Wilton Junior/Estadão
Evaristo de Macedo em seu apartamento em Ipanema, na zona sul do Rio Wilton Junior/Estadão

Evaristo, rei em Barcelona e em Madri

Aos 83 anos, um dos principais nomes do futebol do País conta como conquistou o respeito de dois grandes rivais

Almir Leite, enviado especial ao Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2017 | 06h00

Porta-retratos, fotos, recortes de jornais, alguns troféus e a réplica de uma bola que guarda com carinho especial. A enorme estante da espaçosa sala do apartamento com vista para o mar de Ipanema conta uma pequena, mas importante, parte da longa e vitoriosa trajetória de um dos principais nomes da história do futebol brasileiro. E também espanhol. É Evaristo de Macedo, aquele que conseguiu a proeza de ser idolatrado pelas torcidas do Barcelona e Real Madrid.

Hoje com 83 anos, aposentado há dez, Evaristo leva vida tranquila. Dedica-se a caminhadas pelo bairro, encontros com amigos nos quiosques do calçadão da praia e à administração do patrimônio, basicamente imóveis, construído durante a carreira. “Se fosse viver somente da aposentadoria, estaria roubado’’, diz, olhar irônico.

Como jogador, e como técnico, Evaristo foi sujeito bem-humorado, protagonista de passagens engraçadas. Algumas delas, diverte-se ao recordar. Mas também relembra fatos que tiveram impacto em sua carreira, principalmente nos tempos de Barcelona, onde viveu grandes momentos – lá jogou de 1957 a 1962 – e ainda é tratado pela torcida como um dos ícones da história do clube.

Uma admiração que não muda nem pelo fato de ele ter trocado o time pelo rival. Passou quase três anos no Real Madrid e também se tornou ídolo por lá. Evaristo tem uma explicação. “Isso aconteceu porque saí numa boa. O Barcelona queria que eu me naturalizasse espanhol, mas não aceitei. O Real ficou sabendo e me convidou. Meu contrato acabou e eu fui.’’

Ainda assim, Evaristo não esconde sua preferência por, e pelo, Barcelona. Tanto que diz sentir-se mais à vontade quando visita a Catalunha e comparece às homenagens feitas pelo clube. Mas não tem atendido aos convites do Real. Ele explica: “O Barcelona faz as festas no verão, o Real faz no inverno. Aí eu não vou. Não vou para a Europa no inverno. Acho horrível’’.

No entanto, por causa do Barça ele deixou de ir à Copa de 1958, após brilhar pela seleção em 1957, ano em que fez cinco gols numa vitória por 9 a 0 sobre a Colômbia. Mas não culpa o clube. “Eles até me liberavam, mas só depois do fim do Campeonato Espanhol. Aí, a seleção já estava na Europa e não dava mais para mim.’’

Assim, Evaristo de Macedo perdeu a chance de fazer dupla com Pelé. Só isso. “Quando foi a Barcelona tentar minha liberação, o Carlos Nascimento (supervisor da antiga CBD) disse que eu ia fazer uma dupla infernal com um ‘escurinho’ que estava surgindo e era maravilhoso. Não foi possível.’’

Nos últimos tempos, quando mira o Barça, tem prestado bastante atenção em alguém que pode superá-lo. Prestes a fazer seu centésimo gol pelo clube e com anos de carreira pela frente, Neymar tem tudo para bater os 178 gols do ex-atacante e se tornar o brasileiro que mais marcou gols pelo time catalão.

“Não lamento. Gosto muito dele, acho o Neymar um grande jogador. Vai continuar fazendo os golzinhos dele, vai alcançar uma meta superior e eu vou ficar em segundo. ‘Tá’ bom’’, diz. Mas pondera: “Hoje eles jogam muito mais. Por exemplo, se eu fiz 100 jogos, ele vai fazer 300.’’

VOLTA AO BRASIL

Evaristo ficou cerca de nove anos no futebol espanhol, antes de voltar para o Rio e o Flamengo, onde encerraria a carreira em 1967. Formou-se em Educação Física e em 1970 se tornou treinador. Foram 37 anos, dezenas de clubes e algumas seleções, como a brasileira, cuja passagem em 1985 terminou após 14 partidas por vontade própria. Ele não aceitou a imposição para convocar um craque que estava fora de forma. Tratava-se de Sócrates. 

Nessas quase quatro décadas, colecionou histórias e títulos. E admite ter saudades. “A grande tristeza na vida da gente é quando chega ao fim da linha. Porque no dia seguinte, ao deixar o futebol, você já começa a sentir saudade. Aí pega.’’

Mas ele se apega à família. Outro motivo de alegria para Evaristo é o Yorkshire Sushi, de cerca de nove anos. “Esse é o meu negão, meu amigão’’, diz, enquanto beija o cão e é lambido antes de gargalhar pela única vez durante toda a entrevista.

Evaristo conversou com o Estado horas antes de Brasil 3 x 0 Paraguai. Vê a seleção em bom caminho com Tite, mas entende que Dunga também poderia ter dado certo se tivesse sido bem assessorado no cargo. 

O futebol brasileiro dentro de campo não o preocupa. O que o chateia é o lado de fora. E a violência entre as torcidas. “Eu jogava no Maracanã para 120 mil pessoas entrelaçadas. Havia rivalidade, mas não agressividade’’, recorda, enquanto fotografa com sua bola especial. É uma réplica da que chutou e cabeceou em 24 de setembro de 1957, na inauguração do Camp Nou.

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As histórias de Evaristo

Ex-jogador de Barcelona, Real Madrid relembra histórias como treinador

O Estado de S. Paulo

02 de abril de 2017 | 06h00

OS FUJÕES  ENCRENCADOS

Eu treinava o Grêmio, em 1997. Em um jogo, quis fazer experiências e dispensei os titulares. Na época, a gente se concentrava no (estádio) Olímpico. Uma noite, um porteiro me chamou dizendo que as mulheres de dois jogadores estavam procurando por eles. Queriam que fossem liberados, pois os filhos estavam doentes. Mas os caras não estavam lá. Fui até elas e disse que não poderia liberá-los, pois para isso teria de pedir a autorização de um diretor e, como era tarde da noite, seria impossível.

Elas insistiram, teve discussão, até que eu perdi a paciência e disse: eles não estão concentrados. Tratem de procurar por aí. Dias depois, os jogadores se apresentaram com cara de quem teve problema em casa.

ESSE PLACAR EU NÃO SEGURO

No Bahia era tranquilo. Nós ganhamos diversos campeonatos estaduais, o Campeonato Brasileiro (1988)... Numa de minhas passagens pelo clube (foram oito), tivemos um jogo muito difícil. No intervalo, a gente estava ganhando por 1 a 0, eu ia descer para o vestiário quando fui abordado na entrada por um repórter. Era um jovenzinho, um repórter novo, que nem me conhecia direito.

Ele chegou e disse: “Técnico, por favor, deixa eu lhe fazer uma pergunta’’. “Faça, meu filho’’, consenti. “O senhor vai segurar o placar?’’ “Não meu filho, não vou. Porque ele está muito alto e além de tudo é muito pesado’’, respondi. Isso virou uma piada por muito tempo na Bahia.

TORCEDOR DEU ÚLTIMA PALAVRA

A gente estava no Parque São Jorge fazendo um jogo-treino (Evaristo treinou o Corinthians em 1999) e o centroavante era Mirandinha, um jogador rápido, mas que às vezes ficava meio afobado. Tinha um torcedor no alambrado que começou a reclamar dele. Incomodava, né? Num jogo a gente fecha o ouvido, mas num treino, dentro de casa... Aí, eu me virei para ele e pedi: “Escuta, amigo, fica calmo’’. Mas ele continuou.  Então, virei para trás (estava no banco) e disse: “Você não está satisfeito com ele, né? Eu também não estou. Mas só para te sacanear ele vai ficar jogando até o final’’. Só que o cara devolveu: “Mas eu não vou assistir’’. Virou as costas e foi embora. E eu tive de continuar o treino.

PARTICIPEI DE UMA COPA!

Eu não fui à Copa do Mundo de 1986 como treinador por uma razão muito simples: um ano antes o Sócrates estava voltando ao Brasil (não se adaptou à Fiorentina e viria para o Flamengo) e havia uma pressão muito forte para que eu o convocasse. Eu não queria naquele momento, porque ele não estava jogando, não estava em forma. Como insistiram, eu saí. Mas há coisas que acontecem na vida da gente que são inesperadas. Não fiquei na seleção brasileira, mas o Iraque se classificou para a Copa e me chamou para dirigir. E eu participei da Copa do Mundo! É claro que o Iraque não teria a chance de um Brasil, mas fizemos campanha razoável (a equipe perdeu os três jogos por um gol de diferença).

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