Pablo Porciuncula/ AFP
Pablo Porciuncula/ AFP

Algoz do Brasil na Copa de 1950, Ghiggia morre no aniversário da final

Ex-jogador uruguaio tinha 88 anos e faleceu por parada cardíaca

O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2015 | 19h11

O ponto final da vida de Alcides Edgardo Ghiggia coincidiu com a data da maior glória esportiva do seu país. O Uruguai e a história das Copas perderam nesta quinta o ex-ponta-direita autor do gol do título da Copa do Mundo de 1950, quando um jogador provocou a tristeza do Brasil inteiro. Uma parada cardíaca encerrou aos 88 anos a vida do herói nacional uruguaio, que nos últimos anos levava uma rotina simples. Sem luxos, Ghiggia morava no interior do país e se sustentava como administrador de um supermercado local. “Provavelmente foi a maior façanha que poderia ter sido feita”, comentou o presidente do país, José Mujica.

O quase anonimato faz contraste com a enorme repercussão causada pelo camisa 7 na decisão da Copa do Mundo de 1950, há 65 anos. Um chute cruzado, de perna direita, alterou a história, as cores e todo o sentimento do futebol brasileiro. A vitória por 2 a 1 deu ao Uruguai o segundo título da Copa do Mundo e derrubou o moral do Brasil. O lotado Maracanã, com público de 174 mil pessoas pelos registros da Fifa, ficou em silêncio diante do triunfo celeste. Então branca, a camisa da seleção passaria a ser amarela, para tentar apagar a triste memória de um favorito que jogava pelo empate, mas caiu para o azarão.

O goleiro brasileiro, Barbosa, nunca se livrou da fama de culpado. Acusado de falha no lance, nunca se recuperou psicologicamente da decepção, assim como os outros brasileiros que estavam em campo. A equipe do técnico Flávio Costa havia feito 13 gols nos dois últimos jogos e precisaria apenas de um empate para erguer pela primeira vez a taça Jules Rimet. Friaça ainda abriu o placar no começo do segundo tempo, até Schiaffino empatar. Em nova jogada pelo mesmo lado da defesa, Ghiggia decretou a vitória, aos 34 minutos do segundo tempo.

Dos 22 jogadores daquela partida, o camisa 7 era o último sobrevivente. Isso fez com que ganhasse no Uruguai o apelido de “O último campeão”. Apesar de ter ganho a Copa também em 1930, quando recebeu o evento, o país tem na heroica vitória de virada no Maracanã a lembrança mais especial e ícone da garra e da superação do país. 

A morte dele levou até mesmo a Associação Uruguaia de Futebol (AUF) a suspender a rodada do próximo fim de semana de todos os campeonatos. O ex-capitão da seleção do país, o zagueiro Diego Lugano, também lamentou a morte. “Tinha que ser um 16 de julho o dia em que Alcides partiria deste mundo. Obrigado por regar nosso solo com glória. Será relembrado por toda a eternidade”, escreveu no Twitter o defensor.

A última visita de Ghiggia ao Brasil foi durante a Copa de 2014. Em evento no Maracanã antes do início do Mundial do ano passado, o uruguaio posou para fotos ao lado do brasileiro Jairzinho e lamentou, mais uma vez, ter decepcionado o público brasileiro. “Ganhamos, eu e meus companheiros, aquela Copa e demos alegria ao nosso país. Mas lamento que tenha deixado o Brasil inteiro triste”, disse o ex-jogador ao Estado.

No ano anterior o uruguaio também esteve no Brasil. Em dezembro, participou do sorteio dos grupos da Copa, na Costa do Sauípe (BA). Tinha um olhar sereno e caminhava apoiado em uma bengala. A certa compaixão do ex-ponta-direita pela derrota brasileira começou logo naquela tarde de 16 de julho. Ao deixar o estádio e ver as ruas do Rio de Janeiro vazias e sem festa, Ghiggia teve a certeza de que se tornaria um carrasco inesquecível.

Ironicamente, o gol contra o Brasil em 1950 foi o último dele pela seleção uruguaia. Dois anos depois, Ghiggia defenderia pela última vez o país, antes de se transferir para o futebol italiano. O ponta não foi liberado pela Roma para jogar a Copa de 1954, na Suíça.

SELEÇÃO ITALIANA

 descendente de italianos nasceu em Montevidéu e foi revelado pelo Peñarol. Ganhou destaque no clube ao ser campeão uruguaio em 1951 e 53. Logo depois, acabou sendo negociado para a Roma. No clube italiano, ficou oito anos e ganhou apenas um título de expressão: a Taça das Cidades com Feiras, que deu origem à atual Liga Europa. 

Em 1961, Ghiggia foi negociado com o Milan, onde foi campeão italiano, mas atuou em apenas quatro jogos e não fez gol. Antes, em 57, chegou a defender a seleção italiana. Com 31 anos, foi convocado para disputar as Eliminatórias para a Copa de 1958, na Suécia, mas não conseguiu ajudar a levar a Azzurra para o Mundial – esta foi, inclusive, a última edição de Mundial em que os italianos ficaram fora.

Ghiggia voltou ao futebol uruguaio em 1962 para defender o Danúbio, onde atuou por sete anos, até se aposentar com 42 anos de vida. Viveria mais 66 anos, até se despedir uma semana depois de o Brasil ter completado o primeiro aniversário de outra derrota tão dura em sua história, os 7 a 1 sofridos diante da Alemanha.

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