Estrangeiros criticam estrutura do futebol brasileiro na Copa

Jornalistas de outros países dizem que técnico de fora não seria a solução para o lugar de Luiz Felipe Scolari

Luís Augusto Monaco, O Estado de S. Paulo

15 de julho de 2014 | 05h00

Pela primeira vez na história do futebol brasileiro é levada a sério a possibilidade de entregar o comando da seleção a um treinador de outra nacionalidade. Mas, para jornalistas estrangeiros ouvidos pelo Estado, essa medida não seria a solução.

A reportagem conversou com quatro repórteres que estiveram no País durante o Mundial, todos com amplo conhecimento sobre as virtudes e mazelas do futebol brasileiro. Dois deles (Santi Giménez, do jornal espanhol As, e Luca Calamai, do italiano La Gazzetta dello Sport) cobriram a seleção brasileira do início ao fim da competição. Os outros dois ouvidos foram José Manuel Freitas, do português A Bola, e Enrico Currò, do italiano La Repubblica.

Para Calamai, é muito simplista imaginar que a chegada de um estrangeiro teria o poder de recolocar rapidamente a seleção nos trilhos. "O que o Brasil precisa é de um projeto sério para os próximos quatro anos. A preparação para este Mundial foi muito ruim, porque Scolari foi contratado um ano e meio antes da competição para sua imagem vencedora e seu carisma servirem de escudo à CBF." Mas ele não exime Felipão de culpa pelo fracasso da equipe. "Seu grande erro foi achar que a Copa das Confederações era um mini Mundial, mas é um torneio fraco. Achou que aquele time bastava para vencer a Copa, e não bastou."

Santi Giménez cobre o Barcelona e foi designado para acompanhar o Brasil por causa de Neymar. Para ele, a contratação de um estrangeiro seria um choque muito forte para os brasileiros. "Para ter um treinador de fora, uma seleção como a brasileira teria de contratar alguém inquestionável, tipo Guardiola ou Mourinho. Menos do que isso seria inaceitável." E ambos são caros: o espanhol recebe R$ 45 milhões por ano no Bayern, e o português ganha R$ 51 milhões no Chelsea.

"O principal é fazer um trabalho nas categorias de base profundo, como fizeram Espanha e Alemanha, os dois últimos campeões do mundo. É preciso investir na revelação de jogadores e criar uma estrutura para que todas as seleções joguem no mesmo sistema da principal."

Ele diz que Felipão nunca o convenceu como treinador. "Scolari tem títulos importantes, mas suas ideias futebolísticas são pobres. Apoia todo o seu trabalho no aspecto psicológico e na motivação do grupo."

José Manuel Freitas diz que um estrangeiro demoraria muito para se adaptar à realidade do futebol brasileiro, o que prejudicaria a seleção. "O Brasil tem vários países dentro de um. O jogo no Rio de Janeiro é um, no Sul é outro..." Mais urgente, para ele, é a revelação de jogadores. "Com todo o respeito, não é possível que, no Brasil, não exista um centroavante melhor do que o Fred."

Enrico Currò ataca a ideia por uma questão de princípios. "Sou contra as seleções serem dirigidas por estrangeiros e naturalizarem jogadores nascidos em outros países." 

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