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Estádios esportivos necessitam segurança, não complacência

O futebol, na verdade todos os esportes, foi obrigado a adotar medidas para evitar desastres ou ataques terroristas

Rob Hughes, Global Soccer

17 Novembro 2015 | 14h35

Há uma razão forte, e triste também, pela qual os atentados que provocaram um banho de sangue em Paris na noite de sexta-feira não atravessaram os portões do Stade de France, no subúrbio de Saint Denis, ao norte de Paris.

Foi a mesma razão pela qual a equipe nacional alemã preferiu permanecer dentro do estádio após o jogo com a França e não se arriscar a voltar para seu hotel no coração de Paris.

Numa palavra, a segurança. O futebol, na verdade todos os esportes, com o passar dos anos foi obrigado a adotar medidas de segurança para evitar desastres como a debandada da multidão de torcedores no Estádio de Heysel na Bélgica e Hillsborough na Inglaterra nos anos 80, ou o ataque terrorista contra uma equipe israelense nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972.

Dois homens bomba aparentemente tentaram entrar no estádio em Paris na noite de sexta-feira antes de se explodirem perto dos portões. Eles jamais passariam pelos guardas.

Fato de enorme importância porque a França deverá hospedar o Campeonato Europeu de Futebol em junho e julho. A UEFA já ampliou para 24 o número de equipes que participarão do Euro 2016. Três vezes mais do que o torneio costuma envolver e os jogos serão realizados em um número maior de estádios.

A competição abrangerá 51 jogos que serão disputados em 10 estádios em toda a França. Uma reunião para discutir a segurança fora marcada bem antes dos atentados, para segunda-feira. Agora ela tem uma urgência e repercussão bem maiores.

O futebol não pode ser complacente. Mas fora da França os jogos prosseguiram, no sábado e domingo, com duas importantes disputas, Brasil e Argentina empatando por um a um no jogo de qualificação para a Copa do Mundo de 2018. E em Estocolmo Suécia venceu a Dinamarca por dois a um, com um jogo marcado para terça-feira em Copenhague para decidir que vizinhos escandinavos jogarão na França daqui a sete meses.

O esporte pode parecer algo totalmente insignificante depois dos acontecimentos do fim de semana, ou pode ser visto como essencial para desafiar aqueles que estão inclinados a destruir as interações em completa harmonia das pessoas, em todo o mundo. 

Quando a equipe campeã mundial da Alemanha retornou em segurança a Frankfurt no sábado, a federação alemã de futebol divulgou comunicado afirmando que “Fomos a Paris para fazer aquilo que nos conecta a todos - jogar futebol, um time contra o outro e na maior amizade. Todos esperávamos jogar no Stade de France e ter uma grande noite do esporte, o que se transformou num pesadelo.

Algumas horas depois de o time alemão voltar para casa, um grande jogo em benefício da UNICEF se realizou no Manchester United Old Trafford Stadium no sábado. Chovia muito, mas cada assento nesse enorme estádio estava ocupado para ver uma equipe de jogadores irlandeses e britânicos liderados por David Beckham de um lado. O homem que seria o capitão da outra equipe, chamada “Resto do Mundo”, não compareceu ao evento.

Zinedine Zidane disse que não poderia jogar naquele fim de semana, nem mesmo por uma causa na qual acreditava plenamente. Zidane, 43 anos, provavelmente o jogador mais adorado na história da França, nos seus bons tempos. Como ele poderia jogar num momento em que seu país está de luto? Como poderia participar quando o jogador da equipe nacional francesa que ele conhece bem, o defensor Lassana Diarra, chorava a morte de um primo muito próximo, Asta Diakite, vítima do atentado terrorista?

Zidane aperfeiçoou suas habilidades futebolísticas em jogos de rua em Marselha, sul da França e é muito querido dos milhares de imigrantes franco-argentinas que vivem nas ruas pobres em torno de Saint Denis.

Há mais de 17 anos visitei um das dezenas de cafés e restaurantes argelinos próximos do Stade de France antes do jogo de quartas de final da Copa do Mundo entre França e Itália.

“Todos somos como Zidane - antes de ele ficar rico”, disse Kedidja, uma jovem mãe que trabalhava num dos cafés. Nem um cliente, ou qualquer pessoa do bairro, tinha entrada para o jogo. Mas ao lado de um prédio à sombra do reluzente estádio, Adidas havia colocado uma foto gigantesca de Zidane sob um fundo azul.

“Daqui podemos ouvir a multidão. Assistimos ao jogo pela TV, e quando Zizou está jogando sinto-me mais francesa do que os franceses”, disse ela.

Seus pais, e os pais de Zidane, vieram da região de língua berbere do norte da Argélia. Zidane era o seu jogador, muçulmano da mesma estirpe e o pessoal de Saint Denis justificou o ataque de nervos quando ele foi insultado por um jogador saudita e recebeu cartão vermelho durante a final de uma Copa do Mundo subsequente, em 2006, por dar uma cabeçada no italiano Marco Materazzi, que insultara sua família.

A França, melhor do que qualquer outra nação na Copa do Mundo de 1998, contava com uma equipe de jogadores de todas as cores e credos quando derrotou o mundo e conquistou o título. Surpreende o fato de ele se sentir incapaz de jogar exatamente nesse fim de semana?

(Tradução de Terezinha Martino) 

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