Falcão: a arte da quadra ao campo

Contra o Egito, Falcão dominou a bola no peito, deu um chapéu no adversário e marcou um golaço. Contra a Rússia, aplicou seu drible mais eficiente, passando o pé por cima da bola, fingindo ir, em uma coreografia com o corpo, para o lado esquerdo. Para espanto do adversário e do público, lá estava a bola no pé direito de Falcão, que prosseguiu lépido, como os atacantes da era romântica do futebol. Era de dribles desconcertantes, momentos que sumiram dos campos e transferiram-se para as quadras de futebol de salão. As jogadas descritas acima aconteceram no último Mundial de futebol de salão, disputado na Guatemala. Agora, Alessandro Rosa Vieira, o Falcão, quer, aos 23 anos, transportar esta arte para os esburacados campos do futebol do Brasil. Uma aventura e, acima de tudo, um desafio. Entre 1992 e 1996, já havia experimentado a mudança no Corinthians, mas não deu continuidade. Nas quadras, jogou com os volantes Zé Elias, com quem tem muita amizade, e Edu, hoje no Arsenal. Depois de consolidar a carreira no futebol de salão - passando, entre outros clubes, por General Motors, São Paulo e Banespa, onde atua - Falcão iniciou a semana fazendo testes no Palmeiras, por indicação do maior ídolo da história do clube, Ademir da Guia. Ninguém melhor do que o ex-craque, de espírito sábio e dócil, para entender a filosofia do espetáculo, a primazia da técnica sobre a brutalidade que vem crescendo a cada geração dentro dos gramados. É o carrinho tentando sufocar o drible, enquadrar a liberdade de movimento em situações previsíveis. No seria ingenuidade de ambos ingressarem num ambiente já contaminado pela competição irracional? Nos últimos tempos, os técnicos impuseram uma espécie de preconceito quando o assunto é a transição de um jogador do salão para o campo. "Vou sempre driblar desta maneira. É o que sei fazer, minha maneira de contribuir. Se quiserem me bater por isso, não tem problema. Apanho, mas continuo", garantiu Falcão. A tarefa não é fácil. Exemplo disso é Manoel Tobias, da seleção brasileira de futsal, considerado o melhor jogador do mundo, que quase não teve chance no Grêmio e foi vetado pelo então técnico Luiz Felipe Scolari. Resistências - Falcão também está encontrando resistências no Palmeiras. O técnico Marco Aurélio mal assiste aos seus treinos, fingindo não ver os "dribles elástico" e os dois gols feitos pelo jogador nos dois únicos coletivos de que participou. "Ele até aceita receber o mesmo que no futsal", admite seu pai, João Eli. As cifras no futebol de salão ainda são muito menores do que as que prevalecem no de campo. Ao lado do pai, Ademir da Guia, com o olhar brilhante de uma época gloriosa, sente-se realizado ao ser novamente rodeado por jornalistas, muitos deles jovens que nem tinham nascido quando ele desfilava seus dribles e lançamentos divinos. "Temos de ver como ele (Falcão) se sente, mas quem é habilidoso no futebol de salão, tende a ser melhor sucedido no campo, já que os espaços são maiores", analisa Ademir. A resposta, só o tempo dirá.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.