André Lucas/Estadão
André Lucas/Estadão

Exposição em São Paulo destaca a história de luta do futebol feminino

Mostra no Museu do Futebol narra a evolução da modalidade no País e a luta pela igualdade em campo

Catharina Obeid, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2019 | 04h30

O contra-ataque é um lance de resistência, de força, onde apesar de o time estar sendo pressionado, não desiste e corre atrás do gol e, consequentemente, da vitória. Da virada até. A jogada dá nome à nova exposição do Museu do Futebol, em São Paulo, inaugurada nesta segunda-feira para convidados e aberta ao público geral na terça-feira. "Contra-Ataque! As mulheres do futebol" é mais do que uma amostra, é um manifesto a favor da igualdade de gêneros em campo.

O mote é a Copa do Mundo feminina, torneio que acontece na França a partir do dia 7 de junho, mas o ambiente escuro do primeiro corredor mostra que no Brasil a história começou muito antes disso. Os relatos e registros começam já na década de 30, quando os jogos de mulheres eram atrações de circo. "Não é do ponto de vista bizarro, mas de um lugar onde elas podiam jogar", conta Daniela Alfonsi, diretora de conteúdo do museu, em entrevista ao Estado. "Palhaças ou jogadoras?", questiona uma das manchetes apresentadas na exposição. Essa foi  publicada no jornal O Imparcial, em 1941.

Dando sequência à linha do tempo, um novo capítulo do futebol feminino é revelado. Esse, ainda mais obscuro que o anterior, contempla cerca de quarenta anos da nossa história. Começa em 1940, quando o interesse pela categoria começava a aflorar. Registros apontam a existência de 10 times femininos de amadoras no subúrbio do Rio de Janeiro. Duas dessas equipes atuaram antes do clássico entre São Paulo e Flamengo em maio daquele ano, mas a novidade provocou debate não só da imprensa, como também da sociedade. Uma carta foi enviada a Getúlio Vargas clamando pelo fim do futebol de mulheres e Adyragram assume um papel que vai além do de zagueira: o de porta-voz. A função era basicamente a mesma, defender. Nesse caso, o direito das mulheres jogarem futebol.

Nada feito. Instaurado em abril de 1941, o Decreto-Lei nº. 3199 proibia as mulheres de praticarem esportes considerados violentos à natureza feminina, alegando que podiam causar infertilidade, danificar o equilíbrio psicológico e sugerindo que era uma maneira das mulheres se exibirem. Registros da época mostram que não se tratava só da opinião de parte da sociedade incomodada com a prática e a favor da preservação da estética de feminilidade, mas também com embasamentos médicos, morais e biológicos contra o "desvio de conduta" que as mulheres tinham perante a sociedade - inclusive a "função orgânica" de gerar filhos saudáveis.

Recheado de dados e fotografias, o painel introdutório mostra que, ainda que de modo não oficial, elas continuavam jogando. E desafiando. Uma das mentoras foi presa por aliciar meninas para a prostituição enquanto tentava levar suas jogadoras para uma partida  na Argentina. Em 1959, um amistoso entre atrizes paulistas e cariocas foi marcado para acontecer no recém-inaugurado Pacaembu. A Federação Paulista proibiu a partida, mas a organização encontrou uma maneira de driblar o veto: focar no evento beneficente. "Jogos femininos que chegaram a ser noticiados pela imprensa tiveram apoio do público, mas constantemente vinha alguém dizendo que é proibido e interrompe o ciclo", relata Daniela.

O decreto-lei não citava o futebol, algo que foi contemplado no avançar da história - e da exposição. Em 1965, o Conselho Nacional de Desportos criou uma regulamentação em que reafirmava a proibição e, aí sim, citando nominalmente o futebol. Esse período durou até 1979, quando a prática feminina deixou de ser proibida. Aqui, é importante destacar que a não proibição não significa que tenha sido regulamentado, o que aconteceria três anos mais tarde, mas a linha do tempo já vai ficando com um ar mais leve, quase que alegre, ainda que repleta de relatos de luta. Incansáveis e determinadas, as pioneiras contra-atacavam. 

No panorama internacional, a situação era outra. Em 1970 aconteceu o primeiro Mundial da categoria, na Itália, que consagrou as dinamarquesas campeãs. No ano seguinte, as leis proibitivas foram revogadas também na Inglaterra e na França. No Brasil, enquanto Pelé se despedia da seleção brasileira, uma mulher fazia história: Léa Campos resistia à ditadura e às diversas vezes em que foi detida por subversão para se tornar a primeira mulher a apitar uma partida de futebol. Para isso, a mineira precisou convencer Médici a escrever uma carta ordenando que João Havelange (então presidente da CBD) liberasse o seu diploma. Assim ele fez, mas anunciou em coletiva como um mérito seu. "É sempre essa ideia de órgãos ou dirigentes homens que resolvem dar espaço para as mulheres", conta Daniela. A exposição vai além e mostra que para isso acontecer, elas precisaram lutar. 

O próximo ambiente é quase como um tapa na cara. Daqueles positivos, que te fazem refletir. Treze televisões mesclam frases machistas e preconceituosas com grandes jogadas do futebol feminino. Se engana quem pensa que são ideias só do passado, como a convicção do "sexo frágil". Frases ditas em 2019, nas redes sociais, também têm vez aqui. "Seria mais atraente se elas usassem shorts mais curtos", mostra uma das telas. Um pebolim feminino, tótens das dez homenageadas, um grande álbum de figurinhas interativo, uma coleção de trinta camisas e um painel contando 16 diferentes histórias, com a ajuda de vídeos e objetos, completam a exposição. 

COPA DO MUNDO

A seleção brasileira estreia no torneio na França no dia 9 de junho, diante da Jamaica. Depois, enfrenta as outras adversárias do Grupo C: a Austrália, dia 13, e a Itália, dia 18. Tudo isso vestindo um uniforme próprio para elas, o que nem sempre aconteceu. No torneio experimental realizado na China, em 1988, elas ainda usavam as sobras do time masculino. "A Roseli me contou que ela usava a 11 escrito 'Romário' nas costas. Nossas roupas eram todas grandes, não tínhamos nada específico. Usávamos chuteira do masculino já usada, vinha com o formato do pé dos caras", relembra Rosana.

A ex-jogadora foi lateral, meia e atacante. Começou profissionalmente no São Paulo, mas passou também por clubes como os franceses Lyon e Paris Saint-Germain. Isso sem contar as diversas convocações pela a seleção brasileira. Rosana estava no time de 2007, quando o Brasil conseguiu seu melhor resultado em um Mundial: vice-campeão. "Em toda disputa de bola a gente via a chance de contribuir para um futebol feminino melhor, uma garantia de seguir jogando".

Para chegar onde chegou, ela precisou combater o preconceito, inclusive do seu pai. Na escola não integrava o time de vôlei, como as outras meninas, mas preferia jogar bola com os garotos. Rosana só foi descobrir o futebol feminino aos 14 anos, ainda em um mundo bastante afastado, na televisão. Hoje, defende a ideia da modalidade servir como uma ferramenta social capaz de tirar as meninas da rua, evitar a gravidez precoce e afastar da criminalidade. Fora isso, luta para que haja interesse comercial e pede que o público pare de comparar os jogos masculinos e femininos. "É um jogo de muita habilidade, com lances brilhantes e meninas que quando tomam uma porrada levantam rápido. Elas merecem ser assistidas e respeitadas".

SERVIÇO

Data: 28 de maio a 20 de outubro

Funcionamento: Terça a domingo, das 9h às 17h | Entrada gratuita às terças

Endereço: Museu do Futebol - Praça Charles Miller, São Paulo

Valor: R$ 15 | Meia-entrada: R$ 7,50 | Clientes Itaú pagam meia-entrada

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