Cesar Greco/Ag. Palmeiras
Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Ex-dono de academia e garoto propaganda: a história de Alexandre Mattos até chegar ao Palmeiras

Diretor de futebol do clube enfrenta pressão após maus resultados do time e demissão de Felipão

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

04 de setembro de 2019 | 12h54

A crise vivida pelo Palmeiras nos últimos dias tirou o emprego do último treinador campeão brasileiro, Luiz Felipe Scolari, e agora coloca pressão em outra figura renomada do futebol nacional. O diretor de futebol Alexandre Mattos é quem convive agora com a insatisfação no clube. A situação chega ao cartola anos depois de ele ter sido apelidado como "Mittos", num trocadilho ao seu sobrenome, por parte da torcida e até estrelado uma ação publicitária para promover o programa de sócio-torcedor. Mattos é responsável por montar o elenco do Palmeiras desde 2015.

Nos últimos dias, o dirigente teve sua demissão pedida pela principal organizada do Palmeiras, a Mancha Alviverde, autora de um manifesto com acusações de desvio de dinheiro. Ainda houve a crítica promovida pelo presidente do Conselho Deliberativo, Seraphim Del Grande, autor de um áudio em que aponta Mattos como o grande problema do clube. No entanto, o diretor de futebol continua com prestígio no cargo, principalmente com o presidente do Palmeiras, Mauricio Galiotte, e com a patrocinadora Leila Pereira, dona da Crefisa. Teoricamente, Mattos responde apenas ao presidente. Mineiro, ele tem fala mansa, é do tipo de colocar panos quentes em tudo e trabalha muito nos bastidores.

A divergência na cúpula palmeirense sobre os méritos do seu trabalho contrasta com a imagem que ele tinha anos atrás, quando começou a primeira reformulação no elenco com dinheiro gordo da Crefisa. Ao chegar ao Palmeiras em 2015, Mattos contratou 25 jogadores e ganhou o apelido de "Mittos". Na época, o clube o colocou para estrelar uma ação publicitária em que convocava a torcida para aderir ao programa de sócio-torcedor Avanti.

Se dentro do Palmeiras Mattos atualmente divide opiniões, no passado ele era quase uma unanimidade, principalmente na diretoria. Trazido pelo ex-presidente Paulo Nobre e mantido por Mauricio Galiotte, o diretor de futebol teve o contrato renovado com o Palmeiras por duas vezes. A última delas foi em novembro do ano passado, pouco depois do título do Campeonato Brasileiro.

"Nosso objetivo é ser protagonista sempre. Só um consegue ser campeão. Conseguimos dois Brasileiros e um vice. O segredo para ganhar é jogar a Libertadores e ir crescendo. Quando não ganha é porque falta alguma coisa. Temos de aprender e melhorar para, no ano seguinte, ser protagonista e, quem sabe, campeão", explicou Mattos na última semana, após a eliminaçao do Palmeiras na Libertadores diante do Grêmio. O dirigente participou das conquistas da Copa do Brasil em 2015 e do Campeonato Brasileiro em 2016 e 2018.

INÍCIO

Estar no comando do futebol do Palmeiras parecia impensável há cerca de 20 anos, quando Alexandre Mattos via o futebol apenas como um sonho. Mineiro de Belo Horizonte, ele é formado em educação física e administração de empresas. Trabalhou como vendedor de shopping, foi sócio de uma academia de ginástica em Minas e teve a primeira experiência em um clube em 2005, no América-MG.

O então presidente do América-MG, Antônio Baltazar convidou Mattos para trabalhar como assessor não remunerado de 2005 a 2008. No ano seguinte, ele virou diretor de futebol e ficou no cargo até 2011. Nesse período, a equipe saiu da Segunda Divisão mineira e da Série C do Brasileiro rumo à elite nas duas competições. Mattos apareceu. O trabalho de planejamento de elenco e a habilidade de contratar jogadores impulsionaram o dirigente na função e o levaram ao Cruzeiro.

Fã do diretor de futebol Eduardo Maluf, nome histórico tanto para Cruzeiro quando para América-MG, Alexandre Mattos teve passagem vitoriosa pelo time celeste. O dirigente montou os elencos campeão brasileiro em 2013 e 2014 e passou a chamar a atenção de outros clubes do Brasil. O Flamengo tentou primeiro, mas foi o projeto do Palmeiras que lhe conquistou.

Desde então, o dirigente é quem atua no planejamento do grupo e nas negociações alviverdes. Mattos conversa com os treinadores sobre possíveis nomes de jogadores e tenta buscá-los no mercado. Entre sua chegada no Palmeiras até hoje, ele contratou cerca de 70 reforços, número alvo de críticas nos bastidores por ser considerado alto demais. Atuou também em vendas importantes, como nos casos de Keno, Gabriel Jesus e Mina. Nos últimos anos, as saídas de jogadores renderam cerca de R$ 500 milhões ao clube.

Nos bastidores, Alexandre Mattos é conhecido pela personalidade forte e pelo perfil determinado quando se trata de resolver contratações e problemas. O dirigente procura resolver as conversas rapidamente e chega a ligar para empresários, jogadores e treinadores em plena madrugada. Um hábito que não consegue se livrar. De boa conversa, gosta de apresentar aos interlocutores um plano de como eles serão valorizados no Palmeiras. Mattos e seus pares no futebol também desenvolveram uma cartilha com os mandos e obrigações do departamento. Isso envolve também o comportamento dos jogadores, como ter de vestir uniformes iguais nas viagens, por exemplo. 

A intensa participação em negócios levou Mattos a ser uma personalidade influente no meio esportivo. No ano passado, por exemplo, ele realizou sua festa de casamento em Trancoso, no litoral baiano, com a presença de vários empresários de jogadores importantes. Boa parte do elenco do Palmeiras também marcou presença na cerimônia, assim como Felipão e Leila Pereira, da Crefisa. Ele tem um ar de "poderoso chefão" mesmo sem ser o presidente do clube.

No Palmeiras, por enquanto, a decisão do presidente é de mantê-lo no cargo, apesar da grande pressão nos bastidores pela saída dele. Seraphim del Grande é um deles, conforme informou o Estado nesta terça. Mattos, no entanto, já tem na cabeça algumas ideias para promover mudanças no elenco para a próxima temporada. As sugestões serão discutidas com o novo treinador, Mano Menezes, para, quem sabe, resgatarem juntos um pouco da imagem de "Mittos" que Mattos já teve.

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