Martin Rickett/Reuters
Martin Rickett/Reuters

Klopp e Pep se juntam na Premier League para melhorar as condições dos jogadores

As lesões, fadigas e preocupações já estão aumentando diante de um calendário implacável. Mas, para as principais equipes da Europa, o pior ainda está por vir

Rory Smith, The New York Times

12 de novembro de 2020 | 08h00

MANCHESTER, INGLATERRA - Por um momento, parecia que Jürgen Klopp estava discutindo com Pep Guardiola. Klopp, o técnico do Liverpool, procurou Guardiola, seu homólogo do Manchester City, assim que o apito final soou no empate de suas equipes no último domingo. Klopp puxou Guardiola para perto e depois estendeu o braço, rosto sério e testa franzida, apontando para dois grupos de jogadores ofegantes de exaustão dentro de campo.

A rivalidade entre os clubes é curiosa. Sua proeminência e potência deveriam, à primeira vista, torná-la tão empolgante quanto os grandes clássicos da história da Premier League: o Manchester United de Alex Ferguson contra o Arsenal de Arsène Wenger, o Chelsea de José Mourinho contra ambas as equipes e quase todas as outras. Afinal, Liverpool e City são as duas forças dominantes de sua época.

E, no entanto, mesmo com as equipes trocando vitórias e quebrando recordes, a rivalidade sempre ficou aquém: um pouco trivial para parecer séria, um pouco fabricada para parecer autêntica. As maiores rivalidades se escoram num desprezo enraizado na familiaridade: são discussões realizadas com uma linguagem comum sobre um terreno comum. Liverpool e Manchester City, com prioridades e identidades totalmente contrastantes, não têm isso. Muitas vezes, sua rivalidade parece pouco mais que um bate-boca.

Exceto, é claro, quando se trata de Klopp e Guardiola. A relação deles sempre foi mais do que cordial. Seria exagero sugerir que eles são amigos; observando-os de perto, longe dos gramados, é possível perceber como são diferentes. A competição entre eles com certeza é intensa.

Mas o respeito e a admiração vão além da mera frase de efeito na coletiva de imprensa: os louvores que fluem entre eles ao longo de uma temporada não são, como costumam ser apresentados, salvas de uma guerra psicológica. Um tem o outro em alta estima. Um tem o outro como um igual – ou pelo menos como alguém próximo.

E então, quando Klopp puxou Guardiola para perto no domingo à noite, ele não estava reclamando, nem esbravejando, nem remexendo em alguma cicatriz antiga. Em vez disso, estava recrutando o colega para sua causa. Estava, como se viu, pregando para convertido. “Vamos lutar, eu e ele”, disse Guardiola alguns minutos depois.

O que se seguiu, durante a hora seguinte ou mais, foi uma ofensiva contínua nesse campo de batalha. Klopp completou o que pode ser o triunvirato mais improvável do futebol oferecendo seu apoio ao técnico do Manchester United, Ole-Gunnar Solskjaer – o Crasso desta história – em sua reclamação sobre o calendário televisivo da Premier League: o United foi forçado a jogar no primeiro horário do sábado, apesar de ter jogado pela Champions League na Turquia na última quarta-feira.

Então, Klopp e Guardiola, repetidas vezes, voltaram a criticar a decisão da Premier League de prosseguir nesta temporada apertada e compacta com a regra de apenas três substituições para cada equipe por jogo.

Todas as outras principais ligas, assim como a Champions League, aceitaram uma mudança temporária para permitir cinco substituições, um sinal de quão intenso o cronograma deve ser para terminar tudo a tempo para o Campeonato Europeu no próximo verão. A Premier League é única que segue reverente à tradição. “Este país gosta de ser um pouco especial”, disse Guardiola, uma avaliação fulminante que se aplica à Grã-Bretanha de maneiras que vão além do número de jogadores em campo.

Klopp acusou a Premier League de “falta de liderança”. Ele disse que a decisão forçou os clubes a enfrentar um “outubro que parecia dezembro, um novembro que parece dezembro e um dezembro que ainda vai ser dezembro”, em referência à programação frenética de jogos em torno do Natal que tradicionalmente decide uma temporada inglesa. Guardiola caracterizou de incompreensível a decisão de manter as três substituições. Os jogadores, disse ele, não tinham “folga nem descanso”. Ambos exigiram que a discussão fosse retomada.

A ocasião não foi acidental. A visita do Liverpool ao Etihad – um jogo que terminou empatado em 1-1 e deixou o Liverpool em terceiro lugar e o Manchester City em 11º na tabela da Premier League – fora anunciada como o momento mais importante da corrida pelo título, apesar da esmagadora evidência de que esta temporada será decidida não por confrontos de elite, mas por uma longa e desgastante labuta.

Por 45 minutos, o jogo correspondeu ao seu ambicioso anúncio, o tipo de partida que se espera entre os dois melhores times do país. O Liverpool atacava o City e o City atacava o Liverpool, as estratégias variavam, as peças de xadrez continuavam em movimento, as ideias continuavam girando.

Aí tudo parou. Trent Alexander-Arnold saiu mancando. O Liverpool recuou um pouco, os jogadores de Klopp postados em duas disciplinadas linhas de quatro. O City parecia ter um pouco mais de pernas e pulmões, mas só um pouco. A cinco minutos do fim, Guardiola se virou e gritou para Phil Foden, seu jovem e explosivo meio-campista. Prepare-se. Tudo ou nada. Com três minutos restantes, Foden voltou a se sentar. Não era hora de arriscar.

Foi isso que uniu Klopp e Guardiola: a sensação de uma obra-prima realizada apenas parcialmente, de uma missão que não poderia ser cumprida. Ambos temem que a Premier League tenha de se habituar. Estas primeiras semanas da temporada, como sugeriu Klopp, são a parte fácil. O que vem a seguir é muito pior.

As lesões e o cansaço vão aumentar. As equipes – Southampton, Aston Villa, Everton – que iluminaram o início da temporada vão desaparecer quando entrarem no que Wenger sempre chamou de zona vermelha. As estrelas ficarão de fora de alguns jogos, ou, pior, de vários deles. Para equipes sem elenco para substituir os titulares, os resultados vão mudar.

E, ao fim, só ficarão de pé aqueles que souberam resistir melhor, os times com os elencos mais fortes. Isso é prova, no mínimo, do peso do status quo da elite estabelecida. E isso, no fundo, é o que deixa mais convincente o argumento de Klopp e Guardiola. Oferecer aos técnicos mais chance de rodar os jogadores muito provavelmente não alterará muito o resultado. De qualquer maneira, tudo está caminhando na mesma direção. A única diferença é quantos jogadores vão se machucar ao longo do caminho. TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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