Paulo Liebert/Estadão
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Esqueçam o futebol

Jogador tipo Gaúcho ou Romário foi substituído por Neymar, que não nos representa

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2018 | 04h30

Nos momentos mais difíceis desta nação, quando nossa imagem no exterior não era das melhores, quando a reputação do Brasil era mais do que questionada pelo mundo civilizado, vale dizer, parte significativa da Europa, os governantes e políticos podiam contar com uma força auxiliar poderosa, que era o futebol brasileiro.

É difícil avaliar quanto se deve ao futebol a imagem simpática do Brasil, e por decorrência dos brasileiros, comum em todos os países europeus durante largo período do século 20, e além. Nos ambientes mais hostis a simpatia pelo Brasil se fazia presente. Uma experiência interessante, por exemplo, era ir até uma periferia de Paris, daquelas bravas, uma das famosas “banlieu” e se aproximar daqueles grupos de desocupados de aspecto perigoso, encostados em algum canto, e lhes pedir alguma informação.

Desanuviada um pouco a perplexidade, causada por alguém, branco e estrangeiro por todos os poros, ter tido o atrevimento de lhes dirigir a palavra, a pergunta que faziam ao notar o sotaque era de que lugar do mundo vinha a pálida criatura. Ao ouvir Brasil, imediatamente os rostos de desenrugavam, os sorrisos apareciam, piadas eram inventadas na hora, e a razão de tanta amabilidade imediatamente proclamada: “Brésil! Pelé, futebol, la Coupe du Monde, Ronaldô!” A perigosa ‘banlieu’ por momentos se transformava numa esquina de alguma grande cidade brasileira com pessoas discutindo futebol.

Isso que acabo de narrar não é uma fábula que inventei apenas para reforçar um argumento. Isso aconteceu realmente. Era como se todos achassem que havia alguma coisa intrinsecamente boa, essencialmente boa, num país que se dedicava a proporcionar ao mundo tanta alegria. E os heróis dessa alegria eram eles também afáveis, generosos, pouco disciplinados, artistas irreverentes de uma arte popular ligada profundamente a todas populações.

Pois bem, as coisas mudaram. O último exemplo desse tipo de artista que o Brasil exportava tão generosamente foi Ronaldo Gaúcho, que passou por várias cidades europeias com seu sorriso despreocupado e em todas deixou saudades. Foi o último exemplo de um paraíso racial inexistente, mas cuja fábula prestou grandes serviços à política brasileira. Pelo que começo a ler nos jornais sobre as direções da nova política exterior brasileira, a partir da posse do novo governo federal em 1.º de janeiro, o Brasil precisaria do futebol mais do que nunca para manter a imagem de país amigável, aberto e civilizado.

Receio que o futebol não mais será um bom auxiliar nesse sentido. Não por falta de títulos. Não seria a conquista de uma eventual Copa que restituiria o prestígio do nosso futebol. A coisa é mais profunda. Trata-se de uma modificação acentuada na maneira de ser do craque brasileiro. O jogador tipo Gaúcho ou Romário foi substituído por Neymar, só para exemplificar. Não se trata aqui de atacar Neymar, apenas citar algo que parece evidente.

Para fazer uso de expressão muito utilizada a respeito de certos políticos, acho que muita gente diria de Neymar que ele “não nos representa”, futebolisticamente, é claro.

Não se trata só das conquistas no campo. Trata-se mais de uma identificação misteriosa, onde até nossos defeitos, e são inúmeros, eram aceitos e compreendidos. Por alguma razão Neymar nunca foi aceito completamente como ídolo de todas as torcidas e, na medida em que o tempo passa, parece cada vez menos um craque brasileiro de outros tempos.

Para completar seu azar, não é um Garrincha, que, para alguns, ganhou sozinho a Copa de 62. Isso tudo para voltar ao início e dizer que é melhor não contar mais com o futebol, quando, perdido numa perigosa periferia de Paris, um brasileiro precisar de auxílio. Estamos, finalmente, a sós conosco mesmos.

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