Anders Kjaerbye/Reuters
Anders Kjaerbye/Reuters

EUA prometem à Fifa fazer uma Copa do Mundo bilionária em 2026

Oferta da candidatura norte-americana é ousada, mas contas apresentadas pelos dirigentes não são claras

Tariq Panja, The New York Times

09 Junho 2018 | 07h01

Zurique - A candidatura norte-americana para sediar a Copa do Mundo em 2026 está dialogando com membros da Fifa no idioma que eles melhor entendem: dinheiro. A oferta liderada pelos Estados Unidos, em parceria com México e Canadá, vem com promissoras receitas que são o dobro da oferta rival do Marrocos – seu único concorrente para sediar a competição – e mais de três vezes além do que Fifa teria gerado com a Copa do Mundo de 2014 no Brasil.

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As projeções – que constam de um documento de 530 páginas da chamada United Bid e alardeado por Carlos Cordeiro, presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos e os seus homólogos do México e do Canadá que viajam pelo mundo tentando ganhar o apoio dos eleitores na votação do próximo dia 13 sobre quem será o anfitrião – reúnem números assombrosos: US$ 14 bilhões (R$ 52,9 bilhões) em receita e um superávit para a Fifa de US$ 11 bilhões (R$ 41,6 bilhões).

“Isso precisa ficar claro”, disse Cordeiro durante visita recente à Europa, onde foi detalhada a pequena fortuna que as federações nacionais poderiam esperar de uma Copa do Mundo norte-americana. “Em termos de valor, isso poderia representar US$ 50 milhões (R$ 189,2 milhões) a mais por associação”.

Se tais projeções são alcançáveis, no entanto, é tema que continua como ponto de debate. Um documento confidencial da Fifa detalhando a receita e os custos da expansão da Copa de seu atual formato de 32 equipes para 48 seleções, revisado pelo The New York Times, sugere que a previsão da United Bid pode ser otimista demais.

A Fifa arrecada a maior fatia de suas receitas com os direitos de meios de comunicação para a Copa do Mundo e estima que os direitos de transmissão para 2026 sejam de US$ 3,6 bilhões (R$ 13,6 bilhões), bem menos que os US$ 5,5 bilhões (R$ 20,8 bilhões) que os americanos estão prometendo.

A escolha da América do Norte inflaria a receita média em US$ 300 milhões (R$ 1,1 bilhão) como parte de um acordo de 2015 assinado pela Fifa com NBC, Universal da Telemundo e Fox. E a Fifa vendeu 40% dos direitos do torneio, com acordos concluídos para o Oriente Médio e a América do Sul.

Mas o que torna a meta de receita média da United Bid mais difícil de alcançar é o desafio do fuso horário. Em alguns mercados da Europa e da Ásia, muitos jogos de uma Copa na América do Norte estariam fora do horário nobre, fato que a equipe de candidatura do Marrocos destacou com frequência.

Mas o Marrocos, que fracassou em quatro esforços anteriores para sediar a Copa do Mundo, tem seus próprios desafios bilionários. A comissão técnica da Fifa na semana passada concedeu à candidatura do Marrocos 2,7 pontos em um total de 5 – nível considerado apenas “suficiente” pelo sistema de classificação da organização – e considerou o seu plano de “alto” risco, em relação a estádios, hospedagem e transporte. Qualquer coisa menor do que 2 teria eliminado o Marrocos da disputa. A United Bid recebeu uma classificação de 4 de 5, e uma avaliação brilhante em grande parte do relatório da Fifa.

As estimativas financeiras de Marrocos também foram cuidadosamente avaliadas. O país precisa construir nove estádios e renovar outros cinco, trabalho que pode ser realizado por US$ 3 bilhões (R$ 11,3 bilhões). O país africano também teria de comprometer bilhões de dólares adicionais para construir uma série de instalações de transporte e hotéis. Seu livro de ofertas admitiu US$ 15,8 bilhões (R$ 59,8 bilhões) em despesas. E promete um superávit de US$ 7,2 bilhões (R$ 27,2 bilhões) para a Fifa.

“Acreditamos que os números que fornecemos são precisos e possíveis de serem alcançados”, disse o executivo-chefe do Marrocos, Hicham el Amrani. Ele insiste que os membros da Fifa se concentrariam em mais do que apenas cifrões e considerariam a importância de devolver o torneio para a África, palco da Copa de 2010.

Caso a United Bid ganhe, os norte-americanos certamente irão apresentar um torneio recorde. Os Estados Unidos ainda detêm o recorde do número de ingressos vendidos na Copa do Mundo, estabelecido em 1994. Para 2026, a United Bid está prevendo até US$ 2,5 bilhões (R$ 9,4 bilhões) em vendas de ingressos, mais US$ 1,5 bilhão (R$ 5,6 bilhões) em receita no setor de hospitalidade – dez vezes a quantia que a Fifa calculou para o valor desses pacotes de hospitalidade.

Somam-se à fartura, de acordo com as estimativas da oferta, US$ 3,6 bilhões (R$ 13,6 bilhões) em vendas de cotas de patrocínio e US$ 1,4 bilhão (R$ 5,3 bilhões) de outras atividades. Funcionários da oferta dizem que se refere a eventos não especificados em torno do torneio fora dos jogos.

“Isso me surpreende porque eles não precisam exagerar”, disse Patrick Nally, que supervisionou o primeiro programa de vendas comerciais da Fifa no final dos anos 1970. Nally disse que, com base nos mercados restantes, uma Copa do Mundo no Marrocos provavelmente levaria a melhores ofertas de empresas de televisão por causa da chance de transmitir mais jogos em horário nobre na Europa.

Mas a perspectiva de receitas inflacionadas e, portanto, de pagamentos maiores para os membros da Fifa, não é novidade. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, usou um projeto semelhante focado muito em dinheiro para ganhar a eleição em 2016, quando os eleitores estavam influenciados, em parte, pela sua oferta de quadruplicar a quantidade de dinheiro que os 211 países membros da Fifa receberiam. Em uma entrevista na segunda-feira, Infantino esclareceu o que chamou de números “otimistas” projetados por ambas as ofertas.

“Tenho certeza de que podemos ter um aumento significativo, porque primeiro, em 2026 serão 48 equipes e muito mais países no mundo”, disse ele. “Isso também gera um impulso do mundo do comércio”.

Autoridades marroquinas e outros dirigentes africanos do futebol, ironicamente, disseram que Infantino em privado manifestou-se a favor da proposta americana, o que Infantino negou, mas na segunda-feira deu outra indicação de quais podem ser suas preferências.

Em uma reunião de uma hora com um pequeno grupo de repórteres na sede da Fifa, reiterou repetidamente o que eles deveriam ler no relatório técnico. “O que estou dizendo a todos”, disse ele, “é olhem para o relatório, vejam o que é bom para o futebol, para o desenvolvimento do futebol em todo o mundo. Então tomem suas decisões sobre suas convicções”. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

 

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