Eduardo Nicolau/Estadão
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Luis Fernando Verissimo
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Expatriados

O Brasil hoje exporta matéria prima futebolística como minério de ferro. Não nos identificamos com nenhum deles. 

Luis Fernando Verissimo, colunista

16 Junho 2018 | 04h00

Um pouco de história antiga. Na seleção que ganhou a Copa de 1958, a nossa primeira, todos os jogadores convocados atuavam no Brasil. 

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Se não me falha a memória, o que eu duvido, só um, o centroavante Mazzola, estava em vias de deixar o Palmeiras, com o passe vendido para a Itália. 

No time de 1962, a mesma coisa: só jogadores daqui, conhecidos da torcida. 

Quando o João Saldanha, na sua primeira entrevista como técnico da seleção de 1970, anunciou o time titular que já estava pronto na sua cabeça, houve quem discordasse de uma ou outra posição, mas todos acompanhavam os campeonatos locais e conheciam as “feras” escaladas pelo Saldanha.

 

Entre parênteses: como todos se lembram, ou pelo menos todos os velhos, João Saldanha durou pouco como técnico da seleção, derrubado, diz a lenda, pelo presidente Emílio Garrastazu Médici, que queria o centroavante Dario no time. Foi o Saldanha que também anunciou que o Pelé estava com problemas de visão. Fecha parênteses.

Na seleção que está na Rússia e estreia amanhã contra a Suíça, a maioria joga fora do Brasil. Quem acompanha os campeonatos europeus vê os expatriados jogarem, mas não tem a mesma intimidade com eles que tinha com os jogadores de casa. 

O Brasil hoje exporta matéria prima futebolística como minério de ferro. Em muitos casos, os expatriados fazem toda a sua carreira, de infantil a veterano, fora de casa. Não nos identificamos com nenhum deles. 

Às vezes, ouvimos notícias de um jogador brasileiro que está brilhando no Afeganistão e só podemos dizer “Quem?”, pois não temos a menor ideia de onde saiu. 

O que pode explicar o relativo pouco interesse no Brasil pela Copa do Mundo russa.

Ouve-se falar que camisetas e outros produtos ligados à seleção brasileira estão encalhando nas lojas, e nem a 10 do Neymar está saindo como esperado. Mas nada que uma campanha vitoriosa a partir de amanhã não possa resolver.

*

Entreouvido na torcida portuguesa, depois do empate com a Espanha:

- O Cristiano Ronaldo não fez nada durante todo o jogo.

- Ó pá. O Cristiano Ronaldo fez os três gols de Portugal!

- Sim, mas fora isso...

*

É sempre um prazer ver a Espanha jogar. Mas não posso evitar o pensamento que é o mesmo prazer que se tem vendo os Harlem Globetrotters jogar... 

*LUIS FERNANDO VERISSIMO É ESCRITOR E COLUNISTA DO ‘CADERNO 2’

 

 

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