS
Sirli Freitas/RBS

Especial, Juliano ainda espera por Danilo, seu ‘pai’

Garoto com problemas de desenvolvimento intelectual é amigo de todos no elenco, mas amava o goleiro da Chape

Daniel Batista e Gilberto Amêndola, enviados especiais a Chapecó, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2016 | 06h00

Em meio a tristeza que tomou conta da cidade de Chapecó, um jovem de 24 anos se diverte com as crianças, filhos de funcionários do clube. Ansioso, Juliano aguarda pela chegada de seu “pai postiço”, o goleiro Danilo. Mas ele nunca mais voltará. Assim, resta aos que ficaram tomar conta do garoto que não entende muito bem o que está acontecendo e porque a sua pacata cidade foi invadida por jornalistas de todo o mundo.

Juliano é um garoto que chegou ao clube em 2011, levado pelo atacante Aloisio, ex-São Paulo e que atualmente joga na China. O menino nasceu com problema de desenvolvimento intelectual, segundo funcionários do clube, em decorrência de dificuldades na gravidez da mãe. 

Seu ídolo era o goleiro Danilo, a quem ele chamava de pai. O menino tenta entender o que aconteceu. “Ele fica direto perguntando quando o pai vai chegar, pois ele está com saudade”, diz Clarice Soletti, supervisora de marketing da Chapecoense. 

O menino parecia entender o que havia acontecido na noite de quarta-feira, quando os torcedores fizeram uma homenagem na arena. Ao ver as pessoas chorando, ele entendeu que seu pai nunca mais iria aparecer, teve uma crise de choro e precisou de ajuda dos médicos. 

Ao ver toda movimentação e preparação para o velório, o garoto de sorriso fácil perguntou para os funcionários do clube: “Tudo isso é para receber o meu pai, né?” A mulher de Danilo, Letícia, lhe deu um par de tênis que pertencia ao goleiro, algo que ele exibe como um troféu. 

Apesar da idolatria por Danilo, Juliano é considerado um xodó por todos no clube. Durante os treinos, várias vezes ele pulava nas costas dos jogadores, que saiam carregando-o e todos se divertiam. Os atletas também davam roupa, comida e, às vezes, o levavam para dormir em suas casas. Ele mora com a irmã, mas a relação é bem distante, por isso, passa muitos dias sem aparecer e é normal ficar no clube. “De vez em quando ele desaparece e depois aparece do nada, brincando como sempre”, conta Chiquinho, que cuida do gramado da arena. 

Sobre sua origem, sabe-se apenas que ele vem de uma família com muitos problemas de relacionamento. Ele vivia nas ruas próximas da Arena Condá, até ser descoberto por Aloisio.

“Eu sempre o via na rua, sujo. No início, eu tentava chegar perto e ele não deixava, pois tinha medo das pessoas, talvez por ter sido maltratado, não sei. Eu levava comida para ele e, aos poucos, consegui me aproximar”, conta o atacante, que levou cerca de três meses para ter maior contato com o menino.

Com o passar do tempo, Aloisio passou a levar Juliano para o vestiário, onde foi bem recebido pelos jogadores, graças ao seu jeito brincalhão. O time vivia uma fase boa e acabou se sagrando campeão catarinense de 2011. Então, chegou-se a conclusão de que o menino especial era um amuleto e desde então ele nunca mais se afastou da Chape. Agora, terá de aprender a viver sem seu pai.

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