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Vista aérea do Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília DIDA SAMPAIO/ESTADAO

Estádio Mané Garrincha vai virar ‘casa de shows’

Governo do Distrito Federal não quer mais administrar o estádio e consórcio interessado na concessão pública dará tratamento secundário ao futebol

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2018 | 17h54

Estádio mais caro da Copa do Mundo de 2014, o Mané Garrincha, em Brasília, será transformado em uma “casa de shows”. Isso porque o governo do Distrito Federal, dono e responsável pela construção da arena, não quer mais ficar com o espaço após gastar R$ 1,57 bilhão na obra e pretende entregá-lo à iniciativa privada. O único interessado no estádio é o consórcio Arena BSB, formado pelas empresas RNGD e Amsterdam Arena, que já avisou que nos próximos 35 anos (período da concessão pública do Mané Garrincha) o futebol será tratado como secundário. A prioridade será dada a shows e eventos diversos.

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O consórcio Arena BSB contratou a Capital Live, braço com foco em entretenimento da WTorre, responsável pela construção do estádio do Palmeiras, o Allianz Parque, e que transformou o local na arena com o maior número de grandes shows do mundo em 2017, segundo a Pollstar, uma das principais agências especializadas no mercado internacional de música. Só no ano passado foram 17 eventos desse porte. O objetivo é que parte da agenda de shows do Allianz Parque seja replicada na capital federal também.

“Nossa ideia é aproveitar a estrutura do estádio, a localização e o alto poder aquisitivo da população de Brasília para levar grandes shows ao Mané Garrincha e gerar receita. A principal fonte de renda certamente não serão os eventos esportivos”, admite Richard Dubois, líder do consórcio Arena BSB.

O processo de entrega do estádio à iniciativa privada começou em março de 2016. O TCDF (Tribunal de Contas do Distrito Federal) determinou no início do mês a suspensão do processo licitatório devido à identificação de supostas irregularidades. Os questionamentos feitos pelo TCDF foram respondidos pela Terracap, companhia imobiliária pública do governo do Distrito Federal responsável pelo estádio, na última terça-feira, e a expectativa é de que o tribunal se posicione em abril liberando a assinatura do contrato.

Além do Mané Garrincha, estão no pacote da concessão o ginásio Nilson Nelson e o Parque Aquático Cláudio Coutinho. Pelo acordo, a Terracap receberá R$ 5 milhões por ano do consórcio, mas continuará arcando com o IPTU dos três espaços esportivos, atualmente de R$ 800 mil. O gasto anual de manutenção da companhia com o complexo esportivo é de R$ 13 milhões.

“Vamos, na verdade, ter um saldo positivo de R$ 18 milhões por ano. Além de não gastar os R$ 13 milhões de manutenção, receberemos R$ 5 milhões. A decisão estratégica de construir o estádio foi equivocada e a concessão será uma forma de minimizar esse prejuízo” informa o presidente da Terracap, Júlio César de Azevedo Reis.

Estudo encomendado pela companhia para saber em quanto tempo o estádio iria retornar o investimento feito em sua obra apontou que nunca seria possível pagar essa conta. Foi gasto R$ 1,57 bilhão e, ao longo de toda a vida útil do estádio, que é estimada em cem anos, o retorno máximo seria de 12% do valor total de construção.

Sem times de tradição no Distrito Federal e um campeonato local forte, o Mané Garrincha é um estádio ocioso. No ano passado, por exemplo, chegou a ficar sete meses sem receber uma única partida oficial de futebol e sofre com problemas de manutenção. Sem um calendário esportivo permanente, a arena recebeu na última semana o Fórum Mundial da Água.

Pelo projeto proposto pelo consórcio Arena BSB, será construído um boulevard de aproximadamente 70 mil metros quadrados na área localizada entre o estádio e o autódromo Nelson Piquet. Vai ser uma espécie de calçadão com praça de alimentação, academia, cinema e teatro. O IPTU do boulevard será pago pelo consórcio.

As receitas desse boulevard ajudarão a arcar com obras de adaptação para que o Mané Garrincha possa receber mais shows, além de bancar as reformas do ginásio Nilson Nelson e do Parque Aquático Cláudio Coutinho. O consórcio Arena BSB pretende gastar R$ 400 milhões com as obras.

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Governo do Distrito Federal também abrirá mão do autódromo Nelson Piquet

Ainda falta definir qual modelo será adotado: parceria público-privada ou concessão

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2018 | 18h10

Depois da concessão pública do estádio Mané Garrincha, o próximo passo do governo do Distrito Federal é entregar à iniciativa privada a administração do autódromo Nelson Piquet. Inaugurado em 1974 e palco de grandes provas do automobilismo nacional, o espaço foi separado do restante do complexo esportivo da capital federal porque, na visão dos administradores da Terracap, poderia atrapalhar a concessão do Mané Garrincha, do ginásio Nilson Nelson e do Parque Aquático Cláudio Coutinho.

A Terracap é a companhia imobiliária pública do governo do Distrito Federal responsável pelo estádio e o autódromo. O entendimento foi de que são ramos muito distintos e dificilmente apareceria um interessado que pudesse tocar os dois projetos ao mesmo tempo.

Após estudos de viabilidades técnicas, a Terracap lançou o edital de um PMI (Procedimento de Manifestação de Interesse), mas ainda falta definir qual modelo será adotado: parceria público-privada ou concessão.  Será construído um boulevard na área localizada entre o estádio e o autódromo Nelson Piquet, com praça de alimentação, academia, cinema e teatro.

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Polícia Federal apontou superfaturamento de R$ 559 milhões no Estádio Mané Garrincha

Valor inicial previsto era de R$ 600 milhões, mas custo final ficou em R$ 1,57 bilhão

O Estado de S.Paulo

24 de março de 2018 | 18h05

Relatório da Polícia Federal de 335 páginas enviado à 10.ª Vara da Justiça Federal no Distrito Federal no ano passado apontou superfaturamento de R$ 559 milhões nas obras do Mané Garrincha. Segundo a PF, foram cometidos os crimes de peculato, corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro e associação criminosa durante a construção do estádio. O valor inicial previsto para a obra do Mané Garrincha era de R$ 600 milhões. O custo final, no entanto, ficou em R$ 1,57 bilhão.

A Polícia Federal deflagrou a Operação Panatenaico e chegou a prender, em maio de 2017, os ex-governadores do Distrito Federal José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz e o ex-vice-governador Tadeu Filippelli, que ocupava o cargo de assessor do presidente Michel Temer e acabou exonerado. Os três foram soltos.

Ao todo foram indiciadas 21 pessoas, entre funcionários públicos, advogados e executivos de empreiteiras. Entre os indícios de corrupção encontrados pela Polícia Federal estão várias fotos de maços de dinheiro, tabelas de pagamento, comprovantes de passagens aéreas, planilhas referentes à obra antes mesmo do lançamento da licitação e e-mails obtidos nos celulares dos investigados. A operação foi deflagrada com base em delações de executivos da construtora Andrade Gutierrez, empreiteira responsável pela construção do Mané Garrincha, em um consórcio junto com a empresa Via Engenharia.

O nome da operação é uma referência ao Stadium Panatenaico, sede dos Jogos Panatenaicos, competições realizadas na Grécia antiga, antes dos Jogos Olímpicos. A arena é considerada uma das mais antigas do mundo.

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