Gilvan de Souza/Flamengo
Gilvan de Souza/Flamengo

Ex-presidente do Flamengo relembra 'corte na carne' para equilibrar finanças

Ao 'Estado', Eduardo Bandeira de Mello recorda sacrifícios financeiros, vibra com boa fase do clube e evita comentar sobre tragédia do Ninho do Urubu, que matou dez garotos

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2019 | 11h00

Campeão da Copa Libertadores da América e do Campeonato Brasileiro, o Flamengo amargou recentemente um período de jejum de grandes conquistas. Eua ironizado pelos rivais. Quando assumiu a presidência do clube em 2013, o principal foco de Eduardo Bandeira de Mello era reequilibrar as finanças. Como ele mesmo diz, teve "de cortar da própria carne". Foram diversos ajustes financeiros: renegociação e pagamento de dívidas, cortes de gastos principalmente no departamento de futebol e investimento maior na infraestrutura do clube.  

Um caso logo no primeiro mês da gestão Bandeira de Mello exemplifica o planejamento daquela diretoria. O Flamengo abriu mão do atacante Vagner Love, que retornou ao CSKA, da Rússia. O clube não tinha como segurar o jogador, embora precisasse dele em campo.

Em entrevista ao Estado dias depois de o Flamengo ganhar a América, Bandeira de Mello recordou os sacrifícios que teve de fazer e mostrou-se orgulhoso por hoje o clube poder gastar quase R$ 200 milhões em contratações. No fim do ano passado, ele não conseguiu eleger o candidato de sua chapa, Ricardo Lomba, e atualmente é rompido com a atual diretoria encabeçada por Rodolfo Landim.

"Pegamos um clube desacreditado e sem credibilidade. Entendemos que o caminho para a recuperação era equilibrar o clube financeiramente. Foi o que fizemos. No meu discurto de posse, disse que precisávamos equacionar os passivos financeiro, ético e moral. Claro que teve gente impaciente, até mesmo na imprensa, que criticava bastante e falava que tinha de ganhar título imediatamente, mas a maioria da torcida compreendeu e estamos colhendo frutos agora", afirmou Bandeira de Mello, que comandou o clube da Gávea do início de 2013 até o fim de 2018.

Ao Estado, ele conta parte de sua administração e das decisões muitas vezes difíceis de tomar no futebol. "Tivemos de cortar da própria carne. Com duas semanas de gestão, mandamos o Love embora. Trabalhamos com um time modesto no início, algo que era necessário. Mas fomos melhorando ao longo dos anos e o time passou a ter mais resultado em campo, ir para a Libertadores. Passamos a investir mais, como nos casos de Guerrero, Diego, Everton Ribeiro e Vitinho. No fim do ano passado, o clube já estava com uma situação financeira confortável para fazer os investimentos desta temporada", acrescentou.

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Todo mundo erra, como aconteceu comigo algumas vezes, de trocar de técnico ou não, por exemplo. Mas, de maneira geral, tenho muito orgulho da minha gestão
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Eduardo Bandeira de Mello, ex-presidente do Flamengo

Com Bandeira de Mello no comando, o Flamengo conseguiu o título da Copa do Brasil de 2013 e três Campeonatos Cariocas. Ele admitiu que cometeu erros durante a gestão, mas acredita que tomou mais atitudes positivas para o clube. "Todo mundo erra, como aconteceu comigo algumas vezes, de trocar de técnico ou não, por exemplo. Mas, de maneira geral, tenho muito orgulho da minha gestão. Fizemos uma revolução financeira e estrutural no clube. Houve muita disposição para fazer sacrifícios, sem pensar em questões políticas", atestou.

Ovacionado pela torcida e sem relação com a atual diretoria

Como torcedor, Bandeira de Mello viajou para Lima, no Peru, para assistir à final da Libertadores contra o River Plate, da Argentina. Ele foi ovacionado pelos torcedores no estádio. Com a atual diretoria, porém, a relação não é bem assim. O ex-presidente não tem contato com o atual, Rodolfo Landim. Neste ano, Bandeira de Mello foi acusado de ter interferido nas eleições do clube e poderia ter sido expulso do Flamengo, mas foi absolvido pelo Conselho de Administração.

"Foi uma experiência como torcedor, como várias outras que tive ao longo da vida. Agora, voltei para a arquibancada. A torcida é extremamento carinhosa comigo, não tenho nada a reclamar dela, só tenho a agradecer", disse. Ele explicou porque teve de pagar ingresso para a decisão da Libertadores, algo que viralizou entre torcedores nas redes sociais. "Eu não pedi para o clube. Eles tentaram me expulsar do Flamengo, como que iam me dar ingresso para um jogo?", questionou. Decidiu ir por conta própria.

Com o título da Libertadores, Bandeira de Mello agora pensa em acompanhar o time no Catar, no Mundial de Clubes da Fifa em dezembro. "Ainda não está sacramentado, mas acho que vou, sim". 

Ninho do Urubu

O Ninho do Urubu, centro de treinamentos do Flamengo, foi construído durante a gestão de Bandeira de Mello. O ex-presidente foi indiciado por dolo eventual por causa do incêncio no alojamento da base que matou dez garotos. Ele evitou entrar em detalhes sobre o processo, mas disse que confia que provará sua inocência. "Não gosto de entrar nesses detalhes em respeito à justiça, mas tenho certeza de que tudo vai se resolver, já examinamos tudo do processo. É uma situação muito triste, mas claro que não se compara à tristeza da tragédia", afirmou.

Questionado se o Flamengo deveria indenizar os familiares mais rapidamente, Bandeira de Mello fez uma cobrança pública. Até agora, das dez vítimas, só foram realizados quatro acordos. "Isso eu não estou acompanhando, mas acho que o clube tem de zelar pela sua imagem e responsabilidade", opinou.

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