Everton Oliveira/Estadão
Everton Oliveira/Estadão

Esquinas e praças da Rússia recebem músicos em busca de sucesso

O estilo dos artistas de rua é variado e vai do erudito ao pop europeu; há projeto de concessão do espaço público para apresentações

Gonçalo Junior, enviado especial / São Petersburgo, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2018 | 05h00

Os palcos de dezenas de músicos na Rússia são as esquinas, as estações de metrô e as praças. Renovando a tradição musical de um país que já produziu grandes compositores populares e eruditos, artistas anônimos sonham em se tornar astros a partir de apresentações gratuitas pela cidade. Se isso não acontecer, eles só pedem que os espectadores não deixem vazio o chapéu das gorjetas e contribuições.

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O estilo é variado e vai do erudito ao pop europeu. A Triggerfingers, cover da banda belga homônima que significa algo como “Dedos no gatilho”, toca nas estações de metrô desde 2016. O estilo varia entre o pop e o jazz progressivo. Nas redes sociais, eles se apresentam como “banda instrumental que se encaixa em qualquer formato”. Quando o Estado encontrou a banda na passagem subterrânea de uma das estações mais movimentadas, eles estavam tocando uma das trilhas sonoras dos filmes de James Bond, o agente secreto 007. 

O bom entrosamento entre baixo, bateria e saxofone com um arranjo moderno fez várias pessoas interromper o passo acelerado - os moscovitas também são assim - para prestar atenção. No final da música, a maioria seguiu adiante, mas não deixou de contribuir com o chapéu colocado discretamente ao lado da banda. No final do dia, a banda consegue arrecadar entre R$ 100 e R$ 150, divididos igualmente entre os quatro. Essa renda não permite que vivam só da música. Por isso, eles desenvolvem atividades paralelas. Dos quatro integrantes, dois são professores de música e os outros dois trabalham na área financeira. É difícil conciliar os horários, mas tentam se apresentar pelo menos três vezes por semana. Eles estão ali, pois querem ser descobertos por algum empresário para iniciar uma carreira de sucesso. Além dos shows no centro de Moscou, eles gravam e publicam vídeos nas redes sociais. Torcem para que algum “estoure” em visualizações para que saiam do anonimato das ruas. 

REDES SOCIAIS

O guitarrista Slava afirma que as redes sociais representam o grande eldorado para os músicos atuais. “Muitos artistas hoje conhecidos na Rússia começaram dessa forma, ou seja, tocando nas ruas e praças. Isso motiva os mais jovens”, diz o músico. Aos 52 anos, ele foi contratado por um restaurante de Moscou para tocar três vezes por semana. Durante o dia, ele é gerente de uma fábrica de tecidos. Além das apresentações, ele também compõe, mas não vê sentido em gravar mais um CD. “Tudo hoje é pela internet”, diz o compositor, que já se apresentou por quase duas décadas nas ruas de Moscou. 

 

Para o baixista Dmítri, que se apresenta diariamente na praça do museu Hermitage, em São Petersburgo, muitos músicos se realizam simplesmente tocando assim. “Os músicos de rua são, em regra, profissionais experientes com uma boa formação. Todos eles têm emprego e tocam na rua para ganhar um rendimento extra”, diz o músico de 32 anos.

“Nós exercemos nossa paixão a partir do contato direto com o público. Não precisamos de grandes plateias. Apenas do apoio sincero”, explica, diante de 20 pessoas que formam sua plateia na região mais movimentada de São Petersburgo.

Para resolver o problema, a prefeitura de Moscou tem um antigo projeto de concessão de espaços públicos para apresentações musicais. Seriam palcos fixos, em locais diferentes da cidade, com uma agenda mensal de shows. Os músicos seriam selecionados e teriam à disposição uma infraestrutura completa, com iluminação e eletricidade, itens que eles sempre têm de improvisar. O projeto, no entanto, nunca saiu do papel.

O principal empecilho é a seleção das canções e dos músicos pela prefeitura. Os artistas veem uma forma de censura. Representantes do poder municipal argumentam que não querem “canções obscenas nos parques de Moscou”.

 

 

 

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