Estrangeiros aproveitam Copa e conhecem Museu do Futebol

Mesmo fora do Mundial, Estádio do Pacaembu recebe turistas que estão em São Paulo para acompanhar as seleções de seus países

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2014 | 05h00

  Uma manhã fresquinha precedia ao jogo Inglaterra 1 x 2 Uruguai, na Arena Corinthians, em São Paulo, na quinta-feira, quando o inglês Richard Pilcher e o uruguaio José Antônio Ledesma preparavam o espírito para a peleja da tarde passeando pela cidade. Como milhares de turistas estrangeiros que curtem o Brasil nestes tempos de ouro da bola, Pilcher e Ledesma escolheram o Museu do Futebol, no Pacaembu, para começar o dia no clima da Copa.

"Very nice!", dizia Pilcher, olhando camisas, bolas, chuteiras e vídeos que contam a história do esporte no acervo do museu. Em sua segunda viagem ao Brasil, Pilcher ainda não conhecia o espaço dedicado à memória do futebol, localizado na Praça Charles Miller, o descendente britânico, nascido no Brás, que está ligado ao nascimento do futebol brasileiro. Na mesma sala, no primeiro dos três andares do estádio Paulo Machado de Carvalho, o uruguaio Ledesma, acompanhado por dois amigos, repetia a impressão do inglês: "O museu é muito bom!", disse o platino, arriscando um português com sotaque castelhano.

Casado com uma brasileira, Ledesma visita São Paulo pela primeira vez. Paramentado para o jogo, com camisa, bandeira celeste amarrada no pescoço, o compatriota de José Pepe Mujica fazia questão de posar para fotos ao lado de uma data bem destacada logo no térreo do museu: o fatídico (para os brasileiros, claro) ano de 1950. Na entrevista, em seguida, disse que estava jogando todas as suas esperanças aos pés do craque Luisito Suárez, o jovem atacante uruguaio (que não lhe faltou, marcando os dois gols da equipe) - já que o xerifão Diego Lugano, velho conhecido do Morumbi, estava mais para a marca do pênalti do que para o comando da zaga depois do totó de bola tomado da Costa Rica na primeira rodada.

Passeando, sem a pressão pré-jogo de britânicos e uruguaios, um grupo "from Nigéria" curtia o segundo andar do museu. Os amigos Gbolahan Koya, Yomi Akande, Dapo Afolabi e Bunmi Alade faziam fotos e observavam cada detalhe das 16 salas. Apesar do magro empate em zero de sua seleção com o Irã, na primeira partida, na segunda-feira, eles estavam alegres, de sangue doce, porque somente correriam perigo novamente no sábado, contra a Bósnia, na Arena Pantanal. "É nossa primeira vez em São Paulo", afirmou Afolabi, pedindo para posar para uma foto com os amigos na sala dos números e curiosidades, ao lado do acesso à sacada que dá vista para o campo do Pacaembu.

Também animados com a sua primeira visita ao Brasil, os equatorianos Ricardo Garcia e Henry Soria, moradores de Quito, estavam felizes por conhecer o museu e o estádio do Pacaembu. Soria, que trouxe o filho, Daniel, de 13 anos, dizia que gostara muito de São Paulo. Planejando viajar na sexta-feira para Curitiba, onde o grupo veria o combate de seus jogadores contra Honduras, Soria era só elogios. “É um relato da história”, argumentava ao lado do colega, Garcia. "Muy bonito", emendava o companheiro.

Enquanto ingleses, uruguaios, equatorianos e nigerianos seguiam pelos corredores da história do futebol, na sala dos vídeos o venezuelano Juan Perez contava ter vindo ao Brasil para uma viagem de 15 dias, com dois irmãos e o pai, para curtir a Copa. “Somos de Maracaibo", disse. "É nossa primeira vez no Brasil." Com o país dele fora do campeonato mundial, Perez, assim como o britânico Pilcher, apostava as fichas na garra e num gol do craque Rooney, até aquele momento ainda virgem em mundiais. "Vamos ao estádio torcer para a Inglaterra", disse Juan. Explicando que seu país passa por momento delicado, o turista elogiou São Paulo. "Está muito bom. Organizado, limpo. A Venezuela está ao contrário. Estamos lutando para reencontrar a estrutura do país, que perdemos há 15 anos", declarou.

Desde a semana passada que o Museu do Futebol tem vivido assim, cheio de estrangeiros. Num só dia, antes da estreia da Copa, 2 mil visitantes de fora do País passaram por lá. Até as 17h da quinta-feira, o local recebeu 4.157 visitantes, dos quais 1.237 eram estrangeiros. Na chegada, os visitantes até estranhavam ao ouvir nas bilheterias o "today is free" das vendedoras anunciando o ingresso de graça na quinta-feira. Em dias normais, a entrada custa R$ 6 a inteira; R$ 3 a meia. O museu abre das 9h às 21h, exceto segunda-feira.

No bar do estádio, que fica no final do trajeto percorrido dentro do museu, o gerente Alex Martins também passa os dias entusiasmado. Filial do lendário Bar Brahma da esquina famosa da Ipiranga com São João, no Centro, o bar do Pacaembu triplicou o movimento nestes dias. "Em média, vendemos 300 refeições nestes dias da Copa", revelou Martins. Em dias normais, almoçam por lá no máximo uma centena de pessoas. Aberto das 9h às 20h, o espaço tem lugar para 130 pessoas . Mas com TVs ligadas por todo lado, lota principalmente nos horários de jogos - 13h, 16h e 19h. "Europeus e sul-americanos são os que mais passam por aqui", contou Martins. O chope, copo de de 300 ml, custa R$ 6,10; o de 500 ml, R$ 7,9. E o bufê sai de R$ 42,00 (durante a semana) e R$ 45,00 nos domingos e feriados.

Na onda do turismo da bola rolando, o bar planeja um pacote especial para a rodada de segunda-feira, quando o museu estará fechado mas o time de Felipão vai pegar Camarões em Brasília. "Vamos fazer um ‘open bar’, R$ 100 por pessoa", disse Martins, prometendo serviço especial para os torcedores. Até domingo - e a partir de terça-feira, porém -, quem visitar o acervo, ou simplesmente estiver circulando pela região, poderá assistir aos jogos na sala do telão, ao lado da entrada do museu. É de graça. Com capacidade para cerca de 80 pessoas, a sala especial transmite os jogos nos três horários da Fifa.

Foi nesse telão que, na quarta-feira, os equatorianos Eduardo Blacio, engenheiro eletrônico, que mora nos EUA há 5 anos, e Hamilton Tobar, que vive na América do Norte há 7 anos, acompanharam a eliminação da Espanha pelo Chile. Frustrado com a derrota da "Fúria" por 2 a 0, Blacio contou que havia perdido o jogo, mas não perdera o dia. Ele acabara de visitar o Museu do Futebol, depois de ter dedicado a manhã ao Masp. Blacio e o amigo Tobar, seguiriam na quinta-feira para Curitiba e, depois, para o Rio. Recebidos no Brasil pelo amigo Gilberto Barbosa Machi, de Guarulhos, os equatorianos adoraram a visita ao Pacaembu.

"Mas ficaria ainda melhor se tivesse tudo traduzido para outras línguas", reclamou Blacio. "Há partes que estão só em português", argumentou. Para eles, que conheceram o amigo brasileiro durante a Jornada da Juventude, em julho, quando o papa Francisco esteve no Brasil, um dos principais atrativos do museu é a sala dos vídeos das torcidas. "Eles gostaram muito daquela sala", disse Machi, também entusiasmado com o museu. Ele se referia à sala Exaltação. Dedicada ao espetáculo da paixão do torcedor, o local empolga mostrando o show das arquibancadas.

Porém, na quinta-feira, uma outra sala, a das "Origens", que, como informa o Museu, "narra uma história que começa com Charles Miller, no final do século XIX, e vai até os primórdios da profissionalização do futebol e da aceitação de atletas negros, a partir dos anos 1920", com suas paredes cobertas de fotografias antigas, foi a mais apreciada pelo italiano Alberto Roma, de 69 anos. Acompanhado pela mulher, Angela, 70, e pelo brasileiro Alberto Parisi, 65, Roma também visita o Brasil pela primeira vez.

"Ele não quer sair dessa sala", explicava Parisi, que vive no Brasil desde criança. Roma olhava cada foto como se buscasse um antepassado. E se disse "com lágrimas nos olhos". Emocionado pelo ambiente, que remete a décadas de personagens esportivos e celebridades, Roma contou, em italiano, que vive em Ciminna, na região de Palermo, Sicilia, e que está adorando a viagem ao Brasil. E, logo, ao ver a câmera do Estado, esticou a conversa para relatar que, quando ainda era jovem, fora convidado por um "regista" (diretor de cinema) para fazer um filme. "Pronto, agora é que ele não vai mais embora do museu", brincou Parisi.

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