Imagem Antero Greco
Colunista
Antero Greco
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Estrago chinês

O zunzum no futebol por aqui, neste meio mês de janeiro, é o estrago que os chineses têm feito no Corinthians, com ameaça de estender-se para outras equipes. A turma do lado de lá do mundo veio com malas abarrotadas de dinheiro para levar embora jogadores que considerem interessantes para estimular os campeonatos locais. (O plural se justifica, pois a grana jorra nas Séries A e B.)

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2016 | 02h01

Botaram na cabeça que querem futebol forte, pois vislumbraram potencial de grande negócio. E, como fazem em tudo em que põem a mão, só sossegam quando alcançarem o objetivo. E vai duvidar? Ora, se ingleses, espanhóis, alemães faturam com o esporte, por que não também eles?

A China não brinca em serviço - e nem é por acaso que tem economia poderosa, a ponto de um resfriadinho de nada nas finanças de lá provocar pneumonia nas bolsas do mundo. Como já se meteu - e bem - em tudo que rende dinheiro, chegou a hora da bola. A estratégia é a de sempre: olhou, gostou, pergunta o preço, paga e leva.

A gente não se ligou nas investidas anteriores, mas não é de agora que os chineses pescam talentos brasileiros. Para ficar em exemplos ligeiros, o mestre Cuca trocou o Atlético-MG campeão da América pelo Shandong Luneng, de onde foi demitido e substituído por Mano Menezes. O mesmo clube já contou com Wagner Love e tem, atualmente, Júnior Urso, Jucilei, Aloísio e Diego Tardelli no elenco.

O Cruzeiro abriu mão de Ricardo Goulart, após o bi de 2013/14, e o viu partir para o Ghanzu Evergrande, que tem uma penca de brazucas (Robinho passou por lá e Paulinho continua), sob comando de Felipão. O professor Vanderlei Luxemburgo tenta a sorte no Tianjin, da Segundona, que fez proposta sedutora por Luis Fabiano e Jadson e os carregou. E por aí vai.

A China transformou-se, para o futebol patrício, no eldorado, na terra prometida, como foi a Arábia no final dos anos 70 e na década de 80. Na época, atletas promissores, no auge ou mesmo em fim de carreira, não resistiam aos petrodólares e se mandavam para divertir xeques e respectivos súditos. O mesmo valia para treinadores - Zagallo, Parreira, Telê, Evaristo foram alguns dos que fizeram pé de meia no Oriente. Agora a fonte maior mudou.

Os chineses estão na nossa grande área há temporadas. Porém, o estrondo no momento assustou porque atingiu o Corinthians. Não só pela popularidade alvinegra, mas pelo fato de que se esvaziou grupo recentemente campeão brasileiro com sobras e que enfiou o pé em 2016 como candidato a conquistas memoráveis. Daí, num piscar d'olhos deram "Beijing, Beijing, tchau, tchau" Jadson, Renato Augusto e Ralf. Sem contraproposta nem um "calma lá, vamos conversar e negociar". Dinheiro na conta dos moços e do clube, e fim de papo.

Pelo visto não se saciou o apetite e mais gente tomará chá de sumiço. E, não custa frisar, que o escoamento de astros não começou agora nem cresceu além da conta por causa dos chineses. Europeus há décadas fazem a festa nestas benditas terras, embora tenham desviado o foco para garotos em início de formação, um investimento barato e lucrativo.

A farra dos gringos acabará? Não, em curto nem em médio prazos. Economia frágil à parte, o entrave maior está na estrutura do nosso futebol. Times são administrados de maneira amadora e viciada - com tentativas, aqui e ali, de profissionalismo; empresários dão as cartas e têm grossas fatias nos direitos econômicos dos jogadores; Federações estaduais ultrapassadas e CBF desmoralizada possuem poder descabido.

A reviravolta virá quando os clubes assumirem o protagonismo, criarem Ligas, se tornarem donos do próprio nariz, se livrarem dos "investidores", negociarem patrocínios e direitos de tv em patamares altos e com distribuição democráticos. Quando se livrarem de cartolas ineptos e espertalhões. Até esse dia, sejam chineses, japoneses, árabes, europeus, quem aparecer com bufunfa - nem precisa ser muita - leva.

 

Tudo o que sabemos sobre:
futebolAntero Greco

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.