Epitácio Pessoa/Estadão
Régis participa de terapia coletiva em Sorocaba para se livrar da dependência química Epitácio Pessoa/Estadão

Ex-São Paulo, Régis trava luta diária para se livrar da dependência do álcool e da cocaína

Jogador vive há 59 dias em uma casa de reabilitação e os custos são bancados pelo São Bento de Sorocaba, sua atual equipe

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2019 | 04h30

A CBF está preocupada com o aumento do número dos casos de doping por cocaína no futebol em 2019. Só até o mês de abril, foram quatro casos, o que significa o dobro do que foi registrado em 2018. A entidade realiza palestras nos clubes sobre doping como prevenção e educação. O Estado foi conferir a luta do lateral Régis, ex-jogador do São Paulo que faz tratamento para se livrar da dependência de álcool e cocaína.

Régis Ribeiro de Souza usou cocaína por três anos e consumiu álcool de maneira abusiva por oito. Ele conseguiu escapar de uma pesada punição por doping – estimulantes estão entre as substâncias proibidas – em função dos testes paralelos que o São Paulo fazia. Sim, o clube tinha conhecimento. “Eles sabiam do meu problema quando me contrataram e confiaram em mim. Alguns clubes pensam mais em usar o jogador para ter resultado, mas eles me olharam como ser humano”, elogia.

Aos 29 anos, ele acabou dispensado por faltas aos treinos e por alternar bons jogos e atuações sofríveis. Oscilava muito dentro de campo. “Saí pelo uso de bebidas e drogas. O São Paulo era meu projeto de vida e deixei a oportunidade escorrer pelas mãos. Depois disso, a minha fuga foi tentar esquecer aquela dor da forma mais rápida”, confessa. Por causa dos transtornos de comportamento causados pela dependência, ele foi preso três vezes. Seu casamento acabou.

Para evitar que sua carreira e sua vida fossem para a lata do lixo – a expressão é do próprio jogador –, ele foi morar na Casa Supera, residência localizada em Sorocaba que adota uma metodologia nova. A ideia é oferecer ambientes residenciais e permitir que os moradores continuem tocando suas vidas durante o tratamento. Não há uma internação propriamente dita. O Estado acompanhou a rotina do jogador na última segunda-feira.

Régis dorme na casa espaçosa e iluminada, almoça e janta, participa de terapias individuais e coletivas, mas pode sair para treinar. Sempre acompanhado pelo mesmo funcionário do clube, ele vai, treina e volta. A rotina é a mesma nos jogos da Série B do Campeonato Brasileiro. Ele não faz nada só. Ele divide o quarto com seis pessoas. Camas arrumadas, colchas discretas. Nas horas de leitura, “Treinando a emoção para ser feliz”, de Augusto Cury. O violão o acompanha nas músicas de louvor – ele é evangélico. A liberdade religiosa foi um fator que o levou até ali. Todos os moradores podem manter suas crenças independentemente do tratamento.

Régis come no restaurante junto com os outros moradores. São 34 ao todo. “Eu adotei essa atitude de me expor entendendo que eu posso alcançar outras vidas. Quero ser uma influência positiva”, diz o jogador diante de um prato de arroz, feijão, salada.

Na reunião das 14h, 15 dependentes se sentam em cadeiras de madeira formando um círculo. A mensagem principal é que a dependência química é uma doença, que precisa de tratamento. “Vocês não vão deixar de gostar da droga, mas essa mudança é necessária. Vocês precisam aprender a sofrer”, diz o diretor terapêutico da casa e gestor hospitalar Beto Maia. O seu próprio depoimento pessoal também faz parte da experiência como terapeuta holístico. “Hoje (segunda-feira passada), eu completo 19 anos sem usar drogas”, confessou diante dos olhos arregalados dos moradores.

O terapeuta explica que 80% das pessoas que passaram pela casa neste primeiro ano de funcionamento conseguiram se reabilitar. O tratamento segue alguns modelos que vêm dando resultado, como a terapia cognitiva comportamental e coaching, aliados à própria experiência de Maia. O período de tratamento varia entre três meses e um ano. Hoje, existe uma fila de espera para entrar na casa. “A humanização do tratamento, o vínculo criado com os moradores e a criação do tratamento adequado para cada um ajudam a explicar o bom índice de reabilitação”, avalia Maia.

Os custos da casa – cerca de R$ 2500 por mês – são bancados pelo São Bento, clube que está dando uma segunda chance ao atleta. “O Régis tem uma identidade no São Bento. Em suas passagens anteriores pelo clube, foi muito feliz, com boa atuação. Foi aqui, no ano passado, que o talento do Régis chamou a atenção de um 'grande', o São Paulo. Era o sonho dele. Ele pediu uma chance e estendemos a mão novamente”, diz o presidente Márcio Rogério Dias. “Sabemos que se trata de uma doença. Sentamos com o atleta e oferecemos várias opções de tratamento. Ele escolheu aquela que o deixava livre para continuar com o futebol”, diz o dirigente.

Régis sai do encontro para o treino do São Bento. Ali, retoma sua profissão, que não tem segredos para ele. Continua habilidoso com as duas pernas, um dos diferenciais que marcaram sua passagem pelo São Paulo. Sim, o motorista está sempre esperando. À noite, reunião no Centro de Atenção ao Dependente Químico (Cadq), que oferece palestras e acompanhamento com uma equipe multidisciplinar no centro.

Régis é reconhecido na rua e agradece o carinho, mas fica triste com os rivais que o chamam de “noia” e “cachaceiro”. “Isso ofende a pessoa, pois já passou da questão profissional”, conta o atleta que possui um vocabulário mais variado que os colegas do futebol.

No sábado, no triunfo diante do Vitória, pela Série B do Campeonato Brasileiro, depois de quatro jogos e 59 dias sem cocaína e álcool no corpo, ele voltou a fazer um gol. O terapeuta afirma que no lance do gol, Régis conseguiu colocar em prática grande parte do que vem aprendendo, como controle da situação, concentração, dedicação e foco.

 

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CBF dá palestras nos clubes para diminuir casos de doping

Profissionais do Departamento de Controle de Dopagem fizeram 109 palestras no ano passado

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2019 | 04h30

Nos últimos dez anos, o futebol brasileiro teve 151 Resultados Analíticos Adversos (RAA), os chamados casos de doping. Desse total, as substâncias mais encontradas foram diuréticos com 26 casos; estimulantes não específicos (cocaína) com 25 episódios e anabolizantes, consumidos por 23 atletas.

Fernando Solera, coordenador do Departamento de Controle de Dopagem da CBF, avalia que os números estão caindo nos últimos anos. “Anualmente, acompanho a relação total de RAA com o número de amostras coletadas e tenho percebido uma diminuição gradativa entre 2015 em 2018”, observa o especialista. “Em 2015, nós tínhamos um índice de positividade de 0,31%. Em 2018, o índice foi de 0,23%. Diante de dados matemáticos, não existem argumentos. Sem dúvida nenhuma o futebol brasileiro é um dos mais monitorados por uma Organização antidoping no mundo”, comenta Solera.  

O aumento dos casos de cocaína entre 2018 e 2019 representa uma preocupação para a CBF. Até o mês de abril já foram quatro casos, entre eles, o do atacante Gonzalo Carneiro, do São Paulo. “Comparativamente ao ano de 2018, é claro que chama a atenção esta demanda”, afirma o especialista. 

As penas são pesadas para quem é pego. No caso de substâncias não especificadas, como anabolizantes, estimulantes (cocaína, maconha), que são considerados casos graves, a punição é de quatro anos. Para substâncias especificadas, como diuréticos e corticoides, a pena é de dois anos. 

Além do monitoramento, a entidade aposta na conscientização dos atletas, especialmente os mais jovens, para buscar a redução contínua dos casos de doping. O Programa Educacional da CBF, dirigido para o futebol masculino e feminino, categorias de base e adulto, oferece palestras de 90 minutos sobre conceitos básicos relacionados ao doping e o antidoping, legislação desportiva com ênfase à dopagem e a prevenção ao doping involuntário. Os pais dos atletas também assistem às aulas.

Em 2018, foram 109 palestras em clubes, Congressos Médicos e de Direito Desportivo. Até o mês de maio, já foram cerca de 30 eventos de conscientização. Entre 2017 e 2018, Solera avalia que as aulas foram eficazes para a queda dos casos de doping com diuréticos (redução de 9 para 2) e também de corticoides (queda de 6 para 1 caso). 

ENTREVISTA

Ricardo Munir Nahas, vice-presidente da Confederação Sul-Americana de Medicina do Esporte (COSUMED), coordenador da Pós-graduação CEFIT-UNIP em Medicina do Esporte em trauma esportivo, explica os efeitos da cocaína nos atletas de alto rendimento: 

1. Quais são os efeitos da cocaína no organismo?  

Ela traz a euforia, aquela famosa “viagem” no aspecto psicológico. Ela deixa o usuário “ligadão” em uma festa, por exemplo. A droga também pode liberar por um período curto a agressividade e diminuir a sensibilidade à dor. No dia seguinte, o usuário acorda muito mal, física e psicologicamente, mas surge a dependência de doses crescentes para gerar aquela mesma euforia. Por outro lado, a cocaína aumenta a frequência cardíaca e a temperatura corporal. O usuário corre o risco de ter um enfarte. Em geral, os jogadores acabam consumindo a droga em festas e eventos sociais, e o metabólito vai aparecer no exame de urina. Ele acaba sendo punido não por um problema atlético e sim por um problema social. 

2. O fato de ficar ‘ligadão’ não é uma vantagem para o jogador?  

Não. A cocaína não traz uma vantagem competitiva. Seus efeitos são muito rápidos e não são cumulativos. Eles não têm interferência em um jogo de futebol. O atleta não vai fazer isso (usar droga) no vestiário. Quando ocorre o doping, o atleta foi pego em função do que fizeram na semana. 

3. Quais as razões do aumento dos casos de doping por cocaína?

Não é um problema só do esporte. Ele é de toda a sociedade. A principal saída é a educação. É preciso mostrar para eles que as punições são rígidas. Antigamente, era possível que as entidades até passassem a mão na cabeça do atleta. Hoje, isso não acontece. Isso prejudica muito a carreira de um atleta, que já é curta, além de deixar uma mancha em sua trajetória. 

 

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