Thiago Mattos
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Extradição de Marin garante privilégios em Nova York

Prisão domiciliar será em um dos bairros mais caros do mundo

JAMIL CHADE - Correspondente em Genebra, THIAGO MATTOS - Especial para o Estado - Nova York, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2015 | 17h00

Rodeado por grifes cobiçadas como Gucci, Prada e Louis Vuitton, vizinhos famosos e a duas esquinas do Central Park. É assim que o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) José Maria Marin vai cumprir sua prisão domiciliar em Nova York, após ter negociado sua extradição para os Estados Unidos.

Sua chegada em Nova York acontece até quinta-feira. Antes, seus advogados desembarcarão na cidade, assim como seus aliados mais próximos. Marin deixará Zurique, onde está preso desde maio, acusado de receber propinas para a Copa do Brasil e para a Copa América. Na ocasião, Marin foi preso com mais seis dirigentes do futebol  em um hotel de cinco estrelas, na cidade onde acontecia o encontro anual da Fifa.

A previsão é de que o brasileiro pague o equivalente a R$ 40 milhões como garantia e aguarde por seu julgamento em Nova York, no apartamento de quarto e sala que possui desde 1984. Ali, ele pretende montar sua estratégia de defesa. Seus advogados insistem que ele vai se declarar inocente na primeira audiência numa corte do Brooklyn e insistir que não existem rastros do dinheiro. Ainda na prisão em Zurique, Marin usou um dicionário que estava na biblioteca da cadeia para traduzir as doze páginas do inquérito em que é mencionado. 

Sua chegada aos EUA se contrasta com a recepção que ele teve em 2013 e 2014, quando era o todo-poderoso presidente da Copa do Mundo. Naquela ocasião, a US Soccer (associação de futebol nos EUA) organizou eventos para homenageá-lo e até a Casa Branca o enviou uma carta. Agora, ele chegará algemado. 

Vizinhança

Com vista para a Quinta Avenida, seu imóvel na Trump Tower é avaliado em US$ 2 milhões. Por fora e por dentro, tudo no endereço remete à sofisticação. O prédio de 68 andares é um dos arranha-céus mais icônicos do skyline nova-iorquino, e tem como vizinhos o ator Bruce Willis e o jogador de futebol Cristiano Ronaldo. Quem também mora no mesmo local é Chuck Blazer, outro ex-dirigente da Fifa e que foi o responsável por delatar todos os demais. A seus advogados na Suíça, Marin apenas insistia que queria voltar a "dormir na minha cama e tomar um banho na minha ducha". 

Além da parte residencial, a torre espelhada de pisos e paredes de mármore abriga um complexo comercial, com livre acesso ao público e que fica apinhada de turistas mesmo em dias de semana. Do átrio principal é possível avistar de longe uma luxuosa cascata d'água que cai por uma parede de mármore. Lá dentro, turistas e moradores acessam jardins suspensos, além de uma praça arborizada com bambus e uma escultura em forma de maça do artista plástico brasileiro Romero Britto. Também ali, um restaurante e um bar de luxo usam toalhas brancas, mesma cor dos lençóis que protegeram das fotos os presos da Fifa no dia 27 de maio.

Do lado de fora do endereço de Marin na ilha de Manhattan, uma fachada de bronze reflete os carros de luxo que param na frente do prédio. Um porteiro vestindo fraque, luvas brancas, gravata borboleta e chapéu de guarda sorri para todos que entram e saem pela porta espelhada que ele abre.

Questionados sobre a família Marin, os funcionários do local admitem que há muito que ninguém aparece por ali. “Faz tempo que não os vejo por aqui”, afirmou um concierge sobre a presença do senhor e da senhora Marin no condomínio. 

O lobby do prédio onde Marin vai morar é semelhante ao do hotel de cinco estrelas em que o brasileiro foi preso na Suíça. A negociação dos advogados de Marin garantiu que a ida do brasileiro aos Estados Unidos não lhe tire privilégios. Se condenado, o ex-dirigente pode pegar até 20 anos de prisão. Em caso de bom comportamento, poderá ter sua esfera de circulação gradativamente ampliada. 

Primeiro, será autorizado a deixar o prédio e andar pelas ruas. Depois, pela cidade. Mas o homem de 83 anos dificilmente voltará um dia ao Brasil se for condenado. 

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