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Estava escrito

O gol de Rodriguinho, com um minuto e tanto, foi a senha de que haveria algo extraordinário

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2018 | 04h00

Pelo menos de vez em quando, o cronista esportivo deve colocar-se no lugar do torcedor. O exercício eventual não atrapalha em nada o trabalho; antes, ajuda a compreender certas reações e sentimentos do público. Faz com que desça do pedestal da frieza olímpica e o aproxima da emoção das partidas.

Pois fiz a experiência neste domingo à tarde, assim que o confuso árbitro Marcelo Aparecido de Souza deu a primeira assoprada no apito para o Palmeiras x Corinthians decisivo. E foi possível imaginar o que se passou na mente de alvinegros e palestrinos, tão logo Rodriguinho arriscou chute de dentro da área para fazer o gol que levou a disputa para os pênaltis. “1 a 0 com menos de dois minutos?!”, pensei. “Isso é sinal de que haverá acontecimentos extraordinários no Allianz.”

Na condição de “corintiano”, bateu a certeza de que estava escrito que a derrota de domingo passado iria para o espaço e ocorreria outro milagre, com a ajuda de São Jorge. (E de “são Cássio Pegador de Pênaltis”.) Como “palestrino”, baixou um medão de que aquilo era péssimo indício e que a festa em casa afinal seria dos convidados.

Como de fato aconteceu.

E aconteceu por alguns motivos. O mais óbvio: a capacidade de resistência do Corinthians. Fábio Carille montou time para atrair o Palmeiras e, sem pressa, cavar um contragolpe. Por isso, iniciou com Ralf, Romero e Jadson. Ou seja, com formação experiente, acostumada a aguentar pressão e com qualidade para encontrar brechas.

A receita superou expectativas com o gol precoce, num momento em que havia gente a buscar lugar no estádio. E a vantagem (ou igualdade na soma de duelos) reforçou a estratégia do campeão de retrancar-se e suportar bombardeio. Que, na prática, nem se mostrou letal. Cássio apareceu pouco.

Os muros corintianos se sustentaram também por incompetência da turma de Roger Machado. O Palmeiras rodou pra cá e pra lá, teve índice alto de posse de bola e pouco soube o que fazer com ela. Concentrou suas jogadas de ataque, na etapa inicial, no lado direito, com Marcos Rocha e Dudu. Ambos cansaram de cruzamentos para Balbuena e Henrique cortarem.

Na segunda, variou e melhorou, com a entrada de Keno. Exceto por lances esporádicos, mal chegou com perigo perto de Cássio. Teve o jogo inteiro para fazer um golzinho e não conseguiu. Não se viu um lançamento preciso de Lucas Lima, não chegou uma bola boa para Willian ou Borja arrematarem; Moisés não acertou um chute sequer de média distância. Eis o ponto: o Palmeiras enroscou-se na teia rival.

Ah, o juiz interferiu ao dar e depois negar o pênalti de Ralf sobre Dudu! Tema discutível. Aparecido ia embarcar numa furada e foi salvo pelo quarto árbitro. Porém, demorou tanto para tomar atitude que deu margem para reclamações, com declarações destemperadas de cartolas ao fim da refrega.

Mais do que esbravejar contra o Aparecido, dirigentes deveriam ter reclamado, antes do torneio, do regulamento, que não previa vantagem para quem tivesse melhor campanha, exceto a de decidir em casa. Para o Palmeiras não adiantou nada ter mais pontos, pois isso não pesou em seu favor na hora H. Azar de quem vacila nos Conselhos Arbitrais.

A final escancarou que o Corinthians tem limitações e consegue superá-las, em filme idêntico ao de 2017. Isso se deve ao trabalho de comissão técnica eficiente e atletas aplicados. O Palmeiras, também como na temporada anterior, esbanja elenco, porém sem espírito vencedor; falta lampejo de ganhadores para Dudu & Cia. Não significa que seja irreversível, há Libertadores, Copa do Brasil e Brasileiro pela frente. Mas perder título pro Corinthians, em casa, dói na alma verde, e enche de orgulho a Fiel.

Algum palestrino ou algum corintiano me desmentem?

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