Excesso quebrou clubes, diz Blatter

O ano de 2002 será lembrado no mundo do futebol não apenas como o ano da conquista do pentacampeonato pelo Brasil. Nos principais campeonatos nacionais, 2002 ficará marcado como o fim dos anos dourados para as finanças dos maiores clubes do planeta, obrigando os jogadores a aceitarem uma revisão de seus salários, que vinham crescendo a cada ano desde meados da década de 90. "Houve um excesso por parte de todos e ficou claro que uma reestruturação dos clubes e das formas de financiamento era necessária", afirmou à Agência Estado o presidente da Fifa, Joseph Blatter.Nos últimos anos, a explosão do valor dos direitos de transmissão dos campeonatos europeus possibilitou um aumento vertiginoso dos salários e contratações por valores inéditos. De um lado, as redes de TV estavam dispostas a gastar cada vez mais pelo futebol. De outro lado, os clubes, apostando que os interesses das TVs não seria passageiro, aproveitaram cada centavo recebido para fazer novas contratações, investir em seus estádios e evitar a saída de seus craques.Na França, por exemplo, o total dos salários pagos aos jogadores passou de US$ 118 milhões, em 1995, para US$ 300 milhões, em 2001, apenas nos vinte clubes da primeira divisão. Na Itália, apenas entre 1999 e 2001, os salários dos jogadores sofreram um aumento de 32%. A Lazio, por exemplo, estabeleceu uma média salarial de US$ 120 mil por mês a seus atletas em 2000. Segundo a consultoria Deloitte & Touche, os salários na Inglaterra aumentaram 17% entre 2000 e 2001.Vacas gordas - Em 2001, o último ano do período de vacas gordas, também registrou um recorde no valor das transferências dos atletas. As compras e vendas de jogadores na Europa passaram de US$ 133 milhões, em 2000, para US$ 703 milhões, no ano passado.O investimento nos estádios é outra prova da euforia financeira que viveu o futebol. Segundo a Deloitte & Touche, US$ 322 milhões foram gastos pelos clubes europeus apenas entre 2000 e 2001 para renovar e modernizar seus campos.A nova fase do futebol gerou, de fato, um crescimento na renda da maioria dos campeonatos. Entre 1995 e 2001, a Liga Espanhola registrou um aumento em sua renda de 24%. Na Inglaterra, o aumento foi de 18%, no mesmo período. O problema é que, das cinco principais ligas européias (França, Alemanha, Inglaterra, Itália e Espanha), apenas o campeonato inglês e o alemão davam lucro. Na Itália, apesar dos salários de mais de 400 mil por mês para Batistuta, da Roma, e Del Piero, da Juventus, os clubes acumulavam uma dívida de US$ 130 milhões.Pesadelo - O golpe de misericórdia veio quando as redes de TV, principais financiadoras do "boom do futebol", anunciaram que estavam quebradas. Em 2001, as redes representavam 46% da renda dos clubes europeus e a falência da ITV, na Inglaterra, e da Kirch, na Alemanha, obrigaram todos os clubes, sem exceção, a reverem suas políticas de contratação e de salários.O caso mais dramático foi o da tradicional Fiorentina, que decretou falência e caiu para a terceira divisão da liga italiana. O Lazio, para sobreviver, foi obrigado a vender seus principais jogadores, como Nesta e Crespo, além de diminuir a massa salarial dos que ficaram em mais de 20%. O Barcelona liberou Rivaldo para o Milan, o que gerou uma economia de US$ 7 milhões por ano ao clube catalão.Houve também aqueles que optaram por atos heróicos. O ex-atacante da seleção britânica, Gary Lineker, pagou de seu próprio bolso para não deixar que o Leicester, seu clube de infância, fosse à falência. O Kaiserslautern, da Alemanha, apenas sobreviveu por que os jogadores da equipe fizeram uma doação para salvar o time.Imagem - Além dos cortes, os clubes adotaram outra estratégia: buscar novas fontes de renda, como venda do direito de imagem de um jogador. Um dos craques que foi obrigado a ceder parte da renda de sua imagem foi Ronaldo, ao assinar com o Real Madrid há poucos meses.A crise ainda repercutiu nos novos contratos. Na França, a possibilidade de pagar salários de mais de US$ 150 mil mensais, como é o caso do brasileiro Sonny Anderson do Lyon, já não existe. Cissé, do Auxerre e nova esperança da seleção francesa, ganha "apenas" US$ 38 mil por mês.Diante da nova realidade, a esperança de economistas e de torcedores é de que jogadores, dirigentes e patrocinadores façam uma reavaliação sobre como gerenciar as finanças do futebol mundial para o futuro.Os times mais ricos do mundo, pelo menos antes da crise Ranking Equipe Atividades Financeiras em 2001 1. Manchester United R$ 661 milhões 2. Real Madrid R$ 582 milhões 3. Bayern Munique R$ 514 milhões 4. Milan R$ 509 milhões 5. Juventus R$ 503 milhões Fonte: Deloitte & Touche

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