Charles Platiau/Reuters
Charles Platiau/Reuters

Europa se isola do futebol mundial ao criar sua Liga das Nações

Torneio de seleções que inicia nesta quinta-feira dura um ano e usa datas de amistosos da Fifa

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 05h00

Enterrando uma era de amistosos polêmicos e acusados de caça-níqueis, começa nesta quinta-feira um novo torneio na Europa: a Liga das Nações da Uefa. Sua criação, porém, é vista por dirigentes de fora do continente como um início de modificação profunda na estrutura do esporte e uma ameaça de isolar, cada vez mais, a periferia do futebol, inclusive a América do Sul, com seus nove títulos mundiais – cinco do Brasil, dois da Argentina e mais dois do Uruguai. A nova competição é de seleções.

Quando Alemanha e França entrarem em campo, os europeus estarão dando uma mensagem clara ao restante do planeta: a Europa irá ditar o calendário internacional do futebol e quem quiser se juntar a ela terá de ceder a seus interesses. Brasil, demais países da Conmebol e diversas outras federações pelo mundo resistiram ao formato da disputa. A CBF, por exemplo, já deixou claro, perante a própria Fifa, sua insatisfação. 

Havia dois temores oficiais. O primeiro era de que, com o novo torneio de um ano de duração jogado nas datas Fifa para amistosos, os europeus, assim, impediriam que seleções como a do Brasil, por exemplo, enfrentassem rivais como Espanha, Itália, França ou Alemanha. 

Na prática, a seleção brasileira apenas testaria suas forças contra os europeus numa Copa do Mundo, evento que há quatro edições é dominado pela Europa – Itália, em 2006; Espanha, em 2010; Alemanha, 2014; Franca, em 2018. O risco, portanto, é de um distanciamento cada vez maior entre a qualidade do futebol europeu e do restante. 

A segunda ameaça é, segundo a CBF, financeira. Fonte de dinheiro para a entidade brasileira, os amistosos agora apenas poderiam ocorrer contra rivais da América do Sul, América do Norte, árabes, asiáticos ou africanos. “Vamos jogar 300 vezes contra a Argentina”, ironizou um cartola brasileiro ao Estado

Pressionada, a Fifa saiu em busca de respostas. Mas a proposta que está sobre a mesa não passa de repetição do formato europeu, numa espécie de Liga Mundial. Dia 24, em Londres, o assunto será discutido. 

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, vive uma saia-justa. Se hoje ele precisa dar uma resposta aos demais países, não pode dizer que é contra a Liga das Nações dos europeus. Afinal, foi ele que, como secretário-geral da Uefa, criou a competição. 

A formatação de um torneio mundial, porém, enfrenta dificuldades. Pelo projeto exposto, cada região do planeta teria sua liga continental e só uma final promoveria um quadrangular com os melhores de cada região. Para a Conmebol, a proposta não é suficiente.

Além disso, a Fifa quer vender a organização da disputa para um fundo. Em troca, receberia bilhões de dólares em renda. 

DISPUTA

A história do novo campeonato europeu se confunde com a disputa pelo poder e pela fatia de contratos bilionários no futebol internacional. 

Sua elaboração teve início há cerca de dez anos. Naquele momento, dirigentes da Uefa se reuniram para fazer uma constatação: o poder dos clubes era cada vez maior e, se o futebol de seleções se limitasse à Copa do Mundo e Eurocopa, existiria risco real de o epicentro do esporte mudar definitivamente para os superclubes europeus. Então, Michel Platini, hoje afastado por corrupção, e Infantino pensaram na Liga das Nações.

FORMATO

No torneio que começa nesta quinta, as 55 seleções são divididas em quatro ligas, espécies de divisões. Os vencedores de cada uma delas se encontram para semifinais e final em junho de 2019 num só país, ainda não definido. Os quatro últimos colocados de cada liga cairão para divisão inferior, em 2020. O torneio também vale quatro vagas para a Eurocopa de 2020, além de determinar o ranking geral da Uefa para os sorteios das Eliminatórias.

 

 

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