Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

'Existe um preconceito com quem é mais velho', afirma Luxemburgo

Atualmente sem clube, treinador afirma que Brasil superestimou o impacto do 7 a 1 e passou a valorizar sem necessidade o futebol europeu

Entrevista com

Vanderlei Luxemburgo

O Estado de S. Paulo

11 Janeiro 2018 | 07h00

Vanderlei Luxemburgo está bastante incomodado. A situação do futebol brasileiro e a busca por se espelhar no modelo europeu levaram o técnico de 65 anos a reclamar bastante durante cerca de uma hora de entrevista exclusiva ao Estado, na última terça-feira. Sem trabalhar desde que deixou o Sport, em outubro, o treinador afirmou que profissionais da idade dele têm sofrido rejeição depois da Copa de 2014.

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Quando vai voltar a trabalhar? 

Vamos esperar surgir alguma coisa que eu possa realizar. Recebi algumas ofertas. Eu quis ficar até o fim do ano curtindo minha família. Surgiram algumas coisas que não me interessaram, de fora do Brasil.

Hoje é mais difícil ser técnico?

Os jovens de hoje estão mudando os conceitos que sempre existiram no futebol brasileiro. O que é moderno para você hoje no futebol? Na verdade é tudo uma mudança de nomes. Vejo um conceito de moderno criado externamente e trazido para o futebol. Os jovens treinadores que estão se formando hoje estão simplesmente mudando o nome de ponta para extrema, de contragolpe para transição. Pegam esses nomes para dizer que é moderno. Deixamos de ser referência para o mundo para buscar referências na Alemanha, Espanha e Itália... Naquele futebol pragmático. 

Quando teve essa ruptura do Brasil com suas origens?

A partir de 1990, quando começamos a implantar aqui os três zagueiros. Acabamos com os laterais, com o meia-esquerda e começamos a achar que tínhamos de imitar os europeus. Mas o que eles têm para nos mostrar? 

Tem como corrigir?

Precisamos ter um projeto de governo para o futebol brasileiro, criar centros de excelência para a prática do futebol nas favelas, nos subúrbios. A especulação imobiliária chegou e acabou com os campos de várzea. Temos que pegar nossas raízes e fazer um projeto, sem imitar nada lá de fora. O futebol é patrimônio nacional. Temos que proteger uma matéria-prima do Brasil, como são o petróleo e o aço. Estão batendo na tecla errada da modernidade. Ficam falando que o Luxemburgo está ultrapassado, que o Levir está ultrapassado... Quando cheguei, com 40 anos, o Telê Santana tinha mais de 60 e não era ultrapassado nem o Zagallo. Por que agora nós estamos superados? 

Então o senhor tem sido vítima de preconceito pela idade?

Criaram isso depois da última Copa do Mundo, de que os técnicos brasileiros, depois do 7 a 1, ficaram ultrapassados e não acrescentaram nada para o futebol. Esse preconceito já me fechou muitas portas. É um preconceito do momento que estamos vivendo aqui. Parte da mídia pediu mais técnicos estrangeiros por aqui.

O 7 a 1 criou uma reação muito exagerada?

Muito! Foi desproporcional. A reação não poderia ter uma influência tão radical como teve no futebol brasileiro. Estão extrapolando demais na necessidade da mudança. Tem espaço para todo mundo, de qualquer idade. Não existe cara velho, existe cara experiente. Um escritor não serve por estar velho? O Galvão Bueno vai ter de parar de transmitir jogo por causa da idade? Se você conversar comigo sobre modernidade, eu vou saber falar sobre qualquer segmento. Eu vivo com meus netos de 15 anos, danço rap com eles para acompanhar. Por que técnico fica velho e é tido como acabado? Você fica mais sábio. 

Por que depois do senhor e do Felipão, mais nenhum brasileiro dirigiu times grandes na Europa?

Será que é necessário nós irmos mesmo? Tem a discussão sobre o motivo de não sairmos do Brasil. Nós vivemos bem e ganhamos muito bem aqui. O argentino e o chileno vão porque ganham uns 20 mil dólares por mês. Então o cara vai arriscar. É maravilhoso ter a oportunidade de trabalhar na Europa, é claro. Mas se não for, não tem problema. Você não deixa de ser um excelente técnico por causa disso.

O Brasil teria treinadores em condições de trabalhar lá?

É só você ver nossas dificuldades. Fizemos trabalho aqui com três dias de pré-temporada. Nós somos preparados. Levei fisioterapeuta para trabalhar comigo no Real Madrid. Não tinha. O time do Zidane, do Raul, do Ronaldo não tinha avaliação com o histórico do jogador. Como vou lá aprender alguma coisa se eu levei isso para lá?

Qual elenco foi o mais difícil para você trabalhar?

Todos são complicados. Em um elenco de futebol, tem que ter um cara que é bagaceiro, sabe? Um cara que gosta de algumas coisas diferentes, de uma p..., de uma namorada, de uma farra. Boleiros são jovens. Tem também o cara que é da igreja, e isso a gente respeita. Dentro de um time de futebol não prevalece preferência por religião. A religião é a do clube, então todo mundo tem que rezar a cartilha do clube. Você pode ser evangélico, católico, macumbeiro, pode ser o que quiser. Time de futebol muito comportado não dá certo. Tem que ter um maloqueiro.

O jogador de hoje é bem diferente do da sua época?

O ambiente do vestiário é totalmente diferente do que era anos atrás. Os jogadores não se envolvem tanto com seu projeto, a sua participação, com os colegas. Já vi jogadores meus saírem na porrada no vestiário e eu incentivei, porque depois eles tinham que brigar com os adversários. Hoje em dia, a assessoria de imprensa já liga, passa uma informação para alguém, o empresário entra na história. No Palmeiras eu falei para o Evair que ele precisaria se prejudicar e jogar recuado, para deixar o Edilson e o Edmundo no ataque. O Evair entendeu. Se eu fizer isso hoje, o jogador liga para o empresário para reclamar. O vestiário agora é superlotado. O jogador sai da palestra e em vez de se preocupar só com o jogo, fica com o celular e o fone de ouvido. 

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Você se sente reconhecido de forma devida?

Quando você é vanguarda, a pancada vem. Eu sei que fiz muitas coisas para o futebol brasileiro. Mas você vai levar pancada. Isso não me afeta em nada. Faz parte.

A passagem pela seleção te deixou magoado?

Ficou uma ferida muito grande, porque fizeram uma CPI do futebol, eu só era técnico e me arrancaram da seleção em uma das maiores sacanagens que fizeram com um cidadão no Brasil. Sem prova alguma. Aquilo foi uma covardia. Mas consegui sobreviver e continuar trabalhando. Tiraram uma Copa do Mundo que fatalmente seria a minha, de 2002. O Felipão ganhou com méritos, mas aquele era o meu momento.

Qual o principal mérito do Tite para ter dado certo na seleção?

O trabalho foi uma necessidade. Ele chegou no momento certo. Precisava de mudança. Após a Copa foi muita pancadaria. Na Olimpíada como o Brasil ganhou, jogou para cima a seleção e ele pegou o momento certo. Ele é bom formador, articular de grupo, tem bons jogadores à disposição. Eu me preocupo que o Tite fique na seleção até a Copa do Catar. Depois disso, 80% dessa geração de jogadores vai sair. As seleções sub-20 e 17 levaram pancada. Cadê a próxima geração? Como vamos criar jogadores dentro das nossas características? Ou vamos criar robôs e só falar de tática? Como vamos ter uma seleção sem drible? Alguns jornalistas jovens estão batendo muito na tecla de importância tática, achando que isso prevalece no futebol. Citam o Barcelona, né? Eles jogam com 70% de posse de bola. O Flamengo do Zico também fazia, meu Palmeiras, meu Corinthians também. Por que nós tínhamos excelência na parte empírica e na coordenação motora do futebol? Porque jogávamos em campo ruim e você tinha que se virar para dominar a bola, ter reflexo. Agora as escolinhas de futebol tem todas grama sintética. Não tem dificuldade alguma.

Veteranos fazem coro na reclamação à reclamação de Luxemburgo

A queixa de Vanderlei Luxemburgo em relação ao preconceito com os técnicos mais velhos é endossada por outros treinadores da mesma geração que ele. Técnico da seleção brasileira em 2014, Luiz Felipe Scolari, de 69 anos, comentou em entrevistas que, depois do Mundial, houve excessiva crítica aos profissionais do País e garantiu que, por sua experiência, não vê diferenças entre os métodos de trabalho no Brasil e no exterior.

Levir Culpi, hoje 64 anos, tem discurso parecido. O atual treinador do Gamba Osaka, do Japão, costumava brincar sobre a situação profissão durante a época em que dirigiu o Santos, no ano passado. Culpi citava a falta de reconhecimento a profissionais mais experientes e lembrava a valorização ao futebol europeu.

A admiração ao exterior também foi alvo de ataque por parte de um técnico mais jovem. O atual campeão da Libertadores, Renato Gaúcho, do Grêmio, já tratou com ironia a necessidade de um profissional se atualizar na Europa. "Quem precisa aprender, estuda, vai pra Europa. Quem não precisa vai pra praia. Futebol é como andar de bicicleta. Quem sabe, sabe", afirmou.

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