Igor Ferraz/Estadão
A história do Pacaembu passa por Copa do Mundo, Pan, e títulos de Libertadores Igor Ferraz/Estadão

Estádio do Pacaembu comemora 75 anos cheios de histórias

Relembre a trajetória e confira curiosidades sobre o Estádio Municipal

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

27 de abril de 2015 | 07h00

Há exatos 75 anos, no dia 27 de abril de 1940, era inaugurado na cidade de São Paulo o 'maior e mais moderno estádio da América do Sul' da época: o Estádio do Pacaembu, que demorou apenas um ano e meio para ser erguido e contava com capacidade para 70 mil espectadores. A cerimônia, que contou com a presença do então presidente Getúlio Vargas e do prefeito Prestes Maia, marcava o nascimento de um local que, ao longo dos anos, serviria de 'casa' para os grandes clubes de São Paulo e de palco para grandes histórias, além de ter recebido os Jogos Panamericanos de 1963 e até a Copa do Mundo de 1950.

O desfile de inauguração, realizado há exatos 75 anos, foi marcado por manifestações da instabilidade política vivida entre Getúlio Vargas e a população paulista, que fora cultivada desde o Movimento Constitucionalista de 1932. O mandatário, que foi presidente do Brasil durante 15 anos (de 1930 a 1945) por conta de um golpe de estado, foi recebido com manifestações e enorme vaia do público em geral. A política viria a dar lugar ao futebol apenas no dia seguinte, em 28 de abril de 1945, quando o Palestra Itália (antigo nome do Palmeiras) receberia o Coritiba, gerando expectativa nos torcedores daquele esporte que vinha se solidificando como o mais popular do país.

O primeiro tento do novo estádio foi marcado por Zequinha, do time paranaense, que abriu o placar na ocasião, para frustração dos torcedores palestrinos. Porém, o Palestra Itália não apenas viraria o jogo como golearia o adversário: a partida terminou em 6 a 2 para a equipe da casa. O Palestra, aliás, foi o primeiro time a conquistar um título no Pacaembu - a Taça Cidade de São Paulo de 1940 (equivalente ao 1º turno do Campeonato Paulista). A equipe 'dominaria' o futebol paulista naquela década, faturando os estaduais de 1940, 1942, 1944 e 1947.

Em 1950, o Pacaembu passou por uma ampla reforma para receber o maior evento esportivo de sua história: a Copa do Mundo. O estádio foi sede do Mundial junto com o Independência (em Belo Horizonte), o Durival Britto (em Curitiba), o Estádio dos Eucaliptos (em Porto Alegre), a Ilha do Retiro (no Recife) e o Maracanã (no Rio), palco da abertura e da final. Recebeu a seleção brasileira apenas uma vez no torneio, em um empate contra a Suíça em 2 a 2 pela primeira fase.

O público de 42.000 pessoas saiu decepcionado com o gol de Fatton aos 43 do segundo tempo, que garantiu o empate suíço. Alfredo e Baltazar marcaram os gols do Brasil. No total, o Pacaembu recebeu seis partidas daquele Mundial, sendo três delas pelo quadrangular final.

Treze anos depois, em 1963, o Pacaembu foi o principal estádio dos Jogos Panamericanos sediados em São Paulo, quando abrigou competições de atletismo, saltos ornamentais, natação e boxe, assim como as cerimônias de abertura e encerramento do evento.  Era apenas a quarta edição dos Jogos, e foi a primeira realizada no Brasil. A delegação brasileira foi composta por 385 atletas, dentre o total de 1.665 participantes. O Brasil ficou em 2º lugar no quadro de medalhas, com 14 ouros, 20 pratas e 18 bronzes, mas com números incomparáveis com os dos Estados Unidos, campeão geral com 106 ouros e 199 medalhas no total.

A SEGUNDA CASA

Além dos eventos esportivos internacionais, o Pacaembu serve, principalmente, de 'segunda casa' para os clubes paulistas. O Corinthians foi a equipe que mais mandou seus jogos no Pacaembu: foram nada menos que 1.686 jogos até agora. Por conta do expressivo crescimento da torcida a partir da década de 50, o Alvinegro teve deixou de mandar seus jogos mais importantes no Parque São Jorge. Apenas em 2014, com a construção da Arena Corinthians, a equipe 'se mudou' definitivamente. Dentre as grandes conquistas do clube no Pacaembu, estão as do Campeonato Brasileiro em 2011, da Libertadores em 2012 e da Recopa Sul-Americana em 2013, contra o arquirrival São Paulo. Vale lembrar que, até o 'racha' entre Andrés Sanchez e Juvenal Juvêncio nos últimos anos, o Corinthians também jogava suas finais e jogos de maior expressão no Morumbi.

O Santos foi o outro time a levantar a Taça Libertadores no estádio: em 2011, comandado por Neymar e companhia. Desde a 'era Pelé', a equipe marca seus jogos de maior demanda para o Pacaembu. Na época, o Maracanã era a outra alternativa. Recentemente, o Santos vem demonstrando interesse em adquirir o estádio e modernizá-lo, tornando-o oficialmente a casa santista. No caso, a Vila Belmiro seria utilizada apenas em jogos de menor expressão.

O Palmeiras também teve de adotar o Pacaembu como sua casa recentemente: de 2011 a 2014, por conta da construção de sua nova arena. O período não é muito bem lembrado pelo torcedor Alviverde, por conta do rebaixamento à Série B do Campeonato Brasileiro em 2012, porém, o time sempre contou com grandes médias de público no período. A taça da Série B também foi conquistada no estádio, em 2013, após vitória por 3 a 0 sobre o Boa Esporte. No último jogo antes de voltar à sua casa, o Palmeiras estampou um agradecimento ao Pacaembu na camisa pelos quase quatro anos de hospedagem.

Enquanto isso, o São Paulo tem o costume de transferir seus jogos para o Pacaembu em caso de eventos ou reajustes no Estádio do Morumbi. Antes da inauguração oficial do Cícero Pompeu de Toledo, em 1970, porém, o São Paulo também tinha o estádio como uma de suas casas. Agora, com novos rumores sobre uma reforma-geral no Morumbi, o São Paulo pode voltar a se abrigar no Pacaembu por certo período. Por conta da melhor acessibilidade e proximidade ao centro da capital, o time também consegue levar bons públicos ao estádio quando recorre a ele.

GRATUIDADES E CONCESSÃO

O Pacaembu, além de palco para o futebol, também é aberto a serviço da população paulistana. O Complexo Poliesportivo anexado ao estádio abriga várias atividades gratuitas, como a piscina, o ginásio de esportes, a quadra externa e ginásio de tênis, a pista de corrida (em volta do gramado), quadras cobertas no vão do Tobogã e uma quadra descoberta. Além disso, abriga também o Museu do Futebol desde 2008, em uma homenagem à cidade onde foi introduzido o futebol no Brasil por meio do paulista Charles Miller - descendente de ingleses e escoceses - que é homenageado com o nome da praça em frente ao estádio.

Em janeiro deste ano, a Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação da Cidade de São Paulo abriu um chamamento público de concessão à iniciativa privada para deixar o Pacaembu modernizado no padrão das novas arenas multiuso. As propostas devem conter os projetos relacionados à arquitetura e engenharia, além do modelo operacional e a análise de projeção de receitas. Devem ser respeitadas as diretrizes de tombamento Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) feito em 1998, que impede qualquer alteração na fachada do estádio. O Santos aparece como interessado.

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Confira 10 curiosidades sobre o 'aniversariante' Estádio do Pacaembu

Relembre alguns fatos históricos do Estádio, que faz 75 anos

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

27 de abril de 2015 | 07h00

1. 'O Mais Querido'

Na cerimônia de inauguração do estádio, realizada há exatos 75 anos, o então presidente Getúlio Vargas recebeu uma 'provocação' do time do São Paulo que ganhou apoio maciço do público e dos veículos de imprensa contra a censura. Já como presidente-ditador, Vargas proibiu a ostentação de bandeiras estaduais visando a 'integração nacionalista', porém, o São Paulo entrou no desfile apresentando as cores e o nome do time, que são as mesmas do Estado de São Paulo. Resultado: foi ovacionado e aplaudido pelo público e pelos locutores avessos à censura de Vargas. Foi assim que o clube ganhou o apelido de 'O Mais Querido'.

2. Tombamento (Art Déco)

O estádio foi tombado em 1998 em virtude de seu estilo arquitetônico 'Art Déco', próprio da época em que foi construído. O movimento artístico, que teve sua origem na Europa na década de 1910, remete à 'Art nouveau', adotando princípios do cubismo e do exotismo. Os objetos têm decoração geometrizada na arquiteturas. A prefeitura de Los Angeles, o prédio do Parlamento do Japão e até o Cristo Redentor são construções que respeitam o 'Art Déco'.

3. Recordista de títulos

Com 26 títulos, o Palmeiras é o maior campeão da história do Pacaembu. Apenas nos anos 40, primeira década de atividade do estádio, o Palmeiras foi campeão em 1943, 1945, 1946, 1948 e 1949. O último título alviverde levantado no Pacaembu foi a Série B de 2013.

4. Maior público

Hoje, o Pacaembu conta com uma capacidade total de 37.730 espectadores. Porém, em maio de 1942, um clássico entre Corinthians e São Paulo chegou a receber 72.018 torcedores, recorde de público da história do estádio. O jogo terminou empatado em 3 a 3 e marcou a estreia de Leônidas da Silva, o 'Diamante Negro', no time são-paulino.

5. Maior goleada

A maior goleada da história do Paulo Machado de Carvalho também envolveu o São Paulo. Em 1945, a equipe bateu o Jabaquara, de Santos, por nada menos que 12 a 1, pelo Campeonato Paulista. Aquele time terminaria o torneio como campeão, o terceiro título estadual da história do São Paulo.

6. Adeus, baixinho

No dia 27 de abril de 2005, ou seja, há exatos 10 anos, o Pacaembu voltava a receber a seleção brasileira após 37 anos. O amistoso, contra a Guatemala, foi organizado por uma causa nobre: seria a despedida de Romário da seleção brasileira. O tetracampeão anotou o segundo gol da vitória brasileira por 3 a 0 no jogo que também comemorava os 65 anos da inauguração do estádio. Após este jogo, o Pacaembu recebeu a seleção novamente apenas uma vez: no dia 7 de junho de 2011, contra a Romênia. O jogo terminou 1 a 0 para o Brasil, tendo o gol sido marcado por Fred.

7. Início do jejum corintiano

Em fevereiro de 1955, Corinthians e Palmeiras fizeram a final do Campeonato Paulista do ano anterior, 1954. O jogo fez parte das festividades do quarto centenário da cidade de São Paulo e, após empate em 1 a 1, o Corinthians sagrou-se campeão. Porém, a partir dali, o torcedor alvinegro demoraria a comemorar outro título. O suspiro de alívio veio só 22 anos depois, no Campeonato Paulista de 1977, em final contra a Ponte Preta que é lembrada até hoje.

8. Paulo Machado de Carvalho?

Inaugurado sob o título de Estádio Municipal do Pacaembu, posteriormente o local ganhou o nome de Paulo Machado de Carvalho, em homenagem ao 'Marechal da Vitória'. O advogado e empresário brasileiro foi chefe da delegação brasileira nas vitoriosas campanhas dos Mundiais de 1958, na Suécia, e de 1962, no Chile. Por duas oportunidades, também presidiu o São Paulo Futebol Clube. É também conhecido como a 'Voz de São Paulo' no Movimento Constitucionalista de 1932, por conta de sua carreira no rádio.

9. Tobogã

A arquibancada complementar do estádio - popularmente conhecida como 'Tobogã' - foi erguida em 1970, durante a gestão Paulo Maluf na Prefeitura de São Paulo. O 'anexo', que abriga 10 mil torcedores, foi construído no lugar da antiga concha acústica, que antes era posicionada no local para ser palco de diversos espetáculos musicais entre os anos de 1940 e 1970.

10. Casa de shows

Fora do âmbito esportivo, o Pacaembu também abrigou uma série de outros eventos. Rolling Stones, AC/DC, Iron Maiden, Pearl Jam, Paul McCartney, Red Hot Chili Peppers e até mesmo Luciano Pavarotti fizeram apresentações no local. Porém, em 2005, uma liminar proibiu eventos de grande porte não-ligados ao esporte no Pacaembu após a associação de moradores do bairro mover uma ação judicial, julgando serem 'prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde'. Em 2010, o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a decisão. Desde então, apenas a missa campal realizada pelo Papa Bento XVI aconteceu, no ano de 2007.

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