Paulo Liebert/Estadão
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Falando do jogo

Grafite sabe o que falar e como falar. Um pouco hesitante no começo agora já o sinto completamente à vontade na nova vida

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2018 | 04h00

Não cheguei a ver Leônidas da Silva jogar. Mas cansei de vê-lo como comentarista de jogos que chegavam pela televisão. Nos anos 50, quando a TV Record transmitia, lá estava ele no meio tempo e no fim do jogo, microfone em punho, fazendo seus comentários. Como não o tinha visto jogar nada ligava, na minha imaginação, o antigo jogador, acrobático, malandro, polêmico, craque absoluto, à figura em gravata e paletó, bigode aparado, quase calvo, falando numa voz suave um português impecável.

O negro Leônidas da televisão se distinguia do negro Leônidas dos campos exatamente por isso: na TV, ao contrário dos campos, ele era o único negro, solitário, excepcional. Naqueles tempos nem jogadores brancos se transformavam em comentaristas. Poucos eram capazes de dar entrevistas um pouco mais longas, quase todos fugiam dos microfones, pois sabiam de suas limitações de expressão. 

Temiam perguntas capciosas que podiam colocá-los em situações desagradáveis. Dada a diferença de português entre imprensa e jogadores, havia receio de armadilhas porque, às vezes, os jogadores sequer compreendiam inteiramente a pergunta do repórter. Não por serem burros, mas por falta de escolas e pobreza.

Leônidas, o Diamante Negro, era, portanto, um caso único. Trabalhava ao lado de gente como Paulo Planet Buarque, elegante nas maneiras, no aspecto e no linguajar, que caprichava nas frases e no raciocínio. O Diamante Negro não se constrangia absolutamente, e seus comentários eram igualmente corretos e elegantes. Onde ele aprendeu a se expressar de forma tão eficiente não tenho a menor ideia. 

O fato é que lá ficou por anos e anos, o único jogador negro que fez carreira como comentarista. 

Leônidas da Silva saiu da minha vida da maneira usual. Um belo dia, quando dei por mim, não estava mais lá, nem a Record, com o futebol dos domingos, nem o velho bairro, muito menos os garotos que, como eu, acompanhavam as transmissões.

Vieram outros jogos, outras transmissões e outros comentaristas. Com o decorrer do tempo comecei a notar que ex-jogadores se incorporavam ao grupo de comentaristas, antes restrito a profissionais da imprensa. Recentemente constatei uma verdadeira invasão de ex-jogadores na medida em que canais de televisão abriam suas portas para o esporte. O jogador famoso passou a ser uma atração a mais, e os que falam melhor se deram bem. 

O nível de educação e convívio social dos jogadores tinha aumentado muito, de modo que, no meio dos atuais, Leônidas da Silva não seria uma exceção. A não ser num ponto: continuaria a ser, se não o único, um dos únicos negros a fazer longa carreira entre os comentaristas. É incrível que, mais de 60 anos passados, Leônidas continue um raro exemplo de jogador negro a comentar por anos jogos do esporte mais popular, e mais negro, do País. 

É verdade que o futebol não é mais tão popular, mas pelo menos no campo continua negro. Não vou fazer sociologia para explicar o fenômeno. Tanto mais porque a maioria das pessoas sabe perfeitamente as causas. Vou me limitar a dizer que, finalmente, acho que apareceu um negro, outro ex-grande jogador a nos ligar a Leônidas da Silva. Trata-se de Grafite, que iniciou faz pouco sua vida de comentarista de futebol. 

Negro até no nome, ainda atlético, recém-saído dos campos, depois de uma carreira de grande sucesso aqui e no exterior, de carisma provado onde quer que tenha passado. É só lembrar a recepção que lhe deu a torcida do Santa Cruz quando chegou no Recife, já em fim de careira, para jogar no Santinha. Na internet ainda deve haver imagens.

Grafite sabe o que falar e como falar. Um pouco hesitante no começo agora já o sinto completamente à vontade na nova vida. Vai dar certo. Depois de mais de 60 anos Leônidas da Silva tem um sucessor, para nossa vergonha e alegria. 

 

 

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