Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Evitando Del Nero, Fifa fiscalizará uso de US$ 100 milhões no Brasil

Exigindo mecanismos de controle e transparência, Fifa também aceitou falar na liberação de outros recursos e prêmios atrasados para a CBF

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2017 | 15h50

A Fifa e a CBF chegam a um pré-acordo para criar uma estrutura separada para receber os recursos prometidos da Copa de 2014, no valor de US$ 100 milhões (cerca de R$ 313 milhões). Com a criação da nova estrutura, as entidades saem de um impasse de três anos e, ao mesmo tempo, evitam que o dinheiro seja transferido para o controle de Marco Polo Del Nero, presidente da CBF e indiciado nos EUA por corrupção.

Para chegar a esse entendimento inicial, a Fifa exigiu novos controles sobre o destino dos recursos, fiscalização e um programa de compliance por parte da entidade brasileira. A entidade em Zurique, no fundo, ficará em grande parte com o controle do destino dos recursos para a CBF.

Prometido em 2014, os US$ 100 milhões faziam parte de um fundo para o legado da Copa e seria investido nos estados que não receberam jogos da Copa. Mas, com o indiciamento de Del Nero em 2015, toda a transferência foi suspensa.

Nos últimos meses, a entidade brasileira fez lobby para que o dinheiro fosse liberado, alegando que não poderia esperar de forma indefinida e nem uma solução para a questão de Del Nero, também investigado pelo Comitê de Etica da Fifa. Para os advogados em Zurique, transferir dinheiro para a CBF sob o comando de alguém investigado poderia minar sua defesa nas cortes de Nova Iorque.

Nas últimas semanas, a secretária-geral da Fifa, Fatma Samoura, enviou uma proposta de contrato para a CBF. Mas o texto foi rejeitado. Gianni Infantino, presidente da Fifa, admitiu que não poderia dizer por quanto tempo a indefinição sobre Del Nero perduraria.

Nesta quinta-feira, num encontro que contou com uma ampla delegação brasileira de advogados e diretores de compliance, foi acordado que uma “nova estrutura” será criada até o final do ano. Nela, Fifa e CBF seriam sócias na gestão dos recursos a ser aplicado no Brasil. A chave do cofre, porém, não poderá ser usado sem o aval dos controles da Fifa.

Nos próximos três meses, advogados de ambos os lados vão se reunir para montar a nova estrutura. Uma vez estabelecida, os recursos poderiam começar a ser liberados aos poucos, a partir de 2018.

Assim, a Fifa ao mesmo tempo atende a CBF e ganha tempo para avaliar qual será o impacto do processo nos EUA contra o ex-presidente da entidade brasileira, José Maria Marin.

“Nos últimos meses, as administrações da FIFA e da CBF estabeleceram uma discussão colaborativa sobre a implementação do Programa de Legado da Copa do Mundo da FIFA 2014 da maneira mais eficaz e de acordo com as políticas, processos e regulamentos estabelecidos pela área de desenvolvimento da FIFA”, disse a Fifa, por meio de um porta-voz.

"Após uma reunião realizada nesta quinta-feira em Zurique, a FIFA aceitou as garantias de conformidade apresentadas pela CBF para a implementação do Programa de Legado”, explicou. “Ambas as entidades agora trabalharão em uma nova estrutura para a efetiva entrega do projeto, previsto para ser retomado antes do fim deste ano”, garantiu.

A entidade deixa claro que vai fiscalizar. “Com os mecanismos de coordenação e monitoramento necessários, a FIFA e a CBF estão confiantes de que o Programa de Legado da Copa do Mundo de 2014 terá um impacto significativo no futebol brasileiro, com foco em infraestrutura, futebol feminino, desenvolvimento das categorias de base e programas médicos em comunidades carentes, conforme acordado em 2014”, disse.

Segundo a CBF, “as entidades concordaram em estabelecer um novo marco de trabalho dedicado a coordenar de forma eficiente a execução deste Programa de Desenvolvimento”.

CONTROLES

Durante a reunião desta quinta-feira, a Fifa também aceitou criar mecanismos extras de controle para começar a liberar o dinheiro que a CBF tem direito a receber como membro da entidade máxima do futebol.

Esses recursos e até prêmios estavam congelados. Em 2016, a CBF deveria ter recebido US$ 1,25 milhão, mesmo valor de 2017. Mas isso não foi pago, exatamente por conta da situação de Del Nero. Nem mesmo o prêmio pelo Mundial de Futebol de Praia havia sido liberado, de cerca de US$ 60 mil.

Fontes em Zurique revelaram ao Estado que, a partir de acordo, o setor de compliance de ambos os lados criarão mecanismos de controle para permitir que os recursos sejam transferidos ao Brasil.

De acordo com a nota da CBF, esses assuntos tiveram “encaminhamentos positivos, incluindo a resolução dos demais temas financeiros que estavam pendentes”.

"O encontro foi muito positivo e realizado num ambiente de cooperação mútua”, garantiu a CBF.  “A FIFA reconhece o excelente trabalho que a CBF vem realizando na área de Governança e Conformidade”, comemorou a entidade.

Para 2017, a CBF projeta uma receita recorde que poderá variar entre R$ 850 milhões e R$ 1 bilhão. Em 2016, o valor foi de R$ 647 milhões.

Os números da CBF se contrastam com a realidade dos clubes brasileiros. Doze dos 20 clubes da Primeira Divisão somam dívidas de mais de R$ 300 milhões, segundo dados do consultor Amir Somoggi. 

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