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Expansão para 48 seleções será pior para a Copa do Mundo do Catar

Competição já é inadequada e aumento no número de equipes só serviria para complicar ainda mais

Steven Goff, The Washington Post

21 de março de 2019 | 04h30

A Fifa vai esperar até junho para decidir se ampliará a Copa de 2022, no Catar, para 48 equipes, mas todos nós sabemos para onde isso provavelmente irá. Os fãs veem uma competição diluída e um caos logístico. A Fifa vê dinheiro.

O torneio já deve crescer 50%, e acrescentar 16 partidas, em 2026, quando as vastas terras da América do Norte o sediarem. Portanto, a ideia de formato maior quatro anos antes do previsto não caiu do céu.

Ao prosseguir, no entanto, os gulosos líderes do futebol, liderados pelo presidente Gianni Infantino, teriam que ir além das fronteiras para encontrar pelo menos mais um país anfitrião e dois estádios adicionais.

Isso se tornaria outro ajuste para uma decisão já imperfeita, que foi prejudicada por acusações de corrupção no processo de licitação; abusos trabalhistas documentados envolvendo migrantes na construção dos estádios do Catar; mudanças de data (novembro-dezembro, em vez de junho-julho) para evitar a abrasada temperatura do verão; e um calendário mais apertado (28 dias em vez de 32) para reduzir o impacto nos horários e jogos das ligas europeias.

O Catar prepara oito estádios para o que supostamente será uma Copa de 32 equipes e 64 jogos, a primeira no Oriente Médio. Mas com a península estendida até seus limites, a Fifa teria que explorar a região para encontrar ajuda.

Torneios compartilhados são difíceis o suficiente entre países amigos que cooperam ao longo dos anos no tanto no processo de licitação como de execução – EUA, México e Canadá sediarão a Copa em 2026. Com o Catar, questões políticas impedem uma solução natural.

Há dois anos, o Bahrein, os Emirados Árabes e a Arábia Saudita – único país que compartilha a fronteira com o Catar – romperam relações diplomáticas, econômicas e de viagens, alegando que o Catar apoia o terrorismo e mantém laços próximos com o Irã. O Catar rejeitou veementemente as acusações.

Sem a flexibilização dessas políticas, a Fifa afirmou que não consideraria a presença de nenhum desses países nos jogos da Copa do Mundo.

Realisticamente, isso então deixaria o Kuwait e Omã, ambos a uma distância de duas horas de avião. A cidade do Kuwait possui um grande estádio (capacidade para 60 mil pessoas), enquanto a capital de Omã, Mascate, tem um local de médio porte a ser levado em conta (34 mil).

Dois estádios sauditas acomodam pelo menos 60 mil e outros dois nos Emirados Árabes têm espaço mais de 40 mil pessoas. A Fifa geralmente exige pelo menos 40 mil lugares para a fase de grupos do torneio.

Com tantas razões para lançar-se sozinha, a Fifa parece estar realizando esforços extraordinários para fazer a expansão acontecer em reuniões nos dias 3 a 5 de junho em Paris.

Por quê? Estudo de viabilidade de 79 páginas encomendado pela Fifa mostrou que uma Copa maior traria receita financeira de até US$ 400 milhões com TV, direitos de marketing e venda de ingressos.

Infantino também vê razões diplomáticas. “Se o futebol pode contribuir para abrir algumas portas e fazer as pessoas se encontrarem e discutirem umas com as outras. Não vamos resolver todos os problemas do mundo, mas talvez cheguemos um pouco mais perto, pelo menos começando a compreender melhor um ao outro”.

Os organizadores do Catar dizem que continuam abertos à ideia de expansão, mas é de se perguntar se dividir partidas com outro país – anos depois de terem sido a única escolha – seria ferir seu orgulho. Sem o apoio do Catar, a Fifa disse que a expansão não avançará.

Expandir o campo em 2026 não foi bem recebido pela maioria dos torcedores em todo o mundo: menos intrigas na qualificação regional, mais pares desmotivados no primeiro round e a possibilidade de grupos ímpares de três equipes. É difícil encarar a expansão acelerada de 2022 como algo mais do que a FIFA acelerando seu esporte favorito: ganhar dinheiro. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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