'Eu posso voltar e ser melhor do que antes', afirma Cabañas

Ainda com bala na cabeça do atentado de 2010, paraguaio tenta retornar ao futebol pela 2ª vez

Gonçalo Junior, enviado especial, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2014 | 17h00

ITAUGUÁ - A bala forma um calombo na parte de trás da cabeça de Cabañas, logo abaixo do cocuruto, e fica escondida sob o cabelo crespo. Ele diz que não dói, nem quando aperta, mas dá um arrepio só de olhar. Dolorida ou não, ela vai continuar lá. Está alojada perto de uma veia central, que irriga todo o cérebro, e, por isso, a cirurgia de remoção é arriscada e poderia deixar sequelas. "Sei que ela está lá, mas não me impede de ter uma vida normal. Seria perigoso tentar tirá-la", diz o jogador de 33 anos.

Salvador Cabañas entende tudo e não tem dificuldades para se movimentar. O que chama a atenção é que ele demora um pouco para falar. Agora, quer dar um passo adiante: voltar a ser jogador. O Tanabi, clube que disputa a Quarta Divisão paulista, foi atrás dele com uma proposta de emprego há duas semanas. O paraguaio topou e ele se apresentará na terça-feira, dia 1.º de abril. Parece pegadinha, mas é verdade. Aliás, o drama inteiro de Cabañas parece mentira, mas é verdade. "Estou bem fisicamente. Posso voltar e ser melhor do antes", diz o atacante, que não perdeu a habilidade para as frases de efeito. "Não é problema que o Tanabi seja menor. Comigo, ele vai ser grande."

Essa demonstração de confiança não foi dada assim, de bate-pronto. Foi difícil arrancá-la. O repórter do Estado encontrou o atacante mal-humorado, seco e mais preocupado com seu almoço. Cabañas estava em sua casa, em Itauguá, distante 30 quilômetros da capital, Assunção. O motivo do mau humor só foi descoberto mais tarde. O jogador está no meio de uma disputa judicial com a ex-esposa, María Lorgia Alonso. Segundo ele, María vive com os dois filhos do casal na sua mansão de US$ 5 milhões (cerca de R$ 11 milhões) na capital.

Ela teria contado com a ajuda do ex-empresário de Cabañas, José González, para desviar US$ 1,6 milhão (em torno de R$ 3,6 milhões) de sua conta - tratava-se da indenização que o atacante havia recebido pela rescisão de contrato com o América, do México.

Por causa dos problemas financeiros, Cabañas foi trabalhar com o pai na padaria da família. Dionisio Cabañas conta que o filho não é de colocar a mão na massa. Literalmente. "Ele administra, mas não faz os pães. Mas não precisa fazer isso. Foi ele quem montou a padaria para mim." Depois do almoço, Cabañas se mostrou mais amável, menos irritado, mas não sorriu em nenhum momento. "O futebol brasileiro é mais técnico do que o paraguaio. Estou preparado para mais um desafio e vou responder dentro de campo." 

ATENTADO

Mas como a bala foi parar na cabeça de Cabañas? Os paraguaios gostam de contar essa história em cada esquina, principalmente na sede do clube 12 de Outubro, onde o jogador começou a carreira. Virou uma espécie de lenda urbana. Em janeiro de 2010, Cabañas foi baleado no banheiro de uma casa noturna da Cidade do México. O motivo pode ter sido o futebol ou o envolvimento com o tráfico de drogas. O autor dos disparos está preso e aguarda o julgamento. "Eu me recordo de tudo", conta o jogador. "O cara ao meu lado disse que ia me matar porque eu estava roubando o dinheiro dos mexicanos com o dinheiro que cobrava", continua o atacante, que se lembra bem da luta contra a morte.

"Depois que atiraram, fui para o paraíso e falei com Deus. Ele disse: ‘Filho, ainda falta muito para você vir para cá’." Quando Cabañas diz "eu me recordo de tudo", ele quer dizer que as lembranças ainda estão ali, junto com a bala, mas também estão no seu jeito devagar de falar.

A tragédia causou enorme comoção no Paraguai e no México, onde torcedores foram ao estádio do América com bandeiras, camisetas da seleção, cartazes e faixas para mostrar que estavam com o ídolo. Até mesmo os presidentes Felipe Calderón, do México, e Fernando Lugo, do Paraguai, manifestaram apreensão.

Cabañas sempre foi um atacante acima da média e, sobretudo, carismático, midiático. Quando diz que pode ser melhor do que antes, está prometendo muito. Ele foi o carrasco de Santos e Flamengo na Libertadores de 2008. Marcou um gol no Brasil nas Eliminatórias para a Copa de 2010: Paraguai 2 a 0. Era nome certo no Mundial. Isso tudo também faz parte de sua lenda. 

PRIMEIRO RETORNO 

Depois de várias etapas da recuperação, que surpreendeu os médicos, Cabañas voltou a jogar pelo seu primeiro clube em 2012. Atuou pouco, tanto que nem dá para dizer que ajudou o time a voltar à Primeira Divisão no ano passado. Já não tinha o jeito tinhoso de fazer gols. Sem conseguir manter a forma física, um problema crônico em sua carreira, não foi relacionado para o Torneio Apertura, iniciado em fevereiro. Aí, surgiu o Tanabi. E Cabañas promete ser melhor do que antes. Se não der certo, já tem um plano B. "Vou cuidar da minha escolinha de futebol em Assunção e olhar para a família. Tenho saudade. Tenho saudade de tudo."

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