Vitor Villar/Estadão
Vitor Villar/Estadão

Estudantes nigerianos não poderão ver jogo da seleção em Salvador

No reencontro entre as culturas africanas e baiana, intercambistas ficaram de fora por problemas burocráticos

Vitor Villar - Seleção Universitária - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de São Paulo

20 de junho de 2013 | 08h45

SALVADOR - A Nigéria enfrenta o Uruguai nesta quinta-feira, 20, pela segunda rodada da Copa das Confederações. Quis o destino que a partida fosse realizada em Salvador, cidade com maior população negra fora da África. Por isso, a passagem da seleção nigeriana terá um gosto especial para os soteropolitanos: será o reencontro da capital baiana com a matriz cultural que ainda está viva nas ruas da cidade.

Reencontro também para os estudantes nigerianos Victoria Ojebor, 27, e Ayodeji Richard, 21. Os intercambistas moram em Salvador há cerca de um mês, e fazem parte de um convênio entre a Universidade Federal da Bahia e a universidade Obafemi Awolowo, do estado de Osun, na Nigéria. Vieram estudar português e conhecer um pouco mais da cultura baiana, tão ligada à dos seus ancestrais.

Os estudantes, no entanto, terão que assistir à partida da sua seleção através da TV. Segundo o coordenador da Casa da Nigéria em Salvador, Oyewo Mojeed Oyebamiji, o governo do país não conseguiu providenciar ingressos para que eles e os outros oito intercambistas que residem na capital baiana pudessem acompanhar o jogo do estádio.

Também se esperava que os estudantes recebessem os atletas na Casa, órgão cultural que fica no bairro do Pelourinho e é o único no Brasil mantido pelo governo nigeriano. A burocracia, influenciada pelas limitações impostas pela FIFA à agenda das seleções durante a Copa das Confederações, emperrou um pouco a programação inicial. “Era uma grande esperança minha e deles, mas infelizmente não foi possível”, lamenta o coordenador do órgão.

Uma pena para Ayodeji, que queria ver seus ídolos de perto pela primeira vez. O estudante acredita que conhecer a Casa da Nigéria e Centro Histórico da capital baiana, assim como toda a influência africana na cultura da cidade, daria um gás maior para os jogadores contra o Uruguai. “Com certeza eles se sentiriam bem mais confortáveis, seria como se estivessem jogando em casa”, comenta.

A ponderação do estudante não é à toa: Salvador é a cidade com maior população negra fora da África, resultado de anos de imigração africana para trabalho escravo no Brasil. Os ancestrais de Richard e Victoria deixaram sua marca no dia a dia da capital baiana. “Tem o acarajé, que para nós é o acará, tem o candomblé, algumas roupas e até algumas palavras, como ‘molho’, que vem do nosso ‘moyo’”, cita a intercambista nigeriana. Para Ayodeji, o baiano também é um pouco nigeriano. “Quando vejo a Bahia e o jeito do baiano, eu sinto um pouco da Nigéria por aqui”, comenta.

As semelhanças não param por aí. Os estudantes mostram que, assim com os brasileiros, os nigerianos também não apaixonados por sua seleção, e se inflam de patriotismo toda vez que ela está em campo. “Somos todos nigerianos e não dá pra fugir disso, então também não dá para torcer por outra seleção a não ser pela Nigéria”, diz Ayodeji, orgulhoso. Victoria diz que, assim como a torcida brasileira, os nigerianos são muito ativos nas arquibancadas. “Cantamos muitas músicas o jogo inteiro”, comenta.

Victoria compara que no país africano os jogadores também são tratados como grandes estrelas, alguns deles por motivos bastante nobres. “Obi Mikel, Jay Jay Okocha, Nwankwo Kanu e outros grandes jogadores da seleção ajudam muito suas cidades e as regiões onde nasceram. Somos orgulhosos deles por isso”, revela. O tratamento dado aos atletas, porém, é bastante diferenciado. “Apesar de eles serem ídolos, se o jogador passa por alguém na calçada, ninguém sai gritando atrás dele, existe um respeito muito grande”, considera Victoria.

Apesar das semelhanças da cultura baiana à africana, os estudantes revelam que ainda estão se adaptando aos poucos ao Brasil. “Aqui as pessoas são mais compreensivas, por exemplo, com o comprimento das roupas das mulheres e com a sexualidade. Lá na Nigéria não é assim, é tudo muito tradicional”, diz Victoria, que considera a diversidade o traço mais intrigante do país. “Aqui eu não sei dizer se você é negro ou se é branco, é todo mundo muito misturado. Acho isso fascinante!”, comenta. Ayodeji tem planos de voltar ao Brasil depois do intercâmbio. “Quero voltar para a Nigéria para terminar meus estudos e me formar, mas penso em voltar para o Brasil e fazer mestrado aqui. ‘Quem sabe’?”, diz, em bom português, mostrando que aos poucos vem aprendendo, também, a língua.

Victoria, Richard e os outros oito estudantes nigerianos residem na Casa do Estudante Nigeriano, também mantida pelo governo do país africano, e que fica há alguns metros da Arena Fonte Nova. Eles ainda torcem para que a situação se reverta e possam assistir sua seleção na Copa das Confederações. “Tomara que sim, estou muito feliz de ter nosso time aqui perto”, comenta Ayodeji, que está confiante em uma vitória sobre o Uruguai. “Não vai ser fácil como foi contra o Taiti, é claro, mas acho dá para vencê-los, sim”, diz.

O intercâmbio dos estudantes termina em fevereiro. Antes disso, Victoria quer conhecer mais lugares no país. “Estou com viagem marcada para São Paulo em fevereiro. Mas quero também conhecer outros lugares do Brasil”, conta a estudante.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.