Mark Ralston/AFP
Mark Ralston/AFP

Estádios se despedem da Copa com risco de virarem 'elefantes brancos'

Quatro cidades já saíram do Mundial, sem saber ao certo como dar rentabilidade às suas arenas

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 05h00

Terminada a Copa para quatro dos doze estádios do Mundial, a Rússia mergulha em um debate tradicional em todos os eventos esportivos de grandes proporções: o que fazer com novos “elefantes brancos”, deixados a cada quatro anos pelo mundo? Com o fim da primeira fase do torneio, estádios como o de Ecaterimburgo, Kaliningrado, Saransk e Volgogrado encerram suas participações no torneio. Já o estádio de Rostov terá apenas mais uma partida, nesta fase de oitavas de final.

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O Comitê Organizador Local explicou ao Estado que um fundo com recursos públicos foi criado para manter as arenas por dois anos. Até lá, os clubes locais e prefeituras precisam encontrar um plano para assumir os estádios e passar a usá-los de forma financeiramente viável.

O governo russo deve destinar aos estádios um total de US$ 31 milhões (R$ 119 milhões) até 2020 em gastos com operações. Mas sete dos doze estádios da Copa serão inteiramente bancados pelo novo fundo criado pelo Kremlin, em gastos que podem chegar a US$ 8 milhões (R$ 30,8 milhões) em manutenção apenas em 2019. Além dos estádios que já abandonam o Mundial depois da fase inicial, vão se beneficiar do pacote ainda as arenas de Nijni Novgorod e Samara.

No caso de Kaliningrado, antes mesmo de a Copa começar o governador local, Anton Alikhanov, fez uma reunião com o presidente russo Vladimir Putin para pedir dinheiro. O único time local é o FC Baltika, da segunda divisão, que não tem ilusões sobre sua capacidade de lotar um estádio com 35 mil lugares.

Em Volgogrado e Nijni Novgorod, os clubes locais não conseguem passar de um público médio de 5 mil pessoas. No caso de Saransk, a equipe da cidade está na terceira divisão. Já em Sochi, que hoje não conta com um clube, a negociação é para que o Dínamo de São Petersburgo se mude para o balneário em 2019.

 

Os times que atuam na primeira divisão de Ecaterimburgo e Rostov não chegam a vender mais de 9 mil entradas por jogo. Por isso, no caso de Ecaterimburgo, o estádio foi construído com arquibancadas móveis – uma espécie de “puxadinho”. Assim, a capacidade de 35 mil lugares será reduzida para apenas 23 mil, num esforço de o manter sustentável.

Ajuda

“Na Rússia, o problema que ocorre a cada quatro anos (com estádios construídos para o Mundial que acabam sem uso) era totalmente telegrafado, especialmente em lugares como Volgogrado e Kaliningrado”, disse ao Estado o acadêmico da Pacific University, de Oregon, e ex-jogador da seleção americana olímpica Jules Boykoff.

“Nesses locais, os clubes das cidades não terão a capacidade de lotar os estádios da Copa.”

A consultoria Aecom também prevê problemas para a manutenção dos estádios russos. Mas alerta que os desafios não estarão resolvidos com os dois anos de resgate do governo.

O assunto entrou até mesmo na agenda do Conselho da Federação Russa. Ali, líderes regionais solicitaram mais ajuda financeira de Moscou. Delegados de Nijni Novgorod, por exemplo, chegaram a propor que a manutenção das arenas esportivas fosse colocada no orçamento do governo de forma fixa, por três anos seguidos.

“Isso tudo mostra o problema persistente que sedes de eventos esportivos enfrentam ao receber uma Copa do Mundo: os custos escondidos de manutenção de estádios depois que o espetáculo (da bola) deixa a cidade”, disse Boykoff.

 

 

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