Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Ex-ministro da Saúde, Mandetta acha que é cedo para volta do futebol no Brasil

Na opinião do médico e político, situação do País não pode ser equiparada com a da Alemanha e da Itália

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2020 | 12h57

Com autoridade para falar sobre saúde, Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde do governo do presidente Jair Bolsonaro até o mês passado, acredita que ainda é cedo para a retomada das competições de futebol no Brasil, paralisadas desde o início de março. Para ele, o momento é de crescimento da curva de contágio da covid-19 no País e cita diferenças entre Alemanha e Itália neste quesito.

"Quando você quer acelerar a volta, um debate que tive com vários empresários, você corre o risco de acelerar, em nome da atividade econômica ou do esporte... Esses argumentos são muito fortes, aí a pessoa cai na tentação de acelerar. Essa aceleração pode levar a um quadro de transmissão desordenada, que leva a cidade ao que chamam de 'lockdown'. Não gosto de palavras inglesas, eu chamo de quarentena", disse Mandetta em entrevista à ESPN Brasil.

"Muita gente está achando que quarentena é aquilo que nós experimentamos nos meses passados. Não! Nós só fizemos a recomendação (do distanciamento social) pelo bom senso, orientação. Mas não paramos ninguém. Quando você determina quarentena ou 'lockdown', aí é uma coisa muito mais dura. É ficar em casa, sair no máximo para 50 metros da sua casa sob pena de multa ou prisão", explicou o ex-ministro.

Mandetta chegou a comparar a situação do futebol brasileiro com a da Alemanha, que terá o retorno do campeonato no próximo dia 16. Para ele, porém, o Brasil ainda está muito longe de chegar ao mesmo patamar do país europeu. "Tenho acompanhado a discussão na Alemanha sobre a volta da Bundesliga (Campeonato Alemão). Eles vão fazer um protocolo muito rígido, tenho pedido qual é o protocolo que vão adotar. A Alemanha é um dos poucos países que tinham capacidade instalada porque trabalha nos hospitais com redundância: tudo o que tem ativo também tem no depósito do hospital em dobro. Quando teve necessidade, expandiu a rede muito rapidamente e tem profissionais bem formados", disse.

"O Brasil tem problemas de equipamentos de proteção individual (EPI), respiradores e profissionais de saúde. O que seria razoável seria administrar duas variáveis: velocidade de transmissão e vulnerabilidade. Melhorando a performance do sistema e controlando ao máximo a transmissibilidade, a gente passaria por esse estresse de maneira um pouco mais lenta. Em dois ou três meses, passaríamos, mas com muito menos perdas", comentou o ex-ministro.

Sobre a situação na Itália, Mandetta lembrou que a região da Lombardia, a mais afetada do país pela covid-19, tem discutido nos últimos meses qual seria a parcela de culpa do futebol sobre o crescimento da epidemia. "A região da Lombardia colocou na conta dele os jogos de futebol como um dos prováveis vilões da proliferação", afirmou. Um duelo da Liga dos Campeões entre Atalanta e Valencia, no início de fevereiro, com mais de 40 mil pessoas no estádio San Siro, em Milão, seria uma dessas partidas.

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