Ex-presidente do Benfica é preso

A Justiça de Portugal resolveu jogar pesado com o Benfica e seus dirigentes. O clube acumula pelo menos US$ 9 milhões de impostos atrasados ao Fisco, além de ter vários bens penhorados como garantia de empréstimos e de débitos com credores. A primeira consequência da crise foi a detenção, hoje à tarde, de João Vale e Azevedo. O ex-presidente do clube, responsável pela maioria das irregularidades no período de 98-2000, foi ouvido em juízo e foi indiciado em processo que apura corrupção econômica e financeira. As investigações policiais podem envolver também outros diretores.Há algum tempo, a situação de Vale e Azevedo não é confortável, pelo menos entre seus antigos aliados e conselheiros do Benfica. Os indícios de malversação de verbas e a prestação inexata de contas foram motivos de reuniões extraordinárias do braço administrativo do clube ? a Sociedade Anônima Desportiva ? e também provocaram para hoje Assembléia Geral de sócios e acionistas. O ex-dirigente andou rebatendo a acusações com o argumento de que se tratava de um jogo "sujo e covarde" da atual diretoria, encabeçada pelo presidente Manuel VilarinhoMas a discussão saiu do âmbito esportivo para virar assunto de polícia. Na quinta-feira, o ministro das Finanças, Joaquim Pina Moura, deu 30 dias de prazo para o Benfica pagar suas dívidas com o Imposto de Renda e ameaçou com sanções, caso a situação não fosse regularizada. O clube deveria pagar nesse período os US$ 9 milhões em taxas não recolhidas.Logo em seguida, Pina Moura decidiu tomar atitudes mais drásticas, quando soube que, na contabilidade do clube, não há registros de entrada do dinheiro apurado com a venda do passe do goleiro Ovchinnikov. O jogador russo foi contratado em 98, no ano seguinte foi emprestado ao Alverca e na sequência repassado ao Porto, que declarou ter pago o equivalente a US$ 1,8 milhão. A transação não aparece no balanço do Benfica apresentado a seus sócios. O ministro conseguiu mandado judicial de busca e apreensão de documentos no escritório de advocacia de Vale e Azevedo, na avenida da Liberdade, em Lisboa. Além disso, obteve autorização para que agentes da Polícia Judiciária detivessem o ex-presidente. Vale e Azevedo foi encontrado no começo da tarde, à saída de um restaurante, e levado à presença da juíza Margarida Gaspar, do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa. Ele depôs por mais de uma hora e em seguida teve transferência decretada para a sede da PJ. Até o final da noite, aguardava nova ordem da juíza, para saber se continuava detido ou se seria liberado.O depoimento foi mais um ato da devastadora passagem de Vale e Azevedo pelo Benfica. O conselho constatou, nos últimos balancetes, que o clube praticamente não possui imóveis liberados: ou estão penhorados ou foram vendidos para pagar dívidas. Ao mesmo tempo, há duplicidade de contratos de prestação de serviços, com valores divergentes entre um e outro. Também algumas transferências se transformaram em mistério. Não há, por exemplo, registro de venda dos passes do volante brasileiro Amaral à Fiorentina nem do inglês Gary Charles ao West Ham. Vale e Azevedo havia dito que não iria comparecer à Assembléia Geral de hoje, "para não tumultuar", embora se definisse como "bode expiatório" de uma trama suja. Pelo jeito, não poderá romper a promessa, mesmo que quisesse fazê-lo. Agora, seu futuro depende da Polícia.

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