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Treinadores estrangeiros que cheguem ao Brasil precisam conhecer bem a máxima 'o Brasil não é para principiantes'

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

O futebol tem proporcionado tantos acontecimentos estranhos e bizarros que você pode fazer a sua escolha. Há para vários gostos. A minha escolha recai sobre o glorioso Internacional de Porto Alegre. O Inter vem, de tempos para cá, trocando sistematicamente de treinadores. Talvez a origem disso seja o resultado de sucessivos Gre-Nais que não o favorecem. O fato é que volta e meia recebo a notícia de que o Inter se mexe na tentativa de trocar de treinador.

Desesperado por essas indecisões existências que levam a contratações apressadas, concebeu o plano de esperar, com um técnico provisório, calmamente o fim da temporada de 2019 para começar a de 2020 com, aí sim, um treinador contratado depois de exaustiva reflexão e estudo. Veio Eduardo Coudet, relativamente jovem, muito bem falado na Argentina.

Ele teve o azar de se deparar com a pandemia e, num certo sentido, foi vítima dela. O Inter, como de resto todos os outros clubes, jogou relativamente pouco em 2020 e não pude vê-lo muitas vezes em ação. Mas o que vi foi suficiente para ver um time arrojado, muito aguerrido, bem posicionado, sem dúvida “moderno”. Em outras palavras, o Inter estava plenamente adequado ao seu tempo e período histórico: treinador estrangeiro, concepção de jogo audaciosa e principalmente adesão dos jogadores às noivas ideias.

Quando chegou eu, daqui de São Paulo, não tinha ideia de quem fosse. Achei o nome engraçado e me disseram que vinha do Racing. Acho que nem os jogadores sabiam muito sobre ele. “Coudet quem?”, pode ter sido a primeira pergunta de algum boleiro mais engraçadinho, para gargalhadas gerais no vestiário. Mas parece que ganhou o time e foi levando.

No entanto, por motivos dos quais não tenho a menor ideia, subitamente o moderno, revolucionário e vigoroso Coudet deixou o clube como chegara. Sem dar qualquer prazo, sem dar tempo para pensar, pegou seu boné e foi para o Celta de Vigo que, convenhamos, não é exatamente um clube grande da Espanha. O Inter está agora tentando reaver a multa contratual.

Não importa aqui saber o que aconteceu. O que importa é o que fez o Internacional em seguida. Talvez escaldado pelo acontecido, os gaúchos resolveram abandonar qualquer nova atitude baseada no estudo sério, meditação e pesquisas de nomes ao redor do mundo e agiram à brasileira, isto é, rapidamente, sem deixar muito tempo para a torcida e os jogadores pensarem e se darem completa conta da situação.

A providência que tomaram é curiosa. Fico pensando num hipotético jogador do Inter que, por algum motivo, digamos a covid, tivesse que se recolher em quarentena em casa. Digamos que esse jogador não tivesse qualquer disposição para seguir noticiários na TV e tenha ficado deitado a maior parte do tempo a ouvir música com seus fones de ouvido. Como hoje em dia é impossível não saber as novidades, ao dar uma olhada imprudente em seu celular, ele rapidamente se inteirou que seu técnico não era mais Coudet, e para seu lugar tinha chegado Abel Braga!

Lá estava, com seu sorriso simpático, paternal, brasileiríssimo, o velho boleiro de 68 anos, que um ano e meio antes, sob vaias, criticas, desprezo e até insultos, tinha deixado o Flamengo para exatamente dar lugar ao moderno dos modernos, guia genial da nação rubro-negra, o português Jesus. As conquistas do Fla só serviram para enterrar ainda mais a reputação do velho Abel.

Pois bem, claro que haveria lugar para Abel ainda no futebol brasileiro, mas no Inter? O imaginário jogador convalescente de covid teria ficado perplexo. E a modernidade? E o novo? Os treinadores estrangeiros que chegam ao País, é bom que se inteirem muito cedo da máxima atribuída a Antonio Carlos Jobim: “O Brasil não é um país para principiantes’.

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