Carla Carniel / Reuters
Carla Carniel / Reuters

Excesso de jogos, o maior inimigo dos jogadores veteranos no futebol brasileiro

Atletas com mais de 30 anos são mais propensos a contusões no apertado calendário da temporada do Brasil

Eugenio Goussinsky, especial para o Estadão

05 de maio de 2022 | 05h00

O futebol tem ampliado suas dimensões em várias áreas. A velocidade média dos jogadores subiu, assim como a distância percorrida por eles em uma partida. Tudo em função da evolução da medicina esportiva, da preparação física individualizada, da capacidade de avaliar o desgaste muscular, de técnicas de reforço da musculatura e métodos modernos de fisioterapia.

O tempo de carreira de um jogador também cresceu. Junto com isso, porém, veio o aumento da quantidade de jogos. E, por outro lado, a imposição de limites do corpo a todos esses avanços: por mais que a ciência se desenvolva, fica muito difícil para times formados por veteranos aguentarem o ritmo contra equipes mais jovens, ainda mais com o excesso de partidas, ressalta o professor de Educação Física, Vladimir Modolo, mestre em Fisiologia do Exercício pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e preparador físico do Santo André no título da Copa do Brasil de 2004.

"Primeiro, precisamos pensar que atletas mais velhos apresentam desgastes físicos osteoarticulares (osso e articulações) que impedem uma sequência de treinos que poderia ajudar na manutenção da performance”, explica.

Sem uma sequência de treinos, portanto, fica inviabilizada uma sequência de jogos. Mas, mesmo com o treinamento, o excesso de partidas e exercícios seria prejudicial ao corpo. Neste sentido, a própria idade do jogador, apesar de ter ampliado seus limites, acaba, em algum momento, se tornando um obstáculo natural.

“Estes atletas (com mais 30 anos) necessitam de um tempo maior de recuperação e uma carga de treino diferenciada. Enquanto os atletas mais novos estão treinando modalidades de potência e velocidade muscular, os mais velhos precisam de treinos regenerativos e de reparação muscular para amenizar esses desgastes”, observa Modolo. Precisam de mais descanso e menos força, portanto.

O preparador físico conta que, quando um atleta envelhece, perde massa muscular e carece de um tempo maior de recuperação entre os treinos. Atletas mais jovens se recuperam em aproximadamente 12 a 18 horas de um treino de potência muscular (vale para as arrancadas durante os jogos também); os mais velhos dependem de 24 a 36 horas para os músculos voltarem ao normal.

“Isso impede que ele (jogador mais velho) treine tanto quanto os mais novos, e é preciso conciliar tudo isso com a agenda dos jogos. Esta logística de treinos e de quantidades de intervalos de descanso e jogos é que faz com que a receita dê certo para uns e não tão certo para outros atletas”, diz.

Estudo da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (2001) já apontava esta tendência de desgaste muscular há algumas décadas. No trabalho, há a afirmação de que existe uma diminuição da massa muscular, da potência anaeróbica e uma perda da força muscular à razão de 1% ao ano após os 30 anos do atleta (efeitos que podem ser atenuados com o treinamento regular, segundo a entidade).

No futebol, a perda de massa muscular, ainda que lenta, acaba se tornando uma limitação maior em função do aumento da velocidade do jogo que, segundo Modolo, passou de uma média de 12 km/h nos anos 1980 para uma média de 17 km/h atualmente. E a distância percorrida por um jogador subiu de cerca de 9 km nos anos 1970 e 1980 para cerca de 14 km nos dias atuais.

Além da maior intensidade, a quantidade de jogos também aumentou. Se nos anos 80 uma equipe considerada grande atuava cerca de 50 partidas por ano, hoje em dia o número de jogos é de cerca de 80, numa média próxima de um jogo a cada quatro dias.

PROFISSIONAIS E AMADORES

No jogo entre Corinthians e São Paulo, no Morumbi, pelas semifinais do Paulistão, em março, a diferença de idade entre as duas equipes acabou sendo fator determinante para a vitória são-paulina por 2 a 1. E serviu como um exemplo de como uma sequência de jogos, com intervalos curtos, prejudica as equipes formadas por atletas com maior idade.

O São Paulo, com vários atletas abaixo dos 20 anos, se impôs, contando inclusive com a vantagem de ter jogado quatro dias antes, enquanto o Corinthians, com muitos jogadores acima dos 30, teve apenas dois dias de descanso.

“O pico de desempenho físico de um atleta de futebol profissional se dá em média entre os 26 e 28 anos. Depois dessa idade, a recuperação muscular após exercícios intensos fica prejudicada e o ganho de massa muscular, assim como o desempenho físico, são menos intensos”, explica Ricardo Contesini, médico da seção de Cardiologia do Esporte do Instituto Dante Pazzanese e responsável pelo serviço de cardiologia do Instituto Reaction.

Segundo Contesini, vários fatores, como aspectos genéticos, tempo de treinamento e histórico de lesões influenciam no treinamento e no desempenho muscular destes atletas, principalmente os acima dos 33 anos. “A prática de exercícios ocasiona um quadro inflamatório na musculatura e requer um tempo de recuperação, para os fatores inflamatórios desaparecerem e para cicatrização e formação de novas fibras musculares que tenham sido lesionadas. No atleta veterano esse processo demora um tempo maior em comparação com o jovem.”

De uma maneira proporcional, os limites da Ciência afetam também aqueles que praticam esporte por lazer ou de forma amadora. Jogadores de fim de semana e de competições entre sócios de clubes e comunidades, por exemplo, também precisam estar atentos com as limitações da idade. “A grande diferença se baseia principalmente na força e na carga de treinamento”, ressalta Contesini.

O médico diz que, por mais que o amador seja dedicado, ele não terá o mesmo desempenho de um atleta que faz do esforço físico a sua profissão. Isso não quer dizer que o atleta amador e o praticante por lazer não precisem de cuidados especiais antes, durante e depois dos jogos.

“As precauções são muito parecidas, mas em intensidades diferentes. O cuidado com a alimentação e com o sono são essenciais para a recuperação pós-treino e atividades. O acompanhamento com médico especializado em esporte, principalmente na parte cardiovascular, é essencial para avaliação de riscos e possíveis doenças silenciosas e, na parte osteomuscular, para prevenir lesões e aumentar o desempenho”, explica.

CONTUSÕES SÃO REFLEXO

A trajetória do ex-zagueiro Alex, hoje com 39 anos, que foi campeão da Copa do Brasil pelo Santo André e, entre outros títulos, conquistou o Paulista, a Libertadores e o Mundial de 2005 jogando pelo São Paulo, retrata em grande parte a interferência das questões físicas em um jogador com o passar dos anos.

Quando iniciou, Alex conta que esbanjava vitalidade, com 18, 19 anos. Conseguia disputar jogadas em velocidade, muitas vezes com atacantes rápidos. “Quando você é novo, sente muito pouco mesmo. Sobra vitalidade. Eu podia jogar de manhã, treinar à tarde e à noite que não tinha problema. Nem lesões. O jogador jovem se adapta bem ao treino forte. O corpo se acostuma”, afirma.

Nos primeiros anos de carreira, o organismo de Alex acabava funcionando como um instrumento para que ele encarasse cada um dos desafios. “Até 2011, nunca tive contusões musculares mais fortes. Se tivesse uma contusão, me recuperava em menos de uma semana. Já no fim da carreira, eram cerca de 20 dias ou mais para sarar”, conta.

Foram as lesões, a partir de 2011, quando se aproximava dos 30 anos e atuava pelo Sport, que prejudicaram a continuidade da carreira. Foram se ampliando de forma gradativa. E, perto de se aposentar, se tornaram frequentes. 

“Parei por causa das lesões mesmo. Fôlego eu ainda tinha. Estava jogando pelo Camboriú (SC), em 2018. Mas vinha de períodos de seguidas contusões: sentia o adutor, a coluna, o posterior. Joguei apenas 6 de 18 partidas. Senti que não tinha como contribuir. Vi que era mesmo a hora de parar”, lembra o ex-zagueiro, proprietário de uma mercearia e de uma barbearia em Camboriú.

Alex diz que conseguiu prolongar a carreira até os 35 anos em função das precauções que aprendeu a tomar. “Antes, eu comia de tudo. Com o tempo, passei a perceber que, quando me alimentava melhor, rendia mais. Mas chega um momento em que não dá mais. Por maiores que sejam os cuidados com o corpo, quando você dá um pique curto, já sente algum músculo. O corpo fica preso.”

RISCO PARA O CORAÇÃO

As contusões constantes, prejudicando o ritmo e a quantidade dos treinamentos, também podem afetar o desempenho cardiovascular de um atleta. “O coração é um músculo e, como todo músculo, ele pode ser treinado para aumentar de tamanho e desempenho. Quanto mais treinado for o atleta, menor será a frequência cardíaca de treinamento dele, pois o coração mais forte pode bater menos por minuto para atingir o mesmo desempenho”, observa o cardiologista Contesini.

De qualquer maneira, o preparador físico Modolo lembra que, graças à Ciência, a longevidade de um jogador de futebol aumentou muito em relação a décadas atrás. Hoje, um atleta de 32 anos ainda pode ser considerado jovem. 

Segundo o ortopedista Marcos J. Cortelazo, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho, o que vai diferenciar o garoto do jogador veterano, de 30 e poucos anos, não é exatamente o desgaste, mas sim o tempo de recuperação da musculatura após o esforço.

“No primeiro, precisamos fisiologicamente de cerca de 18 horas para a recuperação da musculatura para voltar a ter um desempenho adequado, e no segundo este tempo pode demorar entre 36 e até 48h. O que na prática faz com que os mais jovens tenham uma maior resistência, de forma geral”, diz Cortelazo. 

“Os processos metabólicos vão sofrendo alteração com a idade e as fibras musculares vão sofrendo um processo de degeneração, que na prática se traduz em fadiga”, acrescentou.

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